O rapaz genial

Quer estar apenas 12 anos no futebol, não gosta de dar entrevistas e pediu contenção pública aos familiares. Eis o treinador campeão, André Villas-Boas.

Não quero ficar muito tempo no futebol, uns 10 ou 12 anos e, depois, sair." Não é uma declaração que se esperasse ouvir a quem estava a um passo de se sagrar campeão nacional com apenas 33 anos - em Portugal é o terceiro treinador mais jovem de sempre a conseguir o título - e quando se trata de um brilhante começo de carreira. Mas, para quem conhece "o rapaz genial", na definição do Wall Street Journal, a revelação faz todo o sentido porque Villas-Boas tem uma certeza: "Serão 10 ou 12 anos muito, muito intensos."

Em Outubro do ano passado, já o treinador do FC Porto chamava a atenção da imprensa estrangeira e meio ano depois, ainda a cinco jornadas do fim da prova, o trabalho realizado justifica o destaque: 16 pontos de avanço sobre o segundo classificado, o melhor ataque e a melhor defesa da competição, 23 vitórias em 25 jogos, 13 vitórias consecutivas até à data e apenas quatro pontos perdidos. Batido está também o recorde de vitórias seguidas de uma equipa portuguesa numa competição europeia (dez vitórias) e sobra ainda a hipótese de igualar o registo histórico do Benfica de Jimmy Hagan, imbatível na época 1972/73. E há muito mais do que números - na opinião dos adversários europeus, "o FC Porto é uma máquina de jogar futebol" (Schuster) e "a equipa mais técnica da Europa, depois do Barcelona" (Gjore Jovanovski, do CSKA Sofia). André Villas-Boas trouxe o 25.º campeonato ao FC Porto somando, com sucesso, irreverência, perspicácia e rasgo a método e disciplina.

Sabedoria de que muitos duvidavam a 2 de Junho de 2010 quando falou pela primeira vez como treinador do FC Porto. "Quero deixar a minha marca e fazer parte da história deste clube." Na apresentação aos seus jogadores, mostrou-lhes um vídeo com imagens de Jorge Jesus e dos jogadores benfiquistas na festa do título conquistado na época anterior. José Maria Pedroto ou José Mourinho não teriam feito melhor.

A resposta à provocação foi dada poucas semanas depois, a 7 de Agosto de 2010, com a vitória sobre o Benfica por dois golos a zero, o primeiro título da sua carreira de treinador principal. "Qualquer plantel do FC Porto dá garantias absolutas"- estava selado um comprometimento mútuo, que foi cimentando ao longo da época numa relação estreita, intuitiva, personalizada. Os jogadores falam de um treinador interessado nos problemas de cada pessoa do grupo e num relacionamento cultivado em jantares que promove e oferece e em que participa sempre.

É ingrato traçar o perfil do treinador do FC Porto. Mais do que nunca, André Villas- -Boas evita falar de si e nos últimos dias pediu igual reserva a familiares e amigos. "Ele não fala dele e os amigos, sabendo isso, também não falam", revela um deles. "É uma pessoa muito reservada, avessa a entrevistas, e nesta fase está pior" diz Carlos Gonçalves, o empresário. A ascendência aristocrática - a 17 de Outubro de 1977 nascia no Porto Luís André Pina Cabral Villas-Boas, bisneto do 1.º visconde de Guilhomil, título criado por D. Carlos I em 1890 - é o dado mais conhecido das suas origens. Que é portista desde pequenino, nunca o escondeu. Sabe-se que aos 16 anos escreveu uma carta ao treinador do FC Porto Bobby Robson, de quem era vizinho, em protesto pela pouca utilização dada a Domingos Paciência, de quem era fã incondicional. A protestar e a explicar, com sustentação estatística, como e porque deveria o avançado jogar mais vezes. Como era de esperar, a ousadia caiu bem e o inglês convidou o rapaz para trabalhar no FC Porto, em trabalho de scouting.

