No 'superpolícia' há um 'gentleman'

O secretário-geral de Segurança Interna foi director da PJ do Porto num momento conturbado. A sensatez com que geriu polícias insatisfeitos foi um trampolim para a Direcção Nacional

O bigode, o cigarro na mão, o ar misterioso num corpo magro de posse pacata. Um homem que escolhe o momento certo para falar, sem desperdiçar energia em discussões inglórias. Um observador nato, de humor peculiar. Sensato. O "superpolícia" Mário Mendes é a encarnação do verdadeiro investigador criminal transposto das fantasias do ex--ministro da Justiça Laborinho Lúcio para a vida real. Acrescente-se um coração de ouro.

"Todas as suas características dão-lhe um perfil de investigação criminal. E ele preenchia-me muita dessa imagem fantasiada", admite ao DN o juiz Laborinho Lúcio, ao lembrar as viagens de avião em que se sentaram lado a lado, rumo a Bruxelas, sempre com pastas atoladas de papéis ao colo. Não admira que Mário Mendes tivesse sido a escolha do então ministro para, em 1991, suceder ao juiz Marques Vidal na direcção da Polícia Judiciária.

Aliás, foi o juiz jubilado do Supremo Tribunal Administrativo Marques Vidal quem o descobrira entre a magistratura três anos antes. Mário Silva Tavares Mendes, 62 anos, nasceu perto da sua terra natal, em Aveiro. Vidal lembra até uma grande amizade com o seu meio-irmão, um juiz já falecido. "Andámos juntos na universidade. Só mais tarde vim a saber que o Mário era irmão dele", lembra.

Um percurso profissional palmilhado em várias comarcas do País e uma personalidade geradora de consensos tinham sido um livre acesso para dirigir a Polícia Judiciária do Porto. Marques Vidal, que à data era director nacional da PJ, classi-fica a incumbência de "difícil". Na altura havia casos de corrupção interna no departamento. Mário Mendes preferiu encarar os três anos (de 1989 a 1991) como um desafio. "É um homem de consensos. Consegue resolver todos os problemas sem decisões bruscas", diz Marques Vidal. A sua prestação abriu-lhe caminho para o lugar de director nacional.

O perfil de investigador criminal está longe de definir quem é Mário Mendes, o actual secretário-geral de Segurança Interna. O chefe do seu gabinete, tenente-coronel Mesquita Fernandes, sublinha-lhe a preocupação cada vez que folheia um jornal e depara com a vítima de um crime. Contra as mulheres, contra os idosos, um simples roubo na rua. Mesmo quando as estatísticas apontam uma tendência contrária, qualquer crime o alarma.

É precisa muita água para o fazer ferver. E mesmo que ferva, dificilmente o demonstra. Chega a cair no pecado da condescendência extrema. Mesquita Fernandes descreve-o como "um verdadeiro gentleman, de uma educação que desarma qualquer pessoa que o queira criticar". E aceita as críticas, aprende com elas, sem devolver resposta.

A escolha das palavras é tão criteriosa " e inteligente", que Mário Mendes chega a usá-las pintadas de ironia. "Não é um humor qualquer", adverte o chefe de gabinete. Nem todos o compreendem, tem tanto de assertivo como de discreto. "É muito british", especifica Laborinho Lúcio.

Mário Mendes não muda entre a família. Quem trabalha com ele descreve-o como "afável e sensato". O filho mais novo, 35 anos, não encontra melhores sinónimos. Mas acrescenta palavras como "compreensão", "abertura", "guia" e "modelo" para completar o retrato. Mário Mendes, 35 anos, ganhou do pai o nome e o exemplo de vida. Mas não lhe seguiu os passos nos caminhos da justiça. É gestor na PT. A irmã, Ana Filipa, 36 anos, gestora num banco, já deu três novos grandes sorrisos ao pai: a Maria, de cinco anos; o António, de dois; e a Maria Inês, de cinco meses.

