Os 80 anos de um dos pensadores mais importantes da Europa

O filósofo e sociológo Jürgen Habermas cumpre quinta-feira 80 anos mantendo-se como um dos pensadores mais importantes da Europa, sustenta o filósofo Nuno Nabais.

Depois de uma larga carreira como académico e ensaísta para a qual contribuiu a sua interpretação da actualidade política do país e do mundo, Habermas foi "catalogado" com os mais diferentes rótulos: para uns foi a eminência parda da revolta de 1968 na Alemanha, para outros continua a ser o último representante da Escola de Frankfurt.

Para o filósofo e director da livraria Eterno Retorno na Fàbrica Braço de Prata, Nuno Nabais, o pensamento de Habermas continua a ter "toda a actualidade" e a sua importância mantém-se em "quatro grandes domínios".

"Habermas pode ser pensado ao nível da filosofia política e também do direito, como alguém que incorpora os últimos modelos da teoria do directo de John Rawls e que os retoma à luz da história da filosofia contemporânea e que permite pensar alguns temas fundamentais como o estatuto da nação", indica o filósofo.

Outro elemento importante da filosofia de Habermas consiste na "sua urgência muito clara de pensarmos a justiça de forma transnacional", o que acaba por dar origem à criação dos tribunais internacionais, advoga.

No pensamento de Habermas é ainda "muito importante" a sua "revalorização do modelo iluminista do século XVIII em teorias da racionalidade" em que o filósofo alemão trava um debate importante contra os chamados pós-modernos, em defesa de uma "ideia de unidade da razão".

Também no plano da ética, o pensamento de Habermas assume especial importância, uma vez que Habermas "reedita o modelo kantiano de ética dos princípios", considera o filósofo.

O quarto e último domínio da importância do pensamento de Habermas reside, segundo Nuno Nabais, na sua meditação sobre a técnica ao defender que há limites metafísicos ou éticos na utilização da técnica.

Esta argumentação de Habermas é muito importante e tem sido muito utilizado nos debates sobre bioética, nomeadamente ao nível do genoma, dado Habermas ter introduzido argumentos nesta discussão que normalmente são utilizados pela teologia.

Daí que o pensamento de Habermas se mantenha "extremamente actual", conclui Nuno Nabais.

Nascido em Dusseldorf em 1929, Habermas passou por diversas faculdades e universidades até se doutorar em Filosofia em Bona, em 1954, com um trabalho sobre a teoria das idades do mundo do idealista Friedrich Schelling.

Em 1956 foi convidado por Theodor Adorno, um dos maiores vultos da Escola de Frankfurt, para trabalhar no Institut für Soziale (Instituto de Pesquisa Social), que acabava de reabrir depois do encerramento forçado durante a época nazi.

Habermas foi sempre uma voz contra a reunificação das duas Alemanhas, após a queda do Muro de Berlim em 1989.

Em 1968 transferiu-se para Nova Iorque, onde passou a leccionar na New School for Social Research. A partir de 1971 passou a dirigir o Instituto Max Planck, em Starnberg (Alemanha) e em 1983 transferiu-se para a Universidade Johann Wolfgang von Goethe, em Frankfurt, onde leccionou até se reformar em 1994.

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