Um escritor em busca do espírito do tempo

'Liberdade', mais do que o novo livro de Jonathan Franzen, é já um dos fenómenos literários do ano. A 'Time' classificou-o como 'o grande romancista americano'. Depois de escalpelizar a família Lambert em 'Correcções', o autor volta com a vida tragicómica dos Berglung e da América.

Quando, em 2001, publicou o romance Correcções e se tornava um dos mais promissores escritores norte-americanos, Jonathan Franzen declarou, numa entrevista dada ao jornal inglês The Guardian, que se "odiava" a si mesmo "a maior parte do tempo", que deixava "as horas e os dias passarem sem fazer mais nada além de dormir e beber vodka", que " escrevia e depois rasgava centenas de páginas". Nessa altura não previa que seriam necessários mais oito anos e muitas mais centenas de páginas escritas e rasgadas para terminar um novo livro. Porém, Liberdade, lançado nos Estados Unidos em 2010, fê-lo ascender fulgurantemente de prometedor a consagrado, com direito a figurar na capa da revista Time sob a designação de "o grande romancista americano".

Esta publicação, pouco dada a levar artistas à capa, deu a poucos escritores o privilégio de aí surgirem, mas entre os que o conseguiram contam-se Virginia Woolf, Vladimir Nabokov, Norman Mailer e, mais recentemente, Stephen King.

Nascido no Illinois em 1959, filho de uma americana e de um sueco, Franzen cresceu num subúrbio da cidade de St. Louis, no Missouri. Estudou alemão na universidade e passou um ano na cidade de Munique. The Twenty-Seventh City (1988) foi o seu primeiro romance. Tinha 29 anos. Seguiu-se Strong Motion (1992) que também passou quase despercebido. Ironicamente, foi com o Perchance to Dream. In an Age of Images a Reason to Write Novels, publicado na revista Harper's Bazaar, um ensaio pessimista e desencantado sobre o estado da literatura, que o escritor saiu do anonimato. Este texto, datado de 1996, já denota aquelas que viriam a ser as grandes linhas de força de Correcções e Liberdade (traduzidos para Portugal pela mão da D. Quixote): a rejeição do experimentalismo pós-moderno e o culto da narrativa clássica, onde a construção de um enredo realista e a criação de personagens onde se projectam conflitos morais e éticos permitem traçar um fresco da América contemporânea.

"Ele não é cool como os outros. Ele não é fácil. É mesmo um tanto ou quanto desconfortável", escreveu o jornalista da Time, Lev Grossman. De facto, Franzen leva uma vida pacata, com a sua actual namorada, entre Nova Iorque e Califórnia. Tornou-se um observador de pássaros. Actividade solitária e paciente que revela o mesmo espírito de classificador sistemático que as suas obras denotam. Tanto Correcções como Liberdade parecem querer abarcar todos os tipos humanos, todas as paixões da alma, todos os cambiantes políticos e culturais da actualidade. Porém, tal como Lev Tolstoi, Honoré de Balzac ou Charles Dickens, Franzen parte de um microcosmos familiar para traduzir algo maior: o espírito do tempo. Do seu tempo. Da América de Clinton, de Bush e, por fim, de Obama . Se, para muitos, Correcções é o grande romance da primeira década do século XXI, para outros Liberdade é já o romance da segunda década (o próprio Obama anunciou que era o livro que levava para ler nas férias). Para Lev Grossman ele é simplesmente um "membro de uma espécie em vias de extinção: a espécie dos grandes romancistas".

"Durante muitos anos lutei para encontrar a minha voz como autor. Lutei para encontrar as palavras, os meios para dizer o indizível que sentia dentro de mim", conta o escritor na revista Paris Review, onde relata vários pormenores da sua vida e das suas inquietações ao longo dos oito anos que passou a escrever Liberdade. "Nunca me senti tão preocupado com a linguagem e dizia a mim mesmo que estava a conseguir escrever de forma mais transparente, a conseguir abrir acessos mais claros para a história em si e para as personagens".

No zoo humano criado por Jonathan Franzen habitam famílias em desagregação, homens e mulheres em processos de auto-destruição, ou fragilmente presos a utopias políticas. Encontros e desencontros amorosos, tentativas de redenção destinadas a falhar. O espírito do tempo contado por Franzen é desencadeado mais pelo sofrimento que pela felicidade, opondo-se assim a algumas das principais crenças das sociedades modernas; a crença no progresso infinito, no futuro como um paraíso onde cada um pode encontrar a glória e a alegria e na liberdade como um dado adquirido.

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