Uma vida tem muitos caminhos, muitas pátrias

Está em Portugal há 46 anos. Cruzou as fronteiras do cinema, teatro e televisão. Viu cair o regime, fez política e hoje diz que "o maior problema português é a dificuldade em lidar com a ambição".

Desembarcou em Portugal em Fevereiro de 1965 com o estatuto de "atracção internacional". Tinha 20 anos e vinha para participar na revista Sopa no Mel , no Teatro Maria Vitória, em pleno Parque Mayer, em Lisboa. Na mala trazia um curso de Cinema tirado na Escola Experimental de Cinema- tografia de Roma, algumas peças de teatro, um papel ao lado do menino prodígio espanhol Joselito e a cabeça povoada de imagens dos filmes de Rossellini, Fellini, Visconti e da "extraordinária Anna Magnani no Roma Cidade Aberta". Passaram-se 46 anos e Io continua por cá.

"Quando cheguei, tive um enorme sucesso junto do público. Senti--me tão amada", recorda. Apesar de Itália ter então uma sétima arte pujante, que talvez lhe abrisse mais portas, o que Io sempre perseguiu foi "a [sua] verdade". Por isso permaneceu aqui junto ao Atlântico, onde "o tempo não é de extremos e o sol é uma constante". Viveu com o actor Camilo de Oliveira. Teve um filho, criou raízes.

Em 1972 protagonizou o filme Sofia e a Educação Sexual, realizado por Eduardo Geada. Esta obra marca o início da sua incursão no cinema português, onde regressaria muitas mais vezes. O Funeral do Patrão (1976), Esta Noite Sonhei com Brueghel (1989), ou Tráfico, de João Botelho, em 1998. Com uma vida construída entre o plateu, os palcos e a televisão, Io Appolloni afirma que tem "uma criatividade intrínseca", que está permamentemente a "pedir-lhe" para ser "transformada em coisas reais".

Mas se,para alguns, Io é sobretudo uma artista, outros lembram a sua acção política. Era dela uma das mãos que se ergueram numa invasão ao Tribunal da Boa Hora, em Lisboa, no início dos anos 80 num protesto pela descriminalização do aborto. Foi, durante 15 anos, militante do Partido Comunista Português, de que saiu porque percebeu que "não se pode construir uma sociedade contra os outros".

Durante as décadas de 80 e 90 percorreu o País de norte a sul com espectáculos concebidos e produzidos por ela própria. A temática era o universo feminino e um dos que obtiveram mais êxito foi Socorro, Sou Uma Mulher de Sucesso. Nessa peça, diz, "cantava, dançava... fazia tudo. Perdi o medo".

Quando, durante algum tempo, se viu no desemprego, não se atrapalhou. Descobriu um "talento oculto", a culinária. "Sou, essencialmente, uma comunicadora e a comida é uma forma de dizer coisas, de criar relações de proximidade com os outros."

Os inimigos, mesmo os mais subtis, como o desemprego, a doença, não têm derrubado esta mulher de 66 anos, que diz: "A minha vida rege--se por três pilares. Liberdade, verdade e justiça. Todo o meu caminho é feito a olhar para eles." Quando se zanga com Portugal é porque aqui "nem sempre a ética rege a acção das pessoas e a inveja tende a destruir tudo em volta". Sabe que "quem pensa negativo vai parir negativo", prefere sempre procurar o lado bom das coisas, das pessoas, dos acontecimentos.

Teve uma passagem pelo reality show Perdidos na Tribo, sobre o qual diz: "Proporcionou-me a enorme alegria de encontrar um lugar onde a honra ainda existe."

Actualmente, Io Appolloni está a trabalhar com o mestre da Com- media de'll Arte, Ferruccio Sollieri, o famoso actor que há cerca de 40 anos leva a ommedia de'll Arte a todo o mundo. O espectáculo estreia-se dia 13 no Teatro Nacional de São João, no Porto e dia 14 no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Entre tudo isto, a actriz continua com o espectáculo Poemas da Minha Vida.

Ler mais

Exclusivos