'Surf' é o vício e política o passatempo

Quando não está a surfar, Pedro Adão e Silva interessa-se por políticas sociais. Estuda-as e planificou-as no Ministério da Segurança Social, com Paulo Pedroso. Tem 35 anos, é casado, licenciado em Sociologia, pai de dois filhos, vive onde nasceu, em Lisboa. É do PS desde os 18. O surf começou na Praia do CDS, na Costa  de Caparica

É raro o dia em que ele não vai à Net ver como estão as ondas. Onde andam elas? Pode até, nesse dia, andar às voltas com a sua tese de doutoramento sobre a "europeização das políticas públicas", que aguarda julgamento no Instituto Universitário de Florença. Ou estar a preparar mais uma análise da situação política para o Diário Económico ou a esboçar mais uma aula no ISCTE.

Pedro Adão e Silva, 35 anos, casado, dois filhos, licenciado em Sociologia, ex-dirigente nacional do PS, ex-assessor governamental na área da Segurança Social (de Paulo Pedroso), colunista no Diário Económico, colaborador no Rádio Clube Português e na RTPN, não passa um dia - uma hora, provavelmente - em que não sonhe com surf. A última onda que fez, o próximo regresso ao mar. Prolonga esse prazer escrevendo mensalmente para a revista Surf Portugal e no seu blogue (ondas.weblog.pt), que tem "centenas de seguidores". Agora reuniu as crónicas dessas colaborações marítimas num livro (edições Bertrand), O Sal na Terra. Foi lançado ontem, pelo jornalista/escritor/editor Francisco José Viegas. Tem prefácio do padre/ /poeta José Tolentino Mendonça.

E não é por acaso que foi um padre a prefaciá-lo. Nem que o título seja O Sal na Terra. Sente o surf, assumidamente, como um vício ("sou dependente") e como uma espécie de religião (embora - ou talvez porque... - seja "um ateu confesso"). O título do livro, que é também o título das suas crónicas na Surf Portugal, foi buscá-lo ao "Sermão da Montanha", no Evangelho segundo São Mateus: "Cristo terá dito aos pescadores que o escutavam: 'Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há-de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens'."

Dito de outra forma, como vem no livro: "É esse o sentido último da metáfora de O Sal da Terra: a busca de uma vida purificada e revigorada, a procura da plenitude. É também essa a ambição e parte da experiência de quem faz surf (ou dos viciados em fazer surf). Também nós, surfistas, sabemos bem qual é a importância do sal." E isto porque "também nós, surfistas, sabemos bem qual é a importância do sal". "Quando saímos da água, quando as ondas que apanhámos já se confundem em memórias simultaneamente mais ténues e mais distantes da realidade, o sal no corpo é o que faz perdurar a experiência, mantendo-a acesa no regresso à Terra."

A outra forma que encontrou de fazer "perdurar a experiência" é, precisamente, escrever sobre ela. "Escrevo muito, sobre os mais variados temas [política, estudos académicos]. A escrita sobre surf é, nessas escritas todas, uma espécie de intervalo lúdico. A única onde tenho liberdade absoluta. É a única para a qual parto sem sacrifício."

Pedro Adão e Silva, militante do PS desde os 18 anos, pertenceu ao Secretariado Nacional do partido entre 2002 e 2004. Dificilmente terá havido uma direcção socialista mais atormentada. Razão: o processo Casa Pia. Demitiram-se no Verão de 2004. E, pelo meio, foi (também) o surf que veio em sua assistência: "Tornou-se ainda mais importante. O facto de saber que tinha o surf como horizonte, que no fim-de-semana seguinte poderia regressar às ondas, foi muito importante, sim."

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