Paula Monteiro

Uma polícia que não esconde o lado feminino.

O olhar impenetrável e a postura rígida que mostra à frente das câmaras esconde uma Paula Monteiro espontânea, extrovertida, dinâmica. Feminina e sempre menina. Uma menina adulta. O Winnie the Pooh, o Tigre e o Piglet são a base na secretária. No gabinete da subcomissária da Polícia de Segurança Pública (PSP) os ursinhos não foram escondidos e as recordações de tempos distantes ou próximos estão por todo o lado.

A subcomissária, responsável pelas relações públicas da PSP, que causou irritação ao presidente do Benfica, desfaz-se em desculpas pelo gabinete acanhado, porque provisório, mas organizado. Apesar dos papéis acumulados em cima da secretária que espelham as tarefas infindáveis de uma relações públicas da PSP, que acumula o cargo com o comando da Esquadra de Turismo (com orgulho diz ser uma esquadra pioneira na Europa e modelo para outros países), Paula Monteiro não se vai embora ao fim de um dia de trabalho sem arrumar a "tralha". A organização é visível. As marcações na agenda, de papel, são feitas em várias cores. A entrevista do DN estava a azul. Significado? Nenhum. É apenas o gosto por ter tudo "bonitinho".

O mesmo aprumo tem com a casa onde vive em Alverca, prestes a ser trocada por uma vivenda na mesma cidade. Apesar das dezenas de sapatos, de malas, de relógios, de perfumes, de brincos, de colares que colecciona. Garante que as colecções são enormes, mas para uso pessoal. O relógio tem sempre de condizer com a roupa, os sapatos fazem sempre pandant com a mala, os brincos com os colares. Pintura é que não. "Cara lavada", naturalmente. Não precisa de mais para realçar os olhos de azul mar e o amarelo areia do cabelo. Com farda, azul da PSP, o cabelo está sempre apanhado. Por obrigação, mas também porque dá um ar mais arrumado. Sem elásticos, mas com ganchos, a condizer. "Faz-me confusão quando há mulheres nas forças de segurança ou militares que acham que têm de ter tiques masculinos." Paula Monteiro está "sempre como mulher". Opta pelos sapatos com um bocadinho de salto, que acompanham quase sempre as calças da farda. Também é quase sempre de calças que à civil chega ao quartel. "Sinto-me melhor se vier de calças por ser um mundo de ho mens", além de ser "mais prático". À civil, o cabelo solta-se, os brincos são menos discretos e os colares saltam à vista. É a vontade do dia-a-dia que dita a regra na escolha da indumentária. Tanto pode ser desportiva, como um tailleur, como juvenil. Acessórios a condizer. Não se livra de uns piropos, que a deixam pouco à vontade. Especialmente se for em serviço. "Quem me dera ser preso..." é um dos comuns gracejos dos adeptos de futebol.

Apesar do lado marcadamente feminino não esconde uma preferência de infância. Gostava mais de brincar com carrinhos e berlindes. Para bonecas "não tinha pachorra nenhuma". O gosto pelos carros ainda resiste. "Adoro conduzir. Para mim, é terapêutico." Tem dois carros oferecidos pelos pais. O eleito para a condução é o Peugeot 307, de 1600 de cilindrada. "É um avião", diz, para logo a seguir ser questionada pelos limites de velocidade. "Tento cumprir e tenho muito a noção do risco." Conduz todos os dias de Alverca ao Chiado, onde entra às nove da manhã, para sair às horas que calha (no dia em que recebe o DN só sairá às 9 horas da manhã seguinte, pois está de oficial de dia).

O karaté é uma obrigação que se impôs. Alia os benefícios, da autodefesa, respeito e disciplina, ao prazer. Por isso não abdica do karaté (é cinturão castanho) em prol de outros gostos, como a dança. "Nasci para dançar." E ironiza: "Tenho uma inveja que o programa Dança Comigo não seja para qualquer um..."

A adepta e a polícia

Além do karaté e da BTT (bicicleta todo-o-terreno), Paula Monteiro não pratica outros desportos. Mas está definitivamente ligada ao futebol, embora admita: "Já gostei mais." Agora é o dever que a chama. Acompanha as claques até aos estádios, acompanha os jogos como força da segurança e ainda tem de acompanhar a comunicação. Paula Monteiro dá a cara na defesa da "sua" PSP.
Valeu-lhe palavras menos agradáveis de Luís Filipe Vieira, depois do Benfica-Porto, onde a subcomissária apareceu a defender a actuação policial. O presidente do Benfica acusou-a de estar mais preocupada "com a imagem" e em aparecer "em todo o lado". Declarações que assume serem despropositadas. "Um porta-voz aparece seja para falar de futebol, seja para falar de operações." Continua: "Esse senhor foi o único que decidiu pessoalizar. O que acho incrível." Recebeu, em troca, mails e cartas de solidariedade de cidadãos anónimos. Paula Monteiro faz questão de responder, um a um.

