Só mais um bairro de Setúbal

De vez em quando o bairro é notícia. Quase sempre por casos de polícia. Como se ali só vivessem delinquentes e se se tratasse de um lugar remoto, outro país - e não um bairro de Setúbal. E se o víssemos assim?

"Quando vou a casa de amigos e comparo com a minha, digo-lhes que não trocava a minha casa na Bela Vista pela deles. Tenho uma casa muito boa, já não se fazem casas como esta, com estas dimensões, e as áreas de convivência são óptimas. Temos pátios onde podemos estar... Os meus amigos vivem em prédios sem nada. Tive uma óptima infância aqui. Concentrávamo-nos todos na rua por causa dos pátios. Também íamos para o sítio onde agora é o jardim da Bela Vista. Aquilo era mato e passávamos o dia todo a brincar e a fazer jogos, coisa que não vejo agora. Por acaso no outro dia vi umas crianças aqui no pátio a jogar o 35, que era um jogo a que eu jogava muito, e fiquei contente, porque julgava que já nem sabiam o que era."

Ana Sofia tem 24 anos e terminou há pouco o Curso de Assessoria na Escola Superior de Tecnologias e Gestão de Portalegre. "Já fiz o estágio curricular e agora ando à procura de emprego." Está há cerca de cinco anos a viver sozinha no apartamento que foi entregue aos pais, há 20 anos. A família veio para a Bela Vista vinda do quartel de São Francisco, onde os pais se instalaram algum tempo depois de chegarem a Portugal de Cabo Verde, em condições que não recorda. O bairro onde Ana Sofia vive - os pais e os três irmãos estão em França, os primeiros a trabalhar, os segundos a estudar - é o cor-de-rosa, o mais recente dos três grupos (ou outros são o azul e o amarelo) que compõem o Bairro da Bela Vista. "Sou a mais velha e já estava a meio do 12.º anos quando a minha mãe resolveu ir ter com o meu pai e levar os filhos. Gosto muito do meu sol, da minha praia, e também não quis largar o ano a meio. Fiquei." Quando foi estudar para Portalegre, arrendou uma casa a meias com duas colegas. "Pagava 115 euros, os meus pais ajudaram-me e nas férias trabalhava." Quase o mesmo que paga pela casa da Bela Vista, um T3 atribuído aos pais que há três anos viu a renda subitamente aumentada. "Durante anos pagava-se muito pouco. E de repente a renda subiu de 20 para 200 e tal euros. O aumento foi com base no tamanho das casas. Depois cada família ia apresentar os rendimentos, se achasse que era de mais." Foi o que Ana Sofia fez, e a renda desceu para cerca de metade. Sair daqui não é um plano a curto prazo. "Estou muito contente com o bairro. Enquanto puder ficar, fico. Se sair daqui é por a casa ser dos meus pais, para ter a minha própria casa. Porque é muito difícil arranjar uma casa como esta. A vizinhança é boa, temos aqui um supermercado, temos autocarros que passam aqui, vai abrir um mercado ali ao fundo à saída do bairro amarelo, temos o novo jardim, há escolas. Tem tudo." Andou na escolas do bairro, entretanto reconstruídas (caso da escola básica) ou em vias de reconstrução (como sucede com a Secundária Ana de Castro Osório, em obras) e reconhece que até uma melhoria, nítida para quem tenha visto o bairro há oito anos, na limpeza e recolha do lixo. "Está muito mais limpo ultimamente, anda sempre aí uma empresa a tratar disso. Claro que ainda há gente a mandar lixo pela janela..." Ainda assim, acha que antes, com mais lixo e tudo, "era um sítio melhor para se viver". O que estraga um pouco as coisas, diz, "são estes rapazes". Os rapazes a quem atribui os desacatos dos últimos dias e que, garante, "muitos não são daqui", e em relação aos quais encolhe os ombros à pergunta sobre do que fazer com eles. "Francamente, não sei responder. Dizem que é falta disto e daquilo, que é por não haver empregos, e por serem pobres... Não acho, acho que na maior parte dos casos têm tudo e andam nesta vida pela aventura, pela adrenalina, e não se dão conta de que prejudicam os outros. Fico muito triste quando vejo as notícias porque quem não conhece julga que os delinquentes são todos de cá. Claro que alguns são - o rapaz que foi morto era do bairro amarelo. Nunca falei com ele, não o conhecia. E claro que depois, quando eu digo que sou da Bela Vista, as pessoas reagem mal. Quando lá em Portalegre dizia que era daqui ficavam a olhar para mim, não acreditavam: 'Não és nada.' A ideia que me dava é que achavam estranho uma rapariga da Bela Vista estar ali a estudar".

Ana Sofia garante, no entanto, não ser caso único. "Conheço muita gente que fez a faculdade ou está fazer. Essa ideia que as pessoas têm... O que há mais neste bairro é gente a tirar o ensino superior. E fico triste porque acabam por englobar tudo no mesmo saco."

Um ano mais nova que a amiga e vizinha a Rute, habitante do bairro azul, assente. "Há aqui muita gente que estuda. Aliás, até polícias aqui vivem." Ri. A ela falta-lhe um ano para acabar o curso de Gestão Bancária. "Gosto de mexer em dinheiro, sempre gostei." Quem não gosta? "Sim, claro, mas desde miúda que quando passava no Montepio dizia que queria trabalhar lá." Andou numa escola privada enquanto trabalhava. "Estive na Autoeuropa, agora estou numa loja no Jumbo a dobrar roupa. Mas sei que o curso público vai abrir aqui em Lisboa - agora só há em Barcelos, e não tenho dinheiro para ir para lá viver - e estou à espera para acabar. Disseram-me que é para o ano." Entretanto, claro, procura um emprego compatível. "Às vezes dou uma morada diferente. Tenho noção de que se disser que sou daqui isso me pode prejudicar."

A mãe, Maria, 48 anos, faz que sim. "Há esta ideia de discriminar as pessoas dos bairros sociais. Como se meia dúzia de miúdos que roubam fosse a maioria." Faz gestos largos. "Se roubam? É verdade que roubam. E não é a pobreza, não é disso, também não é a educação... Estes miúdos, não sei. Os pais, os avós, passaram pela guerra, passaram fome e não são revoltados. E eles saíram assim. Tem tudo a ver com as pessoas. Por mim não tenho razão de queixa, eles não roubam aos vizinhos. Não tenho nada a dizer destes moços, até são sempre muito educados comigo. Aliás tenho mais medo da polícia que destes miúdos que nunca me fizeram mal nenhum. E acho que a polícia está a dar mais importância a isto do que a que isto está a ter."

Rute e Ana Sofia fazem coro: "Queríamos sair na sexta-feira à noite, para ir a uma discoteca a uma festa de anos, e mandaram-nos voltar para casa, com maus modos. Parecendo que não, é chato. Ficámos aqui presas."

As queixas multiplicam-se. Um rapaz de 19 anos que esteve em casa de vizinhos a jogar PlayStation foi mandado encostar à parede com caçadeira apontada "à mistura com palavrões", o dono da PlayStation foi à porta ver o que se passava de chinelos e cachorrinho na mão e levou um berro para ir para dentro, um homem de 43 anos que aparece para mudar uma torneira na casa da vizinha garante que lhe bateram (mostra as marcas) e que o mantiveram algemado no pátio da esquadra durante uma noite inteira. "Nunca fui tão humilhado na vida", repete. "Sou ex-toxicodependente, ando a tomar metadona, estive preso por tráfico cinco anos mas nunca fui tão humilhado. Está certo que está mal o que fizeram, puxar fogo a carros enquanto o dono ainda está a pagar a letra, mas pagarmos todos por igual não está certo. Existem leis para pagar pelo que façamos. Eu nunca mandei uma pedra à polícia. Apesar de não gostar deles, sei que fazem falta."

Uma semana depois do início dos incidentes na Bela Vista - desencadeados com o enterro de um rapaz atingido a tiro na sequência de um assalto no Algarve - o bairro está calmo. Só à volta da esquadra, no bairro amarelo, se nota diferença: uma concentração de veículos policiais e efectivos armados que se vai adensando à medida que a noite cai. À volta, grupos de moradores, mulheres, homens e crianças observam os polícias como quem espera que algo suceda. A atitude é de quem veio à rua digerir o jantar e ficou a conversar à esquina. Tensão zero. Mais à frente, na escarpa que enfrenta o rio e dá nome ao bairro, o bairro azul oferecia, a meio da tarde, paisagem de sempre. Crianças a jogar à bola e andar de bicicleta nos pátios, mulheres e homens debruçados nos varadins de ferro que contornam as longas galerias abertas onde o arquitecto José Charters Monteiro colocou as portas das habitações, numa sugestão de convívio e espírito de comunidade que também está presente no desenho do bairro amarelo (um e outro são dos anos 70 do século passado - a ocupação dos bairros iniciou-se em 1977). Partilha que uns criticam e rejeitam, criando barreiras à circulação dos vizinhos, mas que outros, como Ana Sofia, elogiam.

Certo é que, com todos os defeitos que lhes são apontados, os bairros que fazem parte da Bela Vista têm um desenho urbano, foram pensados como um todo articulado, com espaço para equipamentos (sobretudo o bairro amarelo, o maior, onde se situam as escolas e onde nos pisos térreos funcionam várias instituições) e para utilização dos habitantes. E, sobretudo, foram pensados como uma forma de resolver problemas habitacionais e sociais - de integrar, em suma.

E, sorte ou azar, a maioria das pessoas que se encontram por ali reconhece isso - e a diferença que fez na sua vida. "Chamam ao bairro problemático por tudo o que tem acontecido. Mas eu vim para aqui pequenina e gostei muito. Achei isto o paraíso." Carla Tocha, 36 anos, empregada de limpeza de origem timorense, está à porta de casa, no pequeno pátio da sua casa térrea que dá para o grande pátio do seu lote (cada lote é constituído por duas fileiras de prédios paralelos), a vigiar a brincadeira das filhas. "Isto foi um sítio muito bom para se morar. Agora está pior." Uma vizinha mais velha junta-se à conversa. "A gente não diz nomes. Mas conhecemo-los, claro. É difícil não os conhecer. Andam aí. Tenho para mim que é falta de acompanhamento. Vi uma reportagem na televisão que dizia que era a falta de trabalho... Mas não fui muito a favor. Não se pode justificar tudo com a falta de trabalho. Há miúdos aí na rua o dia todo, de manhã à noite, alguns em idade de ir à escola e não vão... A escola tem conhecimento e não faz nada. E depois, claro, vão muito pelo exemplo, a adrenalina dos mais velhos." Carla conclui: "Veja, a minha mãe criou aqui nove filhos com muito sacrifício. Hoje não somos engenheiros nem doutores mas todos têm a sua vida e casa própria." Como a Carla, que ficou com a casa que a mãe comprou, há uns anos, a preço de saldo. Encolhe os ombros. "Se não tivesse filhos, ficava aqui sem problemas, as casas até são muito razoáveis. Mas queria sair daqui por causa deles. O problema é que ninguém me compra isto. Eu até posso pôr uma tabuleta a dizer vende-se, mas já viu: quem é que quer isto?"

Mas à possibilidade de mandar abaixo o bairro, colocada pela presidente da Câmara de Setúbal há dias, como possível "solução" dos problemas associados ao adjectivo problemático, os moradores fazem uma careta irónica. "Mandar abaixo? Não resolve. Eles vão continuar a existir, e matá-los também não podem." Paula, de 29 anos, ri. "Isto não tem nada a ver com o bairro, mas com a educação de cada um. O meu marido foi criado aqui e trabalha desde sempre, joga à bola. O meu filho - tive-o aos 15, coisas que acontecem quando não se tem informação - vai pelo mesmo caminho: estuda, faz desporto. Há aqui tanta gente que trabalha e faz uma vida normal. Incluindo gente que tinha todas as condições para dar para o torto." Exemplifica com uma visita frequente da casa: "É um miúdo cuja mãe era alcoólica (já morreu), cujo padrasto lhe dava grandes tareias e cujo irmão mais velho saiu ainda agora outra vez da prisão. O miúdo andava aí na rua aos caídos, cheio de fome, sem papéis. Foram os vizinhos que lhe foram dando uma mão. Agora tratámos-lhe do BI, e está matriculado numa escola especial, a ver se tira o 9.º ano. Diga- -me, se alguém tem desculpa, não é ele? E nunca se meteu em sarilhos."

Por qualquer motivo, Paula, nascida no bairro, auxiliar de educação numa escola da zona, parece comandar o respeito de todos. Quando fala, os miúdos calam-se. "Percebo a revolta deles por terem matado o amigo. Claro que não era nenhum santo, mas há prisões para os ladrões, não é suposto matá- -los. Fui falar com eles e disse-lhes que por este andar qualquer dia ninguém se aproximava do bairro - nem carteiros, nem EDP nem a recolha do lixo. Eles ficaram a olhar para mim e disseram: 'Pois, temos de parar com a brincadeira.'" Sorri, puxa uma passa no cigarro. "Eles nem têm noção do que andam a fazer. A graça para eles é a polícia andar a correr atrás." O marido concorda, abana a cabeça. "São como crianças. Chamam a isto brincadeira."

Difícil decerto para quem aqui vive e aqui cresceu, que toda a vida teve como horizonte o bairro azul, o bairro amarelo e o bairro cor-de--rosa, ver-se como parte de um problema, mesmo se é capaz de perceber que um problema existe. Ver-se na TV e nas notícias como habitante de um lugar selvagem, onde a polícia vai de colete à prova de bala, máscara negra, shotgun e cães, como a uma zona de guerra. Aqui, nesta sala, com o seu computador, a sua PlayStation, o sofá e a TV, as paredes brancas pintadas de fresco - a casa foi há pouco tempo atribuída a Paula e ao marido -, é difícil imaginar o que terá sido estar cercado pelas brigadas especiais, holofotes dirigidos às janelas, ser identificado nas idas e vindas.

Francisco Sousa, encarregado de obras, vive há 10 anos uns lotes acima com a mulher e os cinco filhos. Disfarça mal a fúria com o ocorrido. "Há coisas bem mais importantes a fazer que meter carradas de polícia nas ruas a tratar-nos a todos como criminosos. Claro que percebo que a polícia tinha de actuar, mas não desta maneira, a nivelar tudo por baixo." Há uns anos, Francisco tentou organizar, com um professor da escola local (Pedro Florêncio), uma espécie de gestão do bairro pelos habitantes. Tinham um nome escolhido, até: gabinete de intervenção estratégica para o Bairro da Bela Vista. Andaram com o plano para trás e para diante, na perspectiva de o integrar no PROQUAL (ver caixa). Mas acabaram por desistir. "A câmara dizia que tinha os seus gabinetes técnicos, e mandaram para aqui uns tipos todos engravatados fazer horário de expediente, sem conhecerem as pessoas... Estou triste e desiludido, estou. Percebi que as promessas não são cumpridas e que se calhar ninguém está mesmo interessado em trabalhar a sério nestas zonas."

Pode ser, sobretudo, que ninguém saiba muito bem como pegar no assunto e prefira esquecê-lo durante todo o tempo em que não está a abrir telejornais com carros a arder e trocas de tiros - que é quase sempre. Luís Humberto Teixeira, 31 anos, pode atestá-lo. Ainda há pouco tempo era jornalista e é casado com uma. Vivem no bairro amarelo, numa casa que foi atribuída aos pais do Luís e que há 13 nos, quando foi posta à venda, comprou com um empréstimo de uma irmã mais velha. "Ela tinha já 34 anos na altura - eu sou muito mais novo - e pensava já, como as outras irmãs, sair daqui. A minha mãe também queria sair, por isso a casa ficou para mim." Uma verdadeira pechincha, 100 metros quadrados "em muito bom estado" por 12 mil euros (então 2400 contos), o T3 que Luís habita numa das orlas do bairro, em frente à Escola Ana Castro Osório, num prédio em que cerca de metade dos vizinhos optaram também por comprar. "Há cabo-verdianos, angolanos, ciganos, alentejanos..." Ri. "Damo-nos todos bem. A limpeza dos espaços comuns é feita por nós e quando há uma situação que não achamos correcta falamos civilizadamente e tudo se resolve. Claro que há algumas situações sociais complicadas no bairro. Mas a imagem exterior não tem nada a ver com a realidade, é muito estigmatizada. E mesmo quando sucedem estas coisas e vêm cá jornalistas são capazes de ficar o dia todo ao pé da esquadra sem se interessarem pelas coisas interessantes que se passam."

Luís admite que, apesar de ser morador na Bela Vista há 20 anos, algumas coisas - ou mesmo muitas - lhe passem ao lado. "Quando me falam de realidades de algumas zonas do bairro, eu pergunto-me se é assim tão perto do sítio onde eu vivo. Na minha zona nunca houve nada. De vez em quando ouvimos uns tiros ao longe, mas achamos que é gente a celebrar qualquer coisa. Temos aqui em frente o parque da Bela Vista, onde vem gente de toda a cidade fazer jogging e passear as crianças…" Ter um filho aqui não o preocupa. "Eu próprio cresci aqui, não foi? Estava na rua muito tempo, por causa dos espaços comuns, atravessava o bairro de uma ponta à outra e nunca fui assaltado. Nunca tive medo."

Talvez, afinal, grande parte da questão esteja nisso: não ter medo. De entrar nem de sair. De perceber que o Bairro da Bela Vista, como todos os bairros a que se dá este nome, de problemáticos e críticos, faz parte da cidade - da comunidade que dá pelo nome de país. Perceber, por exemplo, como percebeu a mulher de Luís, que ali é Setúbal, como no resto da cidade onde nasceu, e que as mesmas regras se aplicam. "Ela é daqui da cidade e já conhecia o bairro. Inicialmente não tinha uma imagem muito positiva, mas quando começámos a namorar ela começou a acostumar-se. E deu-se um caso curioso: as pessoas eram mais fechadas, passavam umas pelas outras sem se cumprimentarem e ela dizia sempre boa tarde e bom dia. No início não obtinha resposta. Mas foi insistindo. E hoje em dia toda a gente cumprimenta, incluindo os miúdos. É muito curioso. Até se desenvolveu uma relação muito melhor naquele prédio. Se calhar basta isso: tratar as pessoas como pessoas."

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