Frank Sinatra

"Para quem vive como eu, uma vida é suficiente"

Dançou com Gene Kelly. Cantou com Bing Crosby e Louis Armstrong. Contracenou com a futura princesa do Mónaco. "Socializou" com Marilyn Monroe, Marlene Dietrich, Kim Novak, Anita Ekberg, Lana Turner, Judy Garland, Elizabeth Taylor, Natalie Wood, Lauren Bacall. Casou-se com Ava Gardner, a quem Jean Cocteau chamou "o mais belo animal do mundo".
 
Durante a II Guerra Mundial, era quase tão detestado como Hitler pelos soldados americanos: livrara-se do serviço militar graças a um tímpano perfurado e mantivera-se na "frente interna", entretendo as teenagers dessa primeira metade da década de 40. Nat King Cole sabia do que falava quando garantiu: "Comparado com ele, D. Juan é um diletante."

Francis Albert Sinatra, nascido a 12 de Dezembro de 1915 em Hoboken, subúrbio operário de Nova Iorque, foi a primeira grande vedeta global - muito antes de Elvis Presley, dos Beatles, de Michael Jackson ou Madonna. Filho único de um boxeur que sofria de asma e de uma parteira que fazia abortos, com uma avó siciliana chamada Rosa, tinha 19 anos quando assistiu a um espectáculo de Crosby num velho teatro de vaudeville. Ficou fascinado com aquela forma de cantar e não descansou enquanto não seguiu as pisadas do seu ídolo. Anos mais tarde, com desportivismo, Bing assinalaria: "Um talento como o dele só aparece uma vez na vida. Pena que tenha sido na minha."

Dean Martin, um amigo de sempre, disse quase o mesmo por outras palavras: "Há muitos grandes cantores, mas Sinatra é único." Era único, de facto. Tinha estilo, classe, garra. Considerava que "só as boas canções merecem ser cantadas". Ele gravou 1600, vendendo 600 milhões de discos durante mais de meio século de carreira - uma cifra jamais alcançada por qualquer estrela de rock. Recuperou êxitos da música popular, como Ol' Man River, Night and Day, The Lady Is a Tramp, I've Got You under My Skin - as versões dele parecem ser sempre as definitivas. Pelo fraseado cheio de swing, pela dicção perfeita, pelo modo de respirar. Punha a voz à frente dos instrumentos e levava-os com ela. Podia transformar o mais banal dos temas em obra de arte.

Tommy Dorsey contratou-o em 1940, a cem dólares por semana, anunciando-o como "um virtuoso romântico". Com ele, grava os primeiros êxitos: All or Nothing at All e I'll Never Smile Again. A Billboard considerou-o o melhor cantor de 1941. Só parou a poucos meses de morrer, em 14 de Maio de 1998 - faz agora dez anos.

Foi, sem dúvida, uma das grandes personalidades do século XX. Que, além da música, se destacou também no cinema, sobretudo numa série de filmes que vão de 1945 (Paixão de Marinheiro, realizado por George Sidney) a 1962 (O Enviado da Manchúria, de John Frankenheimer). Filmou com Preminger, Minnelli, Zinnemann, Mankiewicz. Recordemos alguns títulos: Um Dia em Nova Iorque, A Linda Ditadora, Até à Eternidade (que lhe valeu o Óscar como actor secundário), O Homem do Braço de Ouro, Eles e Elas, Alta Sociedade e Deus Sabe quanto Amei.

Detestava drogas. E água. E leite ("faz mal à saúde"). E ar puro ("deixa-me doente").

Gostava de noitadas. De jogar cartas. E de vestir smoking ("a minha segunda pele", dizia), de jactos privados (adquiriu o primeiro em 1959) e de uísque Jack Daniel's ("o meu combustível").

E de mulheres, claro. Mas nunca gostou de nenhuma como de Ava Gardner, com quem teve um casamento breve, apaixonado e tumultuoso nos anos 50 - a década dos grandes fracassos e dos grandes sucessos. "É o sacana do gajo mais irresistível do planeta", dizia ela. Ele retribuía, já muito depois de se terem separado, com algumas canções escolhidas a dedo, entre as quais I'm a Fool to Want You, sempre a pensar nela. Ava podia ser até a destinatária de um dos mais célebres versos que costumava cantar: "There's no one in the place besides you and me."

Anos depois, quando Ava estava muito doente e muito só em Madrid, era ele quem lhe pagava as contas do hospital. Era um romântico à moda antiga, que parecia acreditar na própria lenda, espalhada aos quatro ventos por todos os recantos do planeta.

"Só vivemos uma vez. E para quem vive como eu, uma vida é mais do que suficiente", gabava-se Sinatra, sem andar longe da verdade. Quantas outras supervedetas, do passado ou do presente, se poderão gabar do mesmo?

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