Muito mais do que os estrumpfes

Peyo, aliás, Pierre Culliford, é conhecido como o criador dos Estrumpfes, mas a exposição que lhe é dedicada em Paris pretende revelar toda a riqueza do universo gráfico de um dos grandes autores da banda desenhada

A páginas tantas da grande exposição retrospectiva da obra gráfica de Peyo, patente até ao próximo dia 30 no Hôtel Marcel Dassault, em Paris, o visitante depara, no meio de vários objectos pessoais e material de arquivo do criador de Johan e Pirluit e dos Estrumpfes, com a asa de um pássaro.

A explicação para a presença de tão insólito objecto entre os pertences do autor belga de banda desenhada é simples. Peyo usava a asa para limpar do estirador os fiapos das borrachas com que apagava os seus desenhos.

A Artcurial, responsável pela organização da exposição, pretende mostrar aos que identificam Peyo apenas com os Estrumpfes, e aos que conhecem estas personagens só da animação televisiva, toda a riqueza da sua obra, já que, segundo Éric Leroy, o seu comissário, "é terrivelmente redutor" confinar Peyo ao universo dos duendezinhos azuis e aos seus desenhos animados.

Ele era "um desenhador meticuloso e perfeccionista, bem como um imenso argumentista", mas a imediata e imensa popularidade dos Estrumpfes, a sua projecção mundial e o seu gigantesco sucesso comercial, acabaram por monopolizar Peyo e empurraram para segundo plano ou cancelaram as suas outras criações. Nomeadamente a genial série Johan e Pirlouit, ambientada numa Idade Média onde o fantástico se manifestava mas nem por isso fazia Peyo descurar o rigor histórico com que a concebia. Era a série favorita do autor, mas acabou por ser a principal vítima do triunfo dos Estrumpfes.

(Ironicamente, os Estrumpfes fizeram a primeira aparição numa aventura de Johan e Pirlouit, La Flûte à Six Schtroumpfs, em 1958).

Como escreveu Hughes Dayez, biógrafo de Peyo, em Peyo L'enchanteur, ele teve dois modelos na vida: "Hergé e Walt Disney. Do primeiro, admirava o génio narrativo, do segundo, o sucesso internacional. Espantosamente, a sua carreira conseguiu fazer a síntese destas duas influências."

No entanto, Peyo acabaria por ficar "prisioneiro" dos Estrumpfes e das suas crescentes exigências criativas e comerciais (o estúdio, álbuns, merchandising variado, um parque temático, uma revista, uma série animada para a televisão nos EUA, etc.). A sua morte prematura, de ataque cardíaco, na véspera de Natal de 1992, aos 64 anos, está sem dúvida relacionada com toda esta actividade. Como escreve Hughes Dayez na citada biografia, "Peyo tinha 64 anos, mas fisicamente parecia dez anos mais velho."

A exposição parisiense mostra mais de 150 pranchas e ilustrações originais referentes a toda a obra gráfica de Peyo, objectos pessoais e de trabalho, e documentação de arquivo.

Os Estrumpfes (o nome surgiu num diálogo entre Peyo e o seu grande amigo e colega Franquin, criador de Gaston Lagaffe, quando estavam em férias com as respectivas mulheres, no Verão de 1957 ) estão lá, como não podia deixar de ser, mas também encontramos, com o merecido destaque, Johan e Pirlouit, e ainda Benoît Brisefer, o gato Poussy e Jacky et Célestin (estes criados para o jornal Le Soir,); e entre outras, as ilustrações que o autor fez para calendários escutistas nos anos 60. O Verão da banda desenhada em Paris pertence a Peyo.

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