O linguista que explica porque há facto e fato

Após décadas de reuniões em vários países, com projectos e polémicas, avanços políticos  e recuos legislativos, o linguista viu finalmente entrar em vigor o novo Acordo Ortográfico.

Atripla grafia com que se pode escrever, em Portugal, febra, fevra e fêvera ("e está sempre correcto") é um dos exemplos que o linguista e catedrático João Malaca Casteleiro pode citar quando os adversários do novo Acordo Ortográfico argumentam que um dos defeitos do tratado é precisamente o facto de permitir duplas grafias. "Neste momento, esta é a única forma de unificar o máximo e de limitar as divergências, evitando que aumentem no futuro", alega o especialista, explicando que em Portugal pronuncia-se o "c" em facto, mas no Brasil a palavra já se diz fato.

O universitário que nasceu no Teixoso (Covilhã), a 29 de Agosto de 1936, estudou nos seminários do Fundão ("já não era no edifício que Vergílio Ferreira descreve em Manhã Submersa") e da Guarda, mas teve depois de fazer os exames do liceu antes de se matricular na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que passaria para as actuais instalações em 1958, quando frequentava o terceiro ano de Filologia Românica. E naquele edifício da cidade universitária, onde foi vendo surgirem os blocos das outras faculdades e crescerem as árvores, licenciou-se em 1961 com a primeira tese portuguesa na área da sintaxe (A Expressão da 'Ordem' na Língua Portuguesa no Séc. XX - Estudo Sintáctico-Estilístico Basea-do em Autores Portugueses e Bra-sileiros), e doutorou-se, em 1979, com uma dissertação também pioneira (Sintaxe Transformacional do Adjectivo: Regência das Constru-ções Completivas).

Vulto que se tem tornado conhecido do público nos últimos anos pela defesa de uma ortografia reunificada ("após o fim do Império, o que ficou foi a língua") - e também pelo aportuguesamento dos estrangeirismos que inseriu, em 2001, no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa (ver outra pe-ça) -, Malaca Casteleiro foi professor do ensino secundário no Colégio Militar e no Liceu Pedro Nunes antes de iniciar a carreira universitária em 1969, quando foi convidado por Jacinto Prado Coelho para seu assistente - dez anos depois, assumia a cátedra e, nesse mesmo ano, tornava-se membro da Academia das Ciências de Lisboa , onde seria presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia, de 1991 a 2008.

Quando o presidente brasileiro José Sarney incumbiu António Houaiss de promover o Encontro de Uniformização Ortográfica da Língua Portuguesa, que decorreria na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, em 1986, Malaca Casteleiro, como membro da Academia das Ciências de Lisboa, integrou a delegação portuguesa. Depois, participou no Anteprojecto de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa, em 1988, e nos trabalhos que conduziram ao Acordo Ortográfico de 1990.

O catedrático que se jubilou em 2006 historia as divergências ortográficas entre Por-tugal e o Brasil desde o final do século XIX, quando, inspiradas em José de Alencar, algumas correntes de intelectuais defenderam, sem sucesso, a criação de uma língua brasileira: os acordos de 1911 ("foi feito à revelia do Brasil"), 1931 ("a primeira grande tentativa de uniformização"), 1943, 1945 ("quando se tentou convencer os brasileiros a reintroduzir as consoantes mudas, que tinham sido abolidas por necessidades de alfabetização"), 1975, 1986 ("quando se pretendeu uma reunificação completa da ortografia").

O também professor convidado nas Universidades de Coimbra, Açores, Madeira, Beira Interior e Macau, com a autoridade de quem assinou o livro Nível Limiar (Para o Ensino / Aprendizagem do Portu-guês como Segunda Língua / Lín-gua Estrangeira), patrocinado pelo Conselho da Europa, lembra que, há 15 universidades chinesas que já dão licenciaturas em português e que o nosso idioma é opção no ensino secundário em países como o Senegal, a Namíbia, o Zimbabué e a África do Sul. A partir de agora, deverão começar a ensinar numa ortografia mais fácil.

Por cá, agora que o tratado entrou em vigor, "será de bom- -tom os documentos oficiais passarem a usar a nova ortografia". O linguista acredita que, apesar de o período de transição ser de seis anos, ao fim de dois a maioria estará adaptada à nova escrita, embora seja mais fácil para os jovens e mais complicado para os velhos. A razão é simples, explica com a clareza de quem sabe conciliar o erudito e o popular, a música de Mozart e a de Amália: "Ao aprender uma palavra aprende-se a pronúncia, o significado e a grafia (que se fixa na mente como uma imagem)."

Mas as discussões continuarão sempre, à moda antiga. Fêvera? Não! Está errado! Escreve-se febra!

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