O novo feiticeiro da pequena maçã

Licenciado em Engenharia Industrial, educado e reservado, é também dirigente implacável e de competência extrema. Por isso, sucedeu a Steve Jobs.

É preciso que algo mude para que tudo fique na mesma", o célebre aforismo do príncipe Salina em O Leopardo acaba de ter uma aplicação inesperada na Apple. A empresa informática conhecida pelo logótipo da pequena maçã viu o seu fundador e presidente, Steve Jobs, afastar-se por razões de saúde, na passada semana, pela terceira vez em seis anos. A substituí-lo fica Tim Cook, o seu número dois. Mudam os nomes, permanece o estilo e o modo de gestão. Porque, de facto, tem sido Cook a dirigir a empresa desde há anos. "Steve é o rosto da empresa e está ligado ao desenvolvimento dos produtos, mas é Tim que transforma aqueles conceitos em produtos lucrativos", dizia recentemente à Wired um antigo director da empresa.

Jobs pode ser o mago, o feiticeiro das novas tecnologias, mas é graças a Cook que se concretizam os "feitiços": os iPad, os iPhone e os Mac. Estes, graças ao novo presidente, "funcionam bem porque ele acompanha todo o processo de desenvolvimento", lia-se na mesma Wired. Cook assume agora, de forma visível, a responsabilidade por algo mais que uma empresa de computadores sediada em Cupertino, Sillicon Valley. A Apple é uma marca global e elemento da cultura contemporânea.

A responsabilidade de Cook é acrescida. Quando se soube que Jobs deixava a direcção, as acções da Apple passaram para 334 dólares num máximo de 348 dólares nos últimos três meses - estavam na quinta-feira a 343 dólares. O mercado parece acreditar naquele que, desde 17 de Janeiro, aos 50 anos, teve de abandonar a absoluta discrição que cultivara até agora.

Um dos mais bem classificados num dos melhores cursos de MBA, o da Universidade de Duke, Cook é também dos mais bem pagos empresários dos EUA e o mais bem pago da Apple - Jobs recebe o vencimento simbólico de um dólar, mas 50 milhões de dólares por ano em acções da empresa.

Se é bem pago - 59 milhões de dólares em 2010 -, este licenciado em Engenharia Industrial é um trabalhador compulsivo e director exigente. Numa reunião, Cook indicou a um dos presentes para seguir directamente da sede para o aeroporto, onde apanharia um avião para a China, sem saber quando voltaria e sem tempo para passar por casa. Quando acabou de falar, e o colaborador continuou sentado, Cook disse num tom de voz comedido: "O que está ainda aqui a fazer?"

A calma e a educação não impedem que seja implacável. Num perfil da Forbes, em 2008, um antigo funcionário da empresa, sob anonimato, disse que "ele faz as perguntas que sabe nós não podemos responder e continua a fazê-las até não sabermos em que buraco nos havemos de meter". Diz o funcionário: "Ele é capaz de deixar uma pessoas em frangalhos."

Filho de um operário de estaleiro e de uma doméstica, Cook nasceu no Alabama; passou pela Compaq e esteve 12 anos na IBM, onde ficou conhecido por trabalhar nos dias de Natal e de Ano Novo. A esta atitude profissional corresponde semelhante estilo de vida. Admirador do ciclista Lance Armstrong, cujo exemplo cita em reuniões, Cook é um ávido praticante de ciclismo e presença assídua no ginásio.

Há 13 anos na Apple, é definido como solteiro incorrigível (multiplicam-se as notícias sobre uma discreta homossexualidade) e personalidade reservada (os colaboradores reconhecem ser raríssimo encontros sociais com ele fora da sede); agora, é também um dos líderes empresariais mais poderosos do mundo.

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