Quem são os Windsor?

Que sabe dos locatários do Palácio de Buckingham? Dois monