Um jacobino que serve o estado em Nova Iorque

A eleição de Portugal para o Conselho de Segurança da ONU tem o rosto  de Moraes Cabral, um diplomata de carreira que tem cumprido um sonho.

Servir o Estado. Para Jo-sé Filipe Moraes Cabral, esta foi a missão com que sempre sonhou desde que cedo percebeu que o curso de Direito, que começara por frequentar em Lisboa, o levaria à rotina da barra do tribunal ou a trabalhar para uma empresa privada, algo que não estava nos seus horizontes. "Para um velho jacobino como eu, servir o Estado e a República tinha então, e continua a ter para mim, um forte atractivo!", diz ao DN, a partir de Nova Iorque, onde ainda está a saborear o vitorioso esforço diplomático que, nos últimos dois anos, dedicou à eleição de Portugal como membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Oriundo de uma família de intelectuais de esquerda, oposicionistas ao Estado Novo, Moraes Cabral tem no sangue a tenacidade do republicano Bernardino Machado, por via da mãe, e a ligação às famílias poderosas do regime, como os Mello, através do pai, que chegou a ser administrador da CUF, e de um primo que ainda hoje continua ligado a este grupo. Um dos seus tios paternos foi jornalista e editor da secção Internacional do Diário de Notícias (nos anos 60/70) e, entre os familiares maternos, estão dois dirigentes comunistas e o primo bloquista Fernando Rosas.

Conhecido como o embaixador do laço - raramente usa gravata e quando o faz fica zangado -, Zé Filipe, assim lhe chamam os amigos e só os amigos, tem mau feitio e não gosta de partilhar protagonismos. Os mais próximos reconhecem-lhe uma forte veia política e uma extensa rede de contactos - mais à esquerda do que à direi- ta - que disciplinadamente mantém em segredo. Trabalhou com presidentes da República e palmilhou como ninguém o Palácio de Belém... e boa parte do mundo. O primeiro a chamá-lo foi Costa Gomes em Dezembro de 1974.

Moraes Cabral era então um jovem de 24 anos que, como tantos outros que se opuseram ao regime, tinha dado o salto da Faculdade de Direito de Lisboa para Bruxelas, onde se licenciou em Ciências Políticas e Diplomáticas e conheceu também a mulher da sua vida, Lydia Reinhold, de quem tem três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Os ventos da Revolução sopraram--no da capital belga para o gabinete coordenador para a Cooperação da Presidência da República, cargo que ocupou até um dos seus melhores amigos, Jorge Sampaio, o convidar em Abril de 1975 para adjunto na Secretaria de Estado da Coo-peração Externa. Era Melo Antunes, outro próximo, ministro dos Negó-cios Estrangeiros.

Depois de fazer parte do IV Governo Provisório, regressa a Belém, desta feita como responsável pela assessoria de Imprensa do presidente Ramalho Eanes, de quem guarda as melhores recordações e admiração. Em 1979, após concurso nas Necessidades, abraça a carreira diplomática e o sonho concretiza-se. Podia finalmente desempenhar um cargo para o qual se tinha preparado, que convinha aos seus interesses pessoais (é um amante da história e das relações internacionais) e à sua maneira de ser. Da Imprensa passa para a Assessoria para as Relações Internacionais do general e ali fica durante um ano mais. Em 1982, é colocado em Otava, segue cinco anos depois para Rabat e, em 1991, na altura da Guerra do Golfo, vai chefiar a missão em Riade. Finda esta, parte para a Represen-tação Permanente em Bruxelas e aí reforça a equipa que controla os primeiros passos de Portugal como presidente do Conselho da União Europeia - o semestre foi brilhante e serviu para demonstrar aos nossos parceiros que a diplomacia portuguesa era capaz de grandes feitos.

Depois de dois anos na capital belga e de uma aprofundada convicção europeísta, Moraes Cabral regressa a Lisboa e, em 1996, responde afirmativamente a mais um apelo de Jorge Sampaio, eleito presidente da República, que o convida para seu assessor diplomático.

"Quem o vê e se precipita a concluir, engana-se. A pose, o laço, o gesto, o conhecimento da história, o interesse por genealogias, heráldicas e condecorações, o gosto das antiguidades podem levar a pensar que se está perante um diplomata tradicionalista, monárquico certamente, talvez mesmo nostálgico dos remotos tempos em que o senhor D. João V mandava e construía. No entanto, quando o conhecemos melhor, tudo muda. Se sabe imenso dos Habsburgos, também sabe imenso da I República Portuguesa ou da Carbonária; se conhece tudo dos hábitos protocolares da corte inglesa, também conhece bem a história do socialismo e sabe de cor as estrofes da Internacional. Perce-bemos então que o falso monárquico absolutista é um verdadeiro republicano, democrata, laico e de esquerda, fiel às suas inclinações e às responsabilidades delas decorrentes", diz José Manuel dos Santos, amigo de longa data, colunista do Expresso, e ex-colaborador de Jorge Sampaio na Presidência da Repú-blica, onde conviveu diariamente com Moraes Cabral entre 1996 e 2004.

O chamamento para a missão em Telavive surge três anos depois. Em Israel, assume, pela primeira vez, as funções de embaixador, ostentando a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo, condecoração imposta por Sampaio, e ali fica dois anos até regressar novamente a Belém, em Julho de 2001, para ser o chefe da Casa Civil do amigo presidente.

Bernardo Futcher Pereira, ex- -assessor diplomático de Jorge Sampaio, actualmente cônsul em Barcelona, descreve Moraes Cabral como um homem muito "competitivo" de "poucos mas bons amigos", que "tem muita confiança em si próprio". É um bom executante, gosta mais de fazer do que organizar e delegar, e sabe gerir muito bem a informação e as relações profissionais, acrescenta. Além disso, "não se deixa impressionar, nem intimidar pelo poder e, como bom diplomata, dispensa o protagonismo mediático". Outro dos seus colaboradores em Belém reconhece-lhe uma imensa capacidade de trabalho e, como piada, conta que Moraes Cabral gostava de aconselhar aos seus mais próximos que, em vez de se queixarem com o ritmo que imprimia e a falta de tempo para executarem as tarefas, seguissem o exemplo da fábula em que o leão, rei da selva, sugere aos coelhos que se transformassem em árvores quando perseguidos pelo homem ou por predadores. Ou seja, o embaixador apenas tratava das grandes linhas e orientações, os detalhes eram com os outros.

Madrid foi a etapa seguinte na sua carreira. Mal chegou começou a preparar um dos eventos que mais inveja suscitaram junto dos seus pares e que fez a Embaixada de Portugal ser notícia durante mais de uma semana. As boas relações entre os reis de Espanha e o casal Sampaio e o estreito conhecimento que Moraes Cabral tinha mantido na Presidência com a Casa Real permitiram que Juan Carlos e Sofia tivessem acedido em jantar, pela primeira vez, numa embaixa- da estrangeira no seu próprio país. Um feito que ficou na história das relações bilaterais e a que ne- nhum ministro português assistiu. Feitios!

De Madrid, onde se sentia "a gusto", partiu para Nova Iorque. Esperava-o a tarefa de promover a candidatura de Portugal ao Con-selho de Segurança das Nações Unidas, o que significava muitas horas de conversa, muitas acções de representação, muitos almoços e jantares, visitas de muitas delegações ao País, seminários, recepções e a conquista um a um de 192 votos, tantos quantos os membros da ONU. A 12 de Outubro, festejou a façanha e o dever cumprido. Portugal ganhou, serviu-se o Estado.

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