É a falar dos netos que Mário Mendes - o pai, juiz, "superpolí- cia" - quebra a regra de ouro que preserva desde o início da carreira: a reserva da vida familiar. O tenente-coronel Mesquita Machado fala em "duplo amor". De facto, ele não consegue esconder a felicidade de ser avô. E, diz o filho, até chegou a ponderar deixar o cargo de secretário-geral de Segurança Interna "para acalmar e dedicar-se à família".

Mário Mendes já viveu em vários locais do País, sempre acompanhado pela mulher, professora, e dos dois filhos. Pelo menos até eles entrarem na universidade - ela, no Porto; ele, em Lisboa. A mulher acompanhou-o mesmo em Bruxelas, para onde foi, em 1996, como conselheiro técnico principal da Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia. "Nota-se que é um amor antigo. Ele é muito preocupado com a esposa. E ela está sempre presente na vida dele", sublinha o chefe de gabinete.

Seguiu-se a direcção do Centro de Estudos Judiciários, em 2001, e, dois anos depois o Conselho de Gestão da Academia de Direito Europeu de Trier, sob nomeação do ministro da Justiça. Mas é em Aveiro que está a casa-forte da família.

"É o mar, a ria, a cidade", justifica Marques Vidal. É mais, assegura o seu braço-direito no gabinete. É a sua terra natal.

Foi por ali que o actual secretário-geral de Segurança Interna chegou a praticar básquete, râguebi e até a usar algumas máquinas do ginásio. Passatempos agora arrasados por uma simples caminhadas na praia ou na cidade.

Nas poucas horas livres, Mário Mendes aproveita para espreitar relatórios que traz do trabalho, mergulhar em literatura judiciária e fazer uma pausa com um romance histórico.

Marques Vidal não lhe conhece autores preferidos, mas prefere acreditar que está entre eles, com as obras já por si publicadas e assinadas. Moita Flores, que assessorou Mário Mendes quando ele era director nacional da PJ, lembra o gosto pela música clássica.

O filho admite que essa predilecção não o afasta de ouvir outros tipos de música. O criminologista Moita Flores recorda ainda os velhos tempos "em que petiscavam pelos restaurantes de Lisboa".

Mário Mendes não é aquilo que se chama um "bom garfo" no sentido de comer muito. Mas mostra sê--lo no prazer que sente em apreciar os mais variados pratos de cozinha. O filho conhece aquele que o faz sair de casa rumo à Bairrada, o leitão. E reconhece-lhe outros gostos gastronómicos, como os italianos.

Um homem de humor peculiar mas pouco dado a demonstrações fáceis de piadas. É elaborado. Mas entre a família chegou a abrir excepções. O filho recorda quando saía à noite e queria dormir até tarde. O pai nada dizia, mas pela manhã aproximava-se da cama do filho e enchia-o de perfume para o acordar. Moita Flores grava alguns episódios mais tristes ao lado de Mário Mendes.

Era ele director nacional da PJ quando uma chamada da PJ do Porto deu conta da baixa de um homem. Um inspector fora assassi-nado por um traficante de droga. Mendes reagiu com o profissionalismo que o cargo lhe exigia. Ao longo da sua carreira profissional, o sonho de Mário Mendes foi chegar a juiz-conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça. Já o lugar de secretário-geral da Segurança Interna foi um desafio.

Mário Mendes chegou a puxar do seu trunfo humorístico para justificar porque aceitou o convite de José Sócrates numa das primeiras entrevistas que concedeu como secretário-geral de Segurança Interna. "Se calhar apanhei sol a mais", ironizou aos jornalistas do Expresso. Acabou por admitir a "surpresa". "Achei interessante. Num país que não é para velhos, estar perante um desafio destes aos 60 anos merece que se veja do que sou capaz", justificou de seguida.

O Conselho Superior da Magistratura não foi consensual na aprovação da sua comissão de serviço para o cargo. Houve dois votos contra. Nada derrotou o "superpolícia", que mostra um grande conhecimento das estruturas policiais e da criminalidade. No entanto, Mário Mendes faz questão de sublinhar: "Nunca fui supernada".

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