Winnie Mandela

A 'Mãe da Nação' Volta a renascer

Foi acusada de fraude e corrupção e até de encomendar um assassínio, mas a ex-mulher de Nelson Mandela não se deixa abater. Nas eleições sul-africanas de quarta-feira, dia 22,  tem fortes hipóteses de ser eleita pelo ANC.

Em Março, a Comissão Eleitoral da África do Sul decidiu que Winnie Mandela pode ser candidata às eleições de dia 22 apesar de uma condenação por fraude. Com esta decisão, a ex-mulher de Nelson Mandela volta, aos 72 anos, a provar que sabe como sair por cima de uma situação difícil. Em quinto na lista do Congresso Nacional Africano (ANC), a "Mãe da Nação" sul--africana, como lhe chamam os seus muitos apoiantes, tem, muito graças ao apelo que exerce junto dos mais pobres, fortes hipóteses de ser eleita deputada. Para espanto dos seus inúmeros críticos.

É o caso do opositor Pieter Groenewald, para quem esta decisão só prova que a Comissão Eleitoral "não está preparada para tomar uma atitude impopular", como confidenciou à BBC. Indiferente à polémica, Winnie - que desde o divórcio usa os apelidos Midikizela-Mandela - promete continuar sem papas na língua. Quando Mandela falou em deixar as armas, no período de transição, a própria confessa ter "erguido os braços ao céu" e muitos ainda se lembram de a ouvir, em 1985, defender o uso do "colar" - o pneu colocado ao pescoço do traidor e incendiado.

De personalidade forte e uma beleza que, apesar da idade, ainda a faz notar quando entra numa sala, Winnie nunca hesitou em violar as regras. O que lhe valeu várias passagens pela prisão, fosse por desobedecer às ordens do Governo do apartheid que a proibia de visitar o marido em Robben Island, onde passou a maior parte das quatro décadas de prisão, fosse por fraude ou suspeita de assassínio dos seus opositores já nos últimos anos do regime.

Nascida em Bizana, na hoje província do Cabo Oriental, a filha de uma professora e um ministro perdeu a mãe aos oito anos. Formada em Ciência Política em Joanesburgo, tal educação numa negra só foi possível graças ao nível de vida acima da média da sua família, que permitiu a Winnie não sentir na pele o abismo entre brancos e negros na África do Sul.

Só nos anos 50, quando se tornou assistente social no hospital Baragwanath, é que enfrentou a realidade. Esta mulher de nome xhosa Nomzamo deixou-se então enredar na política e aderiu ao ANC. Presa pela primeira vez em 1958 por apelar à revolta, conheceu pouco depois o jovem advogado anti-apartheid, Nelson Mandela, com quem casou no ano seguinte. Mas a felicidade foi de pouca dura. Com as duas filhas pequenas, Winnie viu o marido ser preso em 1962. Banida do Soweto, cidade satélite de Joanesburgo considerada a capital dos negros, nunca deixou de visitar o marido na prisão. E nem quando foi forçada a viver em Bradford e a sua casa foi bombardeada aceitou as regras.

Mas a mulher que nada parecia abalar acabou por se destruir a si própria. Nos anos antes da libertação do marido, em 1990, criou um clube de futebol cujos "jogadores" funcionavam como guarda-costas. Rapidamente surgiram na imprensa rumores de que Winnie ordenava a eliminação dos opositores.

A morte de Stompie Seipei foi a gota de água. O rapaz de 14 anos foi raptado pelos "jogadores" de Winnie, torturado e assassinado. O caso seria julgado meses após a libertação de Mandela. E, apesar do apoio público do marido, o envolvimento de Winnie não deixava margem para dúvidas.

O julgamento e sucessivos rumores de infidelidade acabaram por destruir o casamento. "Perguntávamo-nos como era possível um semi-Deus viver com uma bruxa", confessa Fatima Meer em Nelson Mandela - Uma Lição da Vida, a biografia do Nobel da Paz escrita pelo ex-ministro da Cultura francês Jack Lang. Enquanto os próximos não poupavam críticas a Winnie, Mandela preferiu manter o cavalheirismo, como se lê na sua autobiografia, Longo Caminho para a Liberdade. Na conferência de imprensa que deu, em 1992, a anunciar a separação, reafirmou o seu amor pela mulher que foi um "pilar" nos seus anos de prisão.

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