E qual é o seu clube? "Não sei se devo dizer. Vai ser um problema." Face à insistência, Paula Monteiro, corando, responde: "Tenho de ser como os árbitros." Diz, mas pede segredo, até por uma questão de segurança futura.

Lado humano

"O que faz a imagem de uma pessoa são as suas atitudes diárias, os comportamentos, a forma de estar na vida e a minha vida faz-me andar de cabeça levantada." Paula Monteiro fala com orgulho da sua maneira de ser. Deve-o aos pais, diz. "O que sou e como sou a eles o devo. O lado humano foram eles que me passaram." "Nunca te arrependas de fazer o bem", diziam sempre. Esse lado humano de que fala afastou-a da medicina, porque não saberia lidar com o sofrimento dos outros e não saberia dar uma resposta que não fosse positiva.

Acabou por não ser muito diferente...

O seu caminho ficou traçado em 1997. Depois de concluído o 12.º ano, em Alverca, Paula Monteiro, a menina nascida em Santarém, candidata- -se à Faculdade de Ciências, à Academia Militar (para o curso de oficiais do Exército e da GNR) e à Escola Superior de Polícia. Admitida nas quatro. Escolher "foi efectivamente um problema". As ciências ficaram, logo, excluídas. As fardas que vira no pai (pá - ra-quedista de profissão) não terão sido indiferentes à escolha. Optou pela Academia Militar e nesta pela GNR em vez do Exército. A protecção ao invés do ataque. "Gostei muito, foi uma experiência única."

Apesar das boas classificações, Paula Monteiro acabaria por deixar a Guarda e rumar à Polícia. "A PSP já tinha uma abertura diferente [para as mulheres]." Na GNR de então, estava-lhe destinada apenas a Administração Militar. Paula Monteiro queria Cavalaria. Começou a correr uma petição para alterar a situação, a autorização para o ingresso das mulheres em armas chegou já Paula Monteiro estava na PSP. "A primeira mulher de armas é do meu curso na GNR", lembra. A opção, no entanto, já estava tomada. Acabou o curso na Polícia com 14,83 valores, lê-se no diploma exposto no gabinete.

"Não estou nada arrependida [de ter optado pela PSP]. Eu vivo para isto. Nunca pensei gostar tanto da minha profissão como gosto." O futuro? "A nível de postos, chegar o mais longe possível", diz com a angústia de estar há um ano à espera da promoção a comissária. A disponibilidade é total, mas assume que gostava de continuar em contacto com o público.

"Adoro relacionar-me com as pessoas e gosto de ajudar os outros, nem que seja com uma palavra."

Passagem por Loures

Acabado o curso, aos 23 anos, Paula Monteiro recebe a missão: comandar a esquadra de Loures. Jovem e mulher. Os seus homens em Loures foram, então, pela primeira vez chefiados por uma mulher, com idade para ser filha de muitos. A prova de fogo foi superada. "Onde tenho de dar a volta é ir com eles para o terreno, fazer exactamente o mesmo que eles fazem e ir à frente." Ser o exemplo.
Os casos de maior sofrimento viveu-os em Loures. "As situações que mais marcam não são aquelas em que estamos em risco. São aquelas em que nos defrontamos com a degradação humana." Por isso tem um lema: "Pratico muito a empatia e a empatia é igual à capacidade de me co locar no lugar do outro." O que nem sempre é fácil. E quase impossível quando se trata de lidar com o agressor. "Aí peço paciência e abstracção face à brutalidade do crime", mas confessa que por vezes "é preciso respirar fundo". O treino é importante para lidar com estas situações.

Uma coisa garante: "Para ser um bom polícia basta ser uma boa pessoa." Admite, ainda assim, que por vezes é difícil apagar imagens. Recorda o menino que chegou à esquadra de Loures queimado com um ferro e chicoteado com o fio eléctrico; a velhinha com a cabeça martelada porque o filho queria ficar com a sua reforma; ou a mãe, vítima de violência doméstica, e o filho deficiente a quem o marido e o pai não deixava entrar em casa. Anos mais tarde, foi desta mãe e deste filho que recebeu um ramo de flores com um cartão: "Obrigada por toda a ajuda e por tudo o que fez por nós."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG