português a bombardear na guerra do biafra

Emeka? Ao ouvir chamá--lo com aquela palavra do idioma dos Ibos na década de 80, quando já trabalhava na TAP e estava a transportar peregrinos da cidade nigeriana de Kano para Meca, o comandante Artur Alves Pereira recordou-se logo dos tempos em que tinha sido piloto de guerrilha ao serviço da efémera República do Biafra, a província da Nigéria que proclamou a independência a 30 de Maio de 1967. Olhou para trás e reconheceu um biafrense que, de Novembro de 1969 a Janeiro de 1970, o tratava por 'Emeka' (termo que se poderá traduzir por figura de grandes façanhas) Artur.

A Guerra do Biafra (ver caixa) estava quase no fim quando o jovem de 27 anos, que fizera mais de cem bombardeamentos militares no Norte de Angola, entre 1964 e 1966, aceitou o desafio de participar naquela aventura independentista, em que os frágeis aviões T-6 e Minicoin enfrentavam os poderosos caças Mig numa "guerrilha dos pobres".

Tinha regressado à vida civil em Angola, onde vivia desde os quatro meses de idade, e andava a pilotar um Piper Twin Comanche e um Piper Aztec, trabalhando com um tio que tinha roças de café no Norte, uma fazenda de gado perto de Carmona e uma fábrica de peixe em Porto Alexandre. Ao ser convidado para integrar um grupo que devia pilotar uns velhos Harvard T-6G, que estavam a ser recuperados em Tires (de doze aparelhos que tinham servido na Guerra da Argélia e depois foram comprados na sucata em França, sairiam quatro operacionais), aproveitou a oportunidade para deixar de trabalhar com a família, dar curso ao romantismo de estar do lado dos mais fracos e, ao mesmo tempo, receber por mês o equivalente ao preço de dois automóveis Jaguar.

Por falta de autorização de sobrevoo de vários países, os aparelhos tiveram de ser desmontados para serem transportados de barco até Bissau. Na Base Aérea de Bissalanca, quando a polícia política (a PIDE) informou que os aviões não poderiam ser pilotados por portugueses, a cumplicidade do comandante da permitiu-lhes levantar voo de noite.

Os T-6G tinham apenas quatro horas de autonomia e, numa primeira tentativa, ainda instalaram depósitos no banco de trás, mas o combustível evaporou. Depois, Alves Pereira pousou na pista de terra batida de Sassandre, na Costa do Marfim (um dos raros países que reconhecera o Biafra), e dali seguiu para a capital Abidjan. Atravessou a Nigéria sobre baterias antiaéreas e, quando se aproximou da improvisada pista de Uli, acenderam-se as luzes por escassos minutos. Mas, quando estava para aterrar, apagaram-nas e o português teve de soltar umas palavras de vernáculo para as voltarem a ligar. Mal pousou, ouviu gritos "intruders! intrusos!" e percebeu que estavam a ser atacados por bombardeiros soviéticos Ilyushin. No dia seguinte, Alves Pereira e José Pignatelli (Gil Pinto de Sousa foi obrigado a aterrar em terreno inimigo e só seria libertado a 28 de Setembro de 1974) levaram os dois aparelhos para a pista militar de Uga, empurraram à mão os aviões para debaixo das árvores e camuflaram os T-6 com folhas de palmeira. Formavam, assim, a 46.ª esquadrilha das Forças Aéreas do Biafra, que se juntava à 47.ª, comandada pelo conde sueco Carl Gustav von Rosen e que dispunha apenas de cinco aviões Minicoins - uns aparelhos suecos MFI-9B, que tinham sido adaptados para funções militares e que von Rosen baptizara com aquela designação (também eram conhecidos como Biafran Babies).

Descolava ao alvorecer, atacava com o sol pelas costas, voava a rasar, lançava um ou dois rocketes de 68 mm para afinar a pontaria, disparava umas rajadas das quatro metralhadoras 7,62 ("um calibre de caça") para garantir o efeito psicológico do ruído, largava o resto dos rockets e empurrava o manipulo para a velocidade máxima - certa vez, vendo os atiradores das antiaéreas que não o podiam alvejar daquele ângulo, até lhes acenou um adeus.

A esquadrilha portuguesa fazia duas a três missões por semana, atacando uma coluna militar na estrada de Aba ou uma concentração de forças na estrada de Onitsha, poços de petróleo e refinarias, as bases aéreas de Port Harcourt (destruíram três Mig na pista) e de Calabar, barcos de transporte no delta do rio Niger ou objectivos próximos da cidade de Ouwerri - e um bombardeamento nas margens do rio Cross terá atrasado 15 dias o avanço das forças nigerianas. Alves Pereira regressou sempre ileso, ao contrário de José Pignatelli, que foi algumas vezes atingido e abandonaria a guerra em Dezembro - o que obrigou o outro português a juntar-se à esquadrilha de von Rosen, passando a pilotar os Minicoin, que tinham uma fuselagem onde "bala que entrava era bala que saía".

Na vivenda onde os dois pilotos e os mecânicos Borralho e Câncio estavam instalados, perto de Arokwa, o cozinheiro quase todos os dias lhes cozinhava frango, acompanhado de batata ou de mandioca frita. De vez em quando, o seu amigo Manuel Reis, piloto chefe da Phoenix Air Lines, levava-lhes umas encomendas com chouriço ou vinho, além de uns jerrican de combustível para Alves Pereira encher o depósito do seu Peugeot 403 e movimentar-se naquele território cada vez mais pequeno, mas onde havia uma banda no aquartelamento, os Wings, que tocava merengues em bailes.

Ao aproximar-se o Natal de 1969, os europeus regressavam a casa e, convidado pelo comandante da Força Aérea do Biafra, general God- win Ezeilo, e pelo próprio Presidente da República, Chukwuemeka Odu- megwu Ojukwu, o português aceitou ficar no lugar do piloto alemão Freddy Herz. E teve direito a ouvir a rádio pública da Nigéria noticiar a sua condenação à morte por enforcamento. Na véspera do fim do conflito, a 8 de Janeiro, informado pelos responsáveis militares e políticos da rendição, Alves Pereira ainda tentou dirigir-se para o avião que o levaria para S. Tomé, mas já estava tudo a tentar roubar o mais que pudesse e, recorrendo a umas rajadas de metralhadora do seu condutor e guarda-costas Jonnhy, voltou para trás e dirigiu-se ao seu T-6, que estava pronto a levantar. Embarcou um aviador biafrense que se arriscaria a ser fuzilado, subiu acima da camada de nuvens, sobrevoou os Camarões e aterrou em Libreville - o Gabão tinha sido o primeiro país a reconhecer o Biafra e até ali funcionava uma base de treinos para pilotos dos Minicoin.

E, além de 'emeka', ainda hoje Artur Alves Pereira sabe dizer, na língua dos Ibos, "bom dia" e "o almoço está pronto?"

Exclusivos

Premium

EUA

Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.