O advogado 'marcado' pela ETA

Não tem telemóvel, mas no País Basco sabem quem ele é. E pela segunda vez entregaram a este ex-seminarista a defesa de alegados etarras, para evitar a extradição para Espanha

Conhece mais alguém com a minha profissão, com a minha ida-de e estatuto que não tenha telemóvel?" José Galamba, 59 anos quase 60 (nasceu em Fevereiro de 1950) tem a certeza de que é único. Não, não tem telemóvel. Nem nunca foi a Londres: "Fiquei sempre por Paris... Calhou." Se alguma vez calhou ir ao País Basco, de onde são originários o homem e a mulher detidos pela GNR em território português com explosivos e suspeitos de perten-cer à ETA de que é defensor nomeado, não adianta. Mas manifesta-se "simpatizante da independência dos bascos - o que não quer dizer que seja simpatizante da ETA militar".

Todo um programa, a distinção entre a ETA militar e a outra. Falemos então de José Ga-lamba de Oliveira, da firma de advogados Steinberg e Galamba, sediada no Chiado, Lisboa, "anarquista libertário há mais de 40 anos", fundador do MES (Movimento de Esquerda Socialista, de que fize- ram parte Jorge Sampaio e Ferro Rodrigues), natural de Leiria, "referenciado no País Basco" por ter há dez anos impedido com sucesso a extradição do etarra Tellexea Maia, detido em Sintra em 1996, e que dos dez aos 17 estudou para padre. "Seria hoje se calhar bispo - bispo vermelho, claro - se não tivesse sido expulso do Seminário dos Olivais. O meu mundo ruiu, na altura." Os motivos terão sido políticos - uma rebelião orquestrada por um grupo em que ele estava e que recusava cantar para Salazar e Cerejeira na inauguração do Panteão - e, reconhece, "outros episódios mais pícaros". Com oito irmãos, dois rapazes e seis raparigas, Galamba assegura que não tinha tabus nem fantasmas na relação com o sexo feminino e que até frequentava, enquanto seminarista, discotecas. Mas nem o facto de o tio homónimo, o cónego José Galamba de Oliveira, ser, nas suas palavras, "o inventor do milagre de Fátima" e amigo do cardeal Cerejeira o salvou da expulsão. "A minha mãe foi uma leoa, escreveu para todo o lado, mas não serviu de nada. Havia de ser os dois, mãe e filho, apanhados pela polícia no clube dos chamados católicos progressistas, a capela do Rato. Mas isso foi mais tarde: aos 17 anos, perdida a carreira religiosa, foi preciso decidir outro rumo. "Queria era ser arquitecto - era ainda aquela coisa católica de fazer coisas úteis para as pessoas -, mas tinha chumbado a Matemática (o curso do seminário dava equivalência ao 5.º ano do liceu) e para Arquitectura era indispensável Matemática. Gostava de Filosofia, Antropologia, etc., mas ia ser o quê, professor? Hoje se calhar não me importava, mas na altura nem pensar nisso. Então lembrei-me do Direito. Fiz os dois anos que me faltavam e lá fui admitido, estudando o menos possível - na altura estudava-se pouco - e vivendo intensamente a revolta académica de 1968/74. Fui dirigente da Associa-ção Académica de Direito, três ve-zes preso pela PIDE... Vi o Marcelo Rebelo de Sousa, fura-greves, pendurado pelo pescoço a pedir clemência... Aí fui vedeta." E vedeta, garante, é coisa que não quer ser: "A última coisa que quero é isso. Quero é paz e sossego, que não me chateiem." Mas pergunta: "Viu a foto que saiu no i, a fumar um charuto à frente da Boa Hora? Estava muito boa."

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