Primavera árabe derrubou regimes e mudou mapa político

Uma série de revoltas populares atravessou em 2011 o norte de África e o Médio Oriente, num movimento designado como primavera árabe que derrubou regimes autoritários e mudou o mapa político da região.

O acto de desespero de um jovem vendedor ambulante que a 17 de dezembro de 2010 se imolou na Tunísia tornou-se símbolo do descontentamento da população com a pobreza, o desemprego, a ditadura e a corrupção e deu origem à primeira revolta.

Seguiram-se protestos no Egito, Jordânia, Iémen, Bahrein, Líbia, Síria e até na ultraconservadora Arábia Saudita.

Os contextos eram diferentes, mas milhões de pessoas saíram às ruas para dizer: "O povo quer a queda do regime".

Menos de um mês depois da fuga a 14 de janeiro do ditador tunisino, Zine El Abidine Ben Ali, o "último faraó" do Egito, Hosni Mubarak, demitiu-se ao fim de 30 anos no poder depois de manifestações numa praça central do Cairo, a praça Tahrir (Liberdade), que se tornou também um símbolo da primavera árabe.

Ao êxito das revoltas na Tunísia e Egito, seguiram-se em fevereiro a Líbia e em março a Síria, países onde os levantamentos assumiram contornos de guerra civil.

Na Líbia, as forças rebeldes tomaram Tripoli em agosto, ao fim de seis meses a conquistar território com o apoio aéreo da NATO, e em outubro acabaram por matar Muammar Kadhafi perto de Sirte, sua cidade natal.

Na Síria, a violenta repressão dos protestos, as torturas e as perseguições continuam longe dos olhares do ocidente, com o regime de Bashar al-Assad a impedir a presença de jornalistas estrangeiros.

Grandes manifestações contra o regime realizaram-se também a partir do fim de janeiro no Iémen, governado há mais de três décadas por Ali Abdallah Saleh.

Depois de várias recusas, o presidente acabou por aceitar um plano proposto pelas monarquias do Golfo Pérsico para ceder a presidência ao seu "número dois" até à realização de eleições em fevereiro de 2012.

O país, um dos mais pobres do mundo, constitui uma preocupação para a comunidade internacional pela forte presença da Al-Qaida no sul, um movimento secessionista e uma rebelião xiita no norte.

A onda de contestação popular manifestou-se também em monarquias como o Bahrein, a Jordânia, Omã, Marrocos e Arábia Saudita, embora com menos expressão.

De entre estes, foi o Bahrein que registou os maiores protestos, entre fevereiro e março, com a maioria xiita contestando a minoria sunita governante. A repressão, com a ajuda de tropas sauditas, saldou-se em dezenas de mortes e centenas de detenções.

Os efeitos políticos da primavera árabe não são ainda completamente conhecidos, mas as eleições na Tunísia e Marrocos e a primeira fase do processo eleitoral no Egito mostram uma preferência clara dos cidadãos pelos partidos islâmicos, durante anos perseguidos ou proibidos.

A importância destas revoltas foi distinguida internacionalmente com a atribuição do Nobel da Paz a Tawakkol Karman, jornalista e uma das principais figuras da revolta no Iémen e do prémio Sakharov de direitos humanos e democracia do Parlamento Europeu a cinco protagonistas da primavera árabe.

Em abril, a revista norte-americana Time colocou no topo dos "100 mais influentes" do mundo o informático e 'bloguer' egípcio Wael Ghonim, um símbolo do papel que redes sociais como o Facebook, o Twitter e o Youtube tiveram na organização e divulgação das revoltas em regimes marcados pela censura e o controlo da informação.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?