Tim Cook: O motor discreto do império da maçã

Diz que se deixou levar pela intuição quando aceitou o convite de Steve Jobs para entrar na Apple. Um raro momento em que aniquilou a racionalidade e frieza que o caracterizam.

Tim Cook era um nome que muitos tardavam em assimiliar. Steve Jobs foi ganhando uma espécie de estatuto de imortal. Nos intervalos das lutas que travou com as maleitas do corpo, deixou Cook à frente da Apple. Jobs lutou contra um cancro no pâncreas, em 2004, e fez um transplante de fígado em 2009. Mas foi sempre voltando - e rapidamente os holofotes se viravam para si e quase parecia que o ex-patrão da Apple não era de carne e osso (ou tinha sete vidas). Até à última quinta-feira. Dia em que Steve Jobs assumiu a finitude. Escreveu uma carta sucinta e passou a "sua" Apple a Tim Cook. Agora é a valer.

Timothy Cook, hoje com 50 anos, lembra-se bem do dia em que decidiu aceitar o convite de Steve Jobs e trocar a bem sucedida Compaq por uma moribunda Apple. Estava 1998 a começar e cumprira já 16 anos de carreira, os primeiros doze na IBM. "Não havia IPad, IPod, IMac, IPhone", lembrava Cook em 2010 numa palestra na universidade de Auburn, onde completara o curso de engenharia industrial 18 anos antes. Apesar de hoje ser difícil imaginar o mundo sem os gadjets da Apple, Cook mudou a agulha na sua vida planeada com minúcia e confiou na sua intuição, contrariando a lógica e os conselhos de quem melhor o conhecia. "Nos primeiros cinco minutos da entrevista inicial com Steve quis lançar logo a cautela e a lógica ao vento e juntar-me à Apple", disse ele aos alunos da universidade americana, considerada "de segunda linha", onde se formou.

Terá sido uma decisiva perda momentânea de racionalidade, a acreditar nos relatos de quem o conhece. Nos últimos 13 anos Cook agarrou a maçã com as duas mãos e dominou quase todas as áreas: produção, inovação, contacto com o cliente, estratégia, distribuição.Trabalha com uma equipa restrita de cinco elementos que se habituaram ao seu ritmo frenético.

As áreas de design e no marketing são apontadas como as grandes lacunas de Cook - precisamente as áreas de eleição de Jobs. Ao novo CEO da Apple, workaholic assumido, fanático desportista e comedor compulsivo de barritas energéticas, não lhe será difícil absorver os ensinamentos de trabalho em comum com o seu antecessor. Dizem os analistas que haverá uma espécie de "reserva estratégica" de produtos já esboçados por Jobs que darão a Cook uma almofada antes de ser posto à prova perante o mundo com as suas criações.

Mas se a experiência se adquire com trabalho, já o carisma de Steve Jobs é irrepetível. E se, num primeiro olhar, o novo e o antigo líder da Apple até se podem confundir, a sua presença não. E isso foi visível na apresentação do Iphone 4, em que Tim Cook falou num tom constante e monocórdico - deixando saudades dos shows de marketing dados por Jobs. Parece que Tim Cook é assim mesmo: calmo, incapaz de levantar a voz. As comparações entre ambos são, para já, impossíveis de não fazer.

A começar pelos ténis que ambos usam. Jobs escolhe New Balance, Cook prefere a Nike. E talvez esteja na marca de eleição para calçado desportivo a resposta para o rasgo de improviso que o mundo parece pedir a Cook. O novo CEO da Apple é, desde 2005, director da Nike e interessa-se pelo desenvolvimento dos produtos da multinacional, acompanhado o canal de vendas online, a "costumer experience" nas lojas da marca. "Quando caminho nos campus de ambas as empresas [Apple e Nike] sinto um arrepio na espinha", disse Cook.

A Apple vai tentar perceber como sobrevive a Steve Jobs. E Tim Cook vai perceber se "veste" a empresa ao ponto de se confundir com ela ou adopta um novo estilo. E aqui parece haver um dilema entre razão e emoção - entre a razão de Tim Cook e a emoção de Steve Jobs.

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