Uma cantora que andou sempre à deriva

Depois de ter sido lançado o livro de memórias 'Apenas Miúdos', chega agora às lojas a 'Outside Society', que reúne todos os 'singles' da cantora.

Ninguém vê como nós", dizia constantemente Robert Mapplethorpe a Patti Smith, quando ainda eram apenas dois jovens à deriva em Nova Iorque, cada um com a sua arte, numa parceria que se tornou muito mais profunda que meramente artística. A obra de cada um deles é a prova concreta de que ninguém vê como eles, e agora chega a Portugal a colectânea Outside Society, que reúne todos os singles editados por Patti Smith. A relação entre a cantora e o fotógrafo, que começou no quente Verão de 1967, foi também retratada no livro de memórias Apenas Miúdos (distinguido no ano passado com o National Book Award), sendo também a concretização de uma promessa que Patti Smith fez a Robert Mapplethorpe pouco antes de este morrer.

Apesar de Patti Smith se ter estreado na música com o álbum Horses, em 1975, tinha na altura 29 anos, a cantora e poeta norte-americana saiu de casa dos pais aos 20. Nova Iorque foi o destino dessa "fuga" e o local ideal para concretizar a demanda artística que tanto ambicionava, depois de abandonar os estudos e o trabalho precário numa fábrica na Filadélfia.

Apesar de nesta fase da sua vida não ter qualquer obra de relevo artístico, pode-se dizer que foi precisamente nesta altura que um destino ligado às artes se tornou numa escolha decisiva. Na obra de memórias Apenas Miúdos, Patti Smith confessa o momento em que esta decisão ganha força, quando dá à luz a um bebé que decide não criar: "Um irresistível sentido de missão eclipsou os meus receios. Atribuí isso ao bebé, imaginando que ele simpatizava com a minha situação. Senti-me na plena posse de mim mesma. Haveria de cumprir o meu dever e manter-me-ia forte e sã. Jamais olharia para trás. Não regressaria à fábrica nem à escola para professoras. Iria ser uma artista."

Em Nova Iorque não foram raras as vezes que dormiu na rua, e os primeiros anos ao lado de Robert Mapplethorpe também não foram fáceis: "Íamos visitar museus de arte. Como só dispúnhamos de dinheiro suficiente para um bilhete, um de nós entrava, via as exposições, e depois vinha contar ao outro."

Patti Smith acabou também por testemunhar uma das fases mais intensas da história de Nova Iorque, cruzando-se com nomes como Jimi Hendrix, William Burroughs ou Allen Ginsberg, absorvendo todas essas referências com espírito romântico e beatnik. A passagem pelo mítico Chelsea Hotel acabou por ter um papel central.

Antes da música, eram os desenhos e a poesia que ocupavam os seus ímpetos artísticos. No entanto, quando lançou em Novembro de 1975 o álbum Horses, aquele que é também o primeiro integrado no universo punk/rock nova-iorquino, tudo acaba por mudar. E se hoje Patti Smith é considerada um ícone da história do rock'n'roll (de recordar que desde 2007 integra o Rock and Roll Hall of Fame, além deste ano ter sido distinguida com o Polaris Music Prize), é ao álbum Horses que deve esse estatuto. "Foi isso que eu tive em mente desde o primeiro instante em que entrei na cabina de voz. A gratidão que eu tinha pelo rock and roll por este me ter ajudado a superar uma adolescência difícil. [...] Essas coisas estavam cifradas em Horses, tal como uma saudação aos que haviam aberto caminho antes de nós", recorda no livro de memórias.

As canções passam a partir de então a ocupar um papel central no seu percurso artístico. Na altura o próprio Robert Mapplethorpe disse à cantora: "Patti, ficaste famosa antes de mim." Estes não deixaram de trabalhar em conjunto, já que várias capas dos seus discos são da autoria de Mapplethorpe. A relação que tiveram de tão intensa foi também tumultuosa, marcada pela fome, pela descoberta individual, inclusivamente do fotógrafo, que mais tarde se assume homossexual. Mantiveram-se sempre próximos, até ao dia em que Robert acaba por morrer, vítima de sida, a 9 de Março de 1989.

Para a história fica a relação entre estes dois artistas que andaram sempre à deriva nas suas deambulações artísticas e da qual a compilação Outside Society acaba também por ser um reflexo.

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