Acabado o 12.º ano, o curso de Letras ficou por fazer. Na década de 90, as paixões dividiam-se já pelos carros e pelo automobilismo - da Fórmula 1 ao todo-o- -terreno - e pelo futebol. "Médio voluntarioso e valente, muito interventivo no jogo e com perfil de líder", de acordo com relatos da altura. Jogou futebol amador e distrital no Ramaldense e no Marechal Gomes da Costa. Por influência de Robson e de Mourinho, adjunto do inglês - que lhe notaram empenho e vocação - foi para Inglaterra estudar futebol. Em Ipswich Town aprendeu com George Burley, ex-futebolista, treinador e manager escocês, e fez também cursos da UEFA.

Em 1996 perderia o contacto com Robson, o primeiro mentor. O inglês foi contratado pelo Barcelona e com ele foi José Mourinho. Em 2000, aos 22 anos, André Villas-Boas rumou às ilhas Virgens. Escondeu a idade e assumiu o cargo de director técnico, primeiro, de seleccionador nacional, depois. Dezoito meses passados, uma derrota por nove golos frente a Bermudas obrigou ao regresso.

Em 2002, Pinto da Costa arriscou e escolheu Mourinho para treinador principal. O técnico reencontrou o rapaz nos escalões de formação do clube (treinador dos sub-19) e chamou-o para a sua equipa. André Villas-Boas viveu as vitórias na Taça UEFA, em 2003; no ano seguinte, assistiu à conquista da Liga dos Campeões e, no final, com apenas 24 anos, recebeu um elogio de peso: "Ele é os meus olhos e os meus ouvidos no campo rival", explicou Mourinho ao The Independent, já no Chelsea, projecto para o qual convidou Villas-Boas. Durante cinco épocas (2003 a 2008) ao lado de Mourinho, analisou adversários e fez prospecção de jogadores. "O meu trabalho permite a José saber exactamente quando um jogador rival está mais susceptível a estar no seu melhor ou no seu pior. Viajo aos campos rivais, muitas vezes de forma incógnita, e vejo o estado mental e físico dos adversários antes de apresentar um dossier completo", contou na altura.

Em 2008, seguiu o treinador para o Inter de Milão. Mas em Itália a relação entre os dois esfriou e André aproveitou para dar o passo seguinte, a solo - trocou a possibilidade de ser campeão em Itália pelo desafio de livrar a Académica de Coimbra da descida de divisão. E regressou a Portugal.

Em 2009, o trabalho em Coimbra chamou a atenção do Sporting, o pré--acordo foi feito, mas a 2 de Junho do ano seguinte, seria anunciado treinador do FC Porto. Entrou a ganhar. E quando o primeiro empate interrompeu um ciclo de 14 vitórias, a reacção, misto de arrogância, ambição e pragmatismo, já não surpreendeu: "Se não for campeão, para o ano não estarei aqui." Mourinho não teria dito melhor.

A comparação não agrada a um nem a outro. "Não venham fazer comparações porque quando fui para o FC Porto já tinha trabalho de campo feito, o que é bastante diferente." Também André Villas-Boas foi claro: "Sou muito mais próximo de Bobby Robson - tenho ascendência inglesa, o nariz grande e gosto de vinho" (Mourinho só bebe água.) Percebe- -se que o futebol não reconhece a Villas-Boas nem o carisma, nem a arrogância, nem a energia conflituosa de Mourinho. Não é seguramente o mesmo sedutor. Mas mostrou já que é intempestivo, capaz do confronto verbal, igualmente ousado, igualmente metódico. E no entendimento de muitos, "é tacticamente, até, mais sofisticado". "Ter sido adjunto de Mourinho foi fundamental. Devo--lhe muito, mas ele também me deve muito."

Deve a Mourinho - e ao certificado de qualidade que trabalhar com The Special One confere, sem mais - o acesso directo a equipas da I Liga, contrariando o percurso normal e escapando ao treino de escalões inferiores. Um risco ousado que Villas--Boas quis assumir. Mas ainda é cedo para fazer o balanço - "Saber-se-á se a decisão funcionou no dia em que se ler um perfil de Villas-Boas em que Mourinho não seja mencionado", escreve o WS J. Um dia, talvez daqui a 10, 12 anos.

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