Quem o amar não olhará para trás

É um dos nomes míticos dos palcos franceses. Criador de obras como 'Intimidade' ou 'Rainha Margot', diz que a grande magia está no palco e nos rostos dos actores.

Da janela junto à qual está sentado, o encenador e realizador francês Patrice Chéreau avista um cartaz que anuncia a sua mais recente criação: Eu Sou o Vento, do dramaturgo norueguês Jon Fosse. Na imagem, dois homens de cabelos molhados, rostos assustados e exangues, olham um ponto no infinito. "Está a ver o rosto do Tom, o actor da frente?", pergunta, apontado para a rua. "Não é a mesma pessoa com quem comecei a ensaiar há uns meses, em Londres. Notei logo, ao fim dos primeiros dias de trabalho, a transformação no rosto dele. Depois de deixar o texto passar para o seu corpo, depois de ser aquele homem que vai morrer, o rosto do Tom mudou. Nunca mais será o mesmo. Ver e participar nessas transformações é a grande magia do meu trabalho. Há perdas, eu sei, mas nada tem o valor de uma metamorfose. É um caminho sem retorno", afirma.

Alto, imponente, assertivo, a sua figura enchia a sala do hotel de Lisboa onde o DN falou com ele. Tudo nos seus movimentos corroborava a forma como se descreveu: "Sou um homem que gosta de andar para a frente. O passado não me interessa nada e faço por esquecê -lo." Só a chegada à sala do actor Tom Brooke permitiu conhecer a face mais descontraída de Chéreau. Abraçou-o e beijou-o com alegria como se viessem de uma longa ausência. Porém, vinham ambos do Festival de Avignon, em França, onde tinham estado a apresentar a peça que se preparavam para mostrar em Almada.

Patrice Chéreau, 67 anos, é um dos nomes míticos dos palcos europeus. Num trajecto de mais de 40 anos em que passou de filho pródigo a enfant terrible, em que recebeu tantos prémios e aplausos quanto críticas negativas e gestos de repúdio. Se o teatro é a casa onde encontra "a grande magia de baralhar o real e a fantasia", a ópera e o cinema são desafios a que respondeu de forma única, procurando marcar território, "mais pela experimentação, mesmo quando ela não era bem vista, do que pela repetição do que outros fizeram."

Nasceu em Lézigné, Maine-et-Loire, mas cresceu em Paris. Com 15 anos foi elevado à categoria de menino prodígio ao tornar-se criador e encenador de um grupo de teatro escolar, cujas peças chegaram aos palcos nacionais. Com 19 anos estreou-se no teatro profissional. Ao perceber que o seu futuro estava nos palcos deixou o curso na Sorbonne e fixou-se num subúrbio da capital francesa (Sartrouville) onde criou um teatro público. A partir daqui a sua carreira entra num processo de fulgurantes sucessos que vão do palco ao grande ecrã, passando pela televisão. Em 1969 encenou a sua primeira ópera (Contos de Hoffman, de Jacques Offenbach), género a que haveria de voltar muitas vezes, não obstante o carácter polémico das suas opções estéticas que deixaram arrepiados os cabelos dos mais conservadores. Em 1975 assina o primeiro filme, La Chair de l'Orchidée ."Sei perfeitamente o que fiz e os erros que cometi, mas não me peçam para andar sempre a falar do passado. Nada me aborrece mais que a repetição", desabafa, para de seguida contar que, depois do sucesso que foi o seu filme Rainha Margot, Hollywood não parou de lhe propor filmes sobre mulheres loucas e sanguinárias. "Isso não me interessa. Fiz um filme histórico. Pronto. Agorao desafio tem que ser outro."

As obras de Chéreau, 32 peças de teatro, 12 óperas, dez filmes, são frequentemente atravessadas pela ideia transformação/metamorfose, núcleo metafórico fundamental de um autor que não cessa de questionar ainda o poder da palavra como criadora de pontes entre o Eu e o Outro. "É a busca essencial do ser humano", justifica. "Passamos a vida atrás da possibilidade de um encontro total, o que realmente nunca acontece."

Já este ano foi convidado para fazer uma intervenção artística no Museu do Louvre, em Paris. As obras que escolheu, entre elas A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, são quase todas representações de rostos e corpos, revelando a obsessão de Chéreau pela ideia das transformações operadas na carne pela passagem do tempo.

Porém, ele próprio é avesso a criar imagens a priori. "Para mim, as coisas só começam a acontecer quando vejo os actores no palco ou no plateau. Só quando os tenho em frente aos meus olhos é que começo a construir a cena."

Depois da sua opera marítima chamada Eu Sou o Vento, perguntamos a Patrice Chéreau qual o seu próximo projecto. Ele, sorrindo, cita Brecht: "A preparar? Estou a preparar-me para o meu próximo erro."

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG