Helena Roseta

Uma rebelde sempre em busca de novas causas.

Aluna brilhante no Liceu Maria Amália, admiradora do Papa João XXIII, Helena Roseta, a actual bastonária dos Arquitectos ficou chocada, aos 20 anos, quando descobriu a extrema pobreza em que se vivia em Lisboa. Hoje quer combater "a desertificação no centro" da capital. Por isso se separou do PS para ser candidata à câmara.

Já era assim em pequena: uma rebelde sempre em busca de novas causas. "Teimosa até mais não, vai até ao fim", costuma dizer dela o pai, Eduardo Salema. Raro foi o dirigente político que não se exasperou com as intervenções emotivas desta mulher que tem o dom da palavra. Primeiro no PPD/PSD, mais tarde no PS - de Balsemão a José Sócrates, Maria Helena do Rego da Costa Salema Roseta não deu tréguas a várias lideranças. Chegou a integrar a ala direita dos sociais-democratas, acabou na ala esquerda dos socialistas. Há dias, abandonou o PS. Mulher de partido há três décadas, convive mal com a disciplina partidária.

"Quero estimular a cidadania na nossa sociedade", afirma ao DN com o mesmo ar combativo que os portugueses lhe conhecem desde que entrou em São Bento, com uma franja juvenil, no Outono de 1975, como deputada constituinte. Tinha 27 anos e a convicção de que mudaria o mundo.

Nascida a 23 de Dezembro de 1947, filha de uma família de classe média, com sete irmãos que formaram a primeira e mais sólida das suas tribos, Helena foi uma criança traquina, que "sempre teve um certo espírito de independência" (ainda segundo o pai), mas cedo se destacou pelas excelentes notas escolares. Aluna brilhante do Liceu Maria Amália, em Lisboa, chegou ali a obter várias notas máximas.

De formação católica, foi profundamente influenciada pelo Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII - uma das figuras de referência da sua vida. Foi graças à militância religiosa que esta menina bem-- comportada descobriu o lado lunar da vida. Aconteceu em Novembro de 1967, durante as grandes inundações que provocaram dezenas de mortos na periferia de Lisboa. Com outros jovens universitários, Helena - então estudante de Arquitectura - participou nas operações de socorro às vítimas e descobriu um outro país, que não vinha nos jornais: o país dos pobres.

"Indignação e dedicação" passaram a ser palavras gémeas na sua biografia. A natureza inquieta desta nativa de Capricórnio impulsionou--a a militar à esquerda, contra a ditadura de Salazar e Marcelo Caetano. Em 1973, foi uma das participantes no congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro.
Saudou com esperança o 25 de Abril de 1974. Mas a sua voz não tardou a levantar-se contra os excessos revolucionários. À esquerda logo houve quem lhe chamasse "a Pasionaria da direita": Helena Roseta começava a dividir águas. Até hoje.

Ao longo dos anos, manteve relações de amizade com diversos vultos da política e da cultura por quem sentiu um genuíno fascínio. Figuras tão diversas como Francisco Sá Carneiro. Ou Natália Correia, que com ela chegou a alinhar nas fileiras sociais-democratas. Ou Manuel Alegre. Ou Mário Soares, que apoiou na corrida ao Palácio de Belém, em 1986, à revelia dos ditames do partido, o que a levou a pôr fim à militância no PSD. Ou Jorge Sampaio, o secretário-geral socialista que a levou a filiar-se no PS.

"Ela tem prosseguido um rumo errático", afirma ao DN um deputado socialista, muito próximo de Sócrates, sem esconder as divergências com a ex-camarada que no último congresso do partido, realizado em Santarém, esteve praticamente isolada na contestação ao líder. Pelo menos nisto tem sido constante: faz questão de ser incómoda. Sá Carneiro foi o único político que contou com o seu apoio incondicional. Muita gente se lembra ainda dela, lavada em lágrimas, ao tomar conhecimento da trágica morte do então primeiro-ministro em Camarate.

"É uma pessoa emotiva, que se comove com facilidade, sem deixar de ser racional", asseguram os que a conhecem mais de perto. Os seus detractores lembram que Roseta chegou a ser, em 1980, destacada apoiante do general Soares Carneiro - um dos candidatos presidenciais mais à direita da democracia portuguesa. Hoje está "muito à esquerda do PS", como acentua um antigo correligionário. Foi com alívio que alguns socialistas a viram partir. Há quem vaticine que ainda acabará no Bloco de Esquerda.

Não sabe estar quieta. Em 1976, foi cabeça de lista do PPD à Câmara de Lisboa - meta que repete agora, como candidata independente. Liderou a influente distrital de Lisboa dos sociais-democratas, dirigiu o vespertino Jornal Novo, presidiu ao município de Cascais (1983-85), foi deputada laranja e rosa, apoiou a candidatura presidencial de Manuel Alegre (em 2006). Agora no segundo mandato consecutivo como presidente da Ordem dos Arquitectos, sonha com uma capital "onde não existam quarteirões inteiros com prédios abandonados". É sempre no mesmo tom convicto que declara ao DN: "Muita gente fala na desertificação do País. Eu falo na inaceitável desertificação do centro de Lisboa."

Por vezes mantém discussões com o pai, assumidamente conservador: continua com vontade de mudar o mundo. A mãe, Amparo, já faleceu. Mas o clã Salema continua a reunir--se - cada vez mais alargado. A candidata independente a Lisboa tem três filhas - Catarina, Filipa e Madalena - que cedo se habituaram a escutar os pais (Pedro Roseta, marido de Helena, foi longos anos deputado social-democrata, tendo chegado a líder parlamentar laranja) na galeria reservada ao público, na Assembleia da República. E já tem sete netos: o mais velho, de dez anos, vai ajudando a recolher assinaturas de apoio à avó, na Baixa de Lisboa.

"O risco em política é fundamental", dispara esta mulher de 59 anos que adora viajar e cozinhar petiscos, toca viola e reserva boa parte dos tempos livres à leitura. É de Marguerite Yourcenar uma das suas frases favoritas: "A felicidade não é um estado; são momentos de grande harmonia entre lá fora e cá dentro."

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