Roteiro da ferida

Uma colectânea de poemas escritos entre 1971 e 1996, 'Desobediência', celebra uma obra que Nuno Júdice vê como "uma luta contra o nada". Mas que podia ser talvez mais bem definida por um verso do autor: "um sussurro de lâminas".

Nenhum de nós passeia impune pelos retratos: fazem-nos doer os recessos da memória." Dir-se-ia que um poeta não faz mais nada - é possível mesmo que muitos de nós nada mais façam. E, nascido em 1949 em Moçambique, Eduardo Pitta tem muitos retratos por onde passear - retratos que fazem o mapa da história recente do país que, em 1975, foi forçado a escolher como seu (às zero horas do dia da independência, 25 de Junho, todos os que tivessem optado por ficar em Moçambique, como era o caso de Eduardo e da mãe - que vivia no país desde que em 1920 aí desembarcara, ainda bebé - perderam a nacionalidade portuguesa, que só poderiam recuperar abdicando da moçambicana). O retrato, por exemplo, da noite de 31 de Outubro desse ano, quando, já depois de recuar sobre a decisão de continuar a viver na sua terra (perante um discurso de oito horas, em Julho, de Samora Machel a anunciar a nacionalização de tudo e mais alguma coisa, a mãe de Eduardo perguntou-lhe: "Já não estás a pensar ficar, pois não?") e enquanto aguardava pelo voo de "regresso"ao país estrangeiro que era Portugal, foi ao cinema com o então namorado, Jorge Neves, com quem casou em 2010 (e a quem dedica um poema belíssimo, na página 151 - "tu sabes que é para ti"). "Nessa noite estreei uma calças tão justas, tão justas, que não levei a carteira nem documentos. Ainda consegui escapar à saída do filme, apesar de eles [uma rusga que diz ter sido pesada para "assustar os brancos"] estarem à porta, mas fui apanhado na rua e levado para um campo de treino onde passámos a noite ao relento." Na manhã seguinte, quando estava na fila para sair (a mãe levara-lhe os documentos), veio um tipo que o levou para um barracão. "Percebi, pelo tipo de pessoas que ali estava - gente da média burguesia e da boémia, de cabelo comprido, com certas características, na forma d vestir, etc - que íamos para um campo de reeducação." As calças justas poderiam então ter-lhe custado caro (houve quem fosse reeducado até à morte)mas a mãe, apelando a conhecimentos na Frelimo, conseguiu tirá-lo dali e metê-lo num avião (os lugares estavam esgotados para os quatro meses seguintes). Nunca mais voltou. "Não tenho lá ninguém já. Ainda não percebi se tenho vontade de voltar, mas provavelmente não tenho, senão já teria voltado."

Mas volta: "Eu diria dos apátridas que somos/daquela pátria que nos sobra (...) Náufragos irremediáveis dos mares da China/a que não fomos." Preso pela Frelimo, Eduardo fora também, enquanto soldado, detido pelo exército colonial, num episódio que narra no livro de contos Persona - uma história de "limpeza" da homossexualidade que haveria de ser ela também limpa dos arquivos da história. Ainda assim - ou por causa disso?- à chegada a Portugal, onde se instalou em casa de um amigo, no Estoril, enquanto aguardava a chegada da mãe (que só voltou no voo marcado, em Janeiro de 1976) chocou-o a codificação complexada, cinzenta, da então ainda fechada sociedade portuguesa - "E eu fui para Cascais, que era supostamente um lugar mais aberto." Empregado bancário em Moçam- bique, foi integrado na função pública, no Ministério da Economia, onde trabalhou até à reforma, em Outubro de 2002. Com um primeiro livro de poemas lançadoainda em Moçambique - onde começou a publicar nos jornais, aos 18 anos - e que foi notícia nos jornais portugueses, entrou rapidamente no meio literário lisboeta. E no meio homossexual, que em alguns casos coincidia. Aliás, já conhecia o Bric Bar, um dos mais famosos pontos de encontro dos homossexuais masculinos em Lisboa, desde antes do 25 de Abril - o dia em que falhou a história "por meia hora": "Estava em Lisboa a 24, saí no avião dessa madrugada." Reparou que por cá, ao contrário do que sucedia em Moçambique, as lésbicas e os gays não se misturavam muito - só nos anos 80, com a abertura na discoteca Trumps e com o início daquilo que seria depois apelidado de "movida" lisboeta, os vários mundos "marginais" se fundiriam.

Heterodoxias, Desobediência - o nome da coluna que assina na revista Ler e o da colectânea da poesia toda (a sua) desenham um retrato de inquietude e desacerto. Mas a intervenção propriamente política só surge a partir de Janeiro de 2005, quando, por desafio de valter hugo mãe, começa a escrever no blogue Da Literatura, o que lhe vale, assume divertido, a tarja de "socratista ferrenho" e alguns opróbrios decretados. Para quem arriscou a reeducação por umas calças demasiado à pele, e pergunta: "A vida é uma ferida?/O coração lateja?/ O sangue é uma parede cega?/E se tudo, de repente?", só pode dar para rir.

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