Clara Rojas

A refém que foi mãe na selva

A advogada colombiana, que foi sequestrada pelas FARC junto com Ingrid Betancourt, conta em livro o que viveu durante seis anos de cativeiro. Não revela pormenores sobre o pai do seu filho, Emmanuel, mas relata as complicações do parto por cesariana e os motivos que a levaram a desentender-se com a ex-candidata presidencal franco-colombiana.

"Naturalmente, preferia que não me tivessem roubado estes seis anos de vida. Mas estou viva. Viva para o contar." Mais de um ano após ter sido libertada do cativeiro imposto pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Clara Rojas conta em livro aquilo que viveu na selva. Fala do fim da amizade com a franco-colombiana Ingrid Betancourt, com que foi raptada em 2002, e do nascimento do seu filho, Emmanuel, mas não revela nada sobre o pai da criança.

A gravidez foi um choque, não o esconde, mas em nenhum momento pensou em abortar, já que ser mãe era um dos seus sonhos. Nascida a 20 de Dezembro de 1964, Clara tinha 40 anos quando ficou grávida. "É certo que as condições estavam muito longe das ideais e implicavam grandes riscos tanto para mim como para o bebé, mas se não tinha um filho agora, muito provavelmente não voltaria a ter outra oportunidade", escreveu em Memórias do Meu Cativeiro, que é lançado quinta-feira em Portugal.

Durante o parto, por cesariana e sem as mínimas condições de segurança, mãe e filho estiveram a ponto de morrer. Mas no final foi o filho, Emmanuel Andrés Joaquín, que acabou por ser a bóia de salvação para enfrentar as dificuldades, apesar de ter sido separada dele aos oito meses. Iria reencontrá-lo em liberdade, em Janeiro de 2008, depois de as FARC a entregarem ao líder venezuelano, Hugo Chávez. A criança tinha estado afinal sempre sob os cuidados das autoridades colombianas, sem o saberem.

Outra coisa que lhe deu forças para aguentar o cativeiro foi a fé. Educada em colégios católicos, a advogada leu e releu a Biblia e rezava várias vezes por dia. Além disso, efectuava todos os meses um jejum em nome da Virgem. "Não houve momento algum, durante o cativeiro, em que a minha fé em Deus e na sua profunda misericórdia fraquejasse", escreveu a ex-directora de campanha da candidata presidencial de Ingrid Betancourt, do partido Os Verdes.

Clara nunca perdoou Ingrid por ter planeado a viagem ao interior do território da guerrilha naquele 23 de Fevereiro de 2002, mas também nunca se perdoou por ter aceitado acompanhá-la.. A amizade que nascera quando ambas trabalhavam no Ministério do Comércio Externo - ela como advogada de Direito Tributário e Ingrid como assessora - degradou-se após a segunda tentativa de fuga falhada, quando foram castigadas e obrigadas a viver um mês acorrentadas.

A partir daí, a situação foi tal que os próprios guerrilheiros decidiram separá-las. "Toda aquela dor mal digerida criou em nós uma barreira de silêncio, e aconteceu connosco o mesmo que acontece a muitos casais, que quando acaba a comunicação acabam por se converter e desconhecidos, em dois estranhos sem nada em comum", escreveu Clara.

A amizade não foi reatada agora que ambas estão em liberdade, mas a advogada diz que já perdoou Ingrid pelas suas atitudes na selva. Agora, só quer pensar no futuro ao lado do filho e da mãe, na Colômbia que não quer abandonar, planeando dar palestras sobre a experiência que passou

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG