Um conto moral que valeu um Pulitzer

'The Little Match Girl Passion' valeu ao compositor pós-minimalista norte-americano David Lang o Pulitzer para a Música em 2008. A obra juntou-o a uma lista de ilustres em que figuram Ives, Copland, Adams e Reich.

David Lang é um entre a família de compositores que, desde os anos 40, viu o seu nome ser inscrito na lista dos vencedores do Prémio Pulitzer para a música. Conquistou a distinção em 2008 com The Little Match Girl Passion, uma composição que cruza memórias da personagem central do conto de A Menina dos Fósforos, de Hans Christian Andersen com ecos da Paixão segundo São Mateus de Bach. A obra acaba de conhecer edição em disco (ver em baixo), em gravação pelo Theatre Of Voices, dirigido por Paul Hillier.

A atribuição do Prémio Pulitzer já contava com uma história de 26 anos quando, em 1943, abriu espaço específico para a música. Joseph Pulitzer, cujo testamento instituíra esta premiação em 1917, não tinha inicialmente previsto a música entre as áreas que anualmente seriam alvo de distinção. Todavia o seu testamento deixara expressa a criação de uma bolsa de estudos anual nesta área. Ao ser elevada a categoria entre os demais prémios (vários em diversas áreas do jornalismo, escrita de ficção, poesia, entre outros), o Pulitzer para a música foi apontado para distinguir a obra de um compositor norte-americano que tivesse conhecido estreia pública nesse ano (mais tarde acolhendo além da estreia a hipótese de destacar também uma obra que nesse ano tenha tido a sua primeira gravação).

William Schumann (1910- -1992) foi o vencedor do primeiro Pulitzer para a música, em 1943, com Secular Cantata N.º 2: A Free Song. A lista de vencedores cresceu ano após ano, juntando entre outros nomes como os de Aaron Copland, Charles Ives, Samuel Barber, Elliott Carter, Wynton Marsalis, John Corrigliano, John Adams, David Lang ou Steve Reich, este último o vencedor deste ano com Double Sextet.

Com a edição em disco de The Little Match Girl Passion, David Lang é assim o mais recente vencedor do prémio a ver a obra distinguida chegar a disco.

O pós-minimalista Lang é já um autor com obra reconhecida, contudo ainda longe da aclamação global que entretanto sorriu já a anteriores vencedores do Pulitzer. Filho da cidade de Los Angeles, onde nasceu em 1957, tem uma carreira que lhe mereceu primeiros sinais de atenção em inícios dos anos 80. Muitos descobriram-no no final da década, como co-fundador do colectivo Bang On A Can, que já interpretou e gravou algumas das composições de uma obra em progressiva afirmação e que conta já com duas óperas e uma discografia de quase dez títulos.

The Little Match Girl Passion parte, narrativamente, do conto de Andersen. É uma história com "uma combinação chocante de perigo e moralidade", explica o próprio Lang no booklet do CD. "É a história de uma menina que tenta, sem sucesso, vender fósforos na rua, é ignorada e morre gelada", descreve. E acrescenta: "Perante tudo aquilo, ela mantém a sua pureza de espírito cristã. Mas não é uma história bonita." David Lang reconhece que pode haver várias formas de entender este conto, "como uma história de fé ou como uma alegoria sobre a pobreza". E alerta para o que entende ser, na visão de Andersen, "uma espécie de parábola, traçando equivalências morais e religiosas entre o sofrimento da menina e o de Jesus". E é aqui que as referências de Bach entram em cena.

Da Paixão segundo São Mateus Lang evoca a forma como os coros não apenas ajudam a contar a história, como a esta juntam um espaço de resposta e comentário. Do cruzamento entre ambos nascendo a ideia que o levou a contar a sua visão deste conto moral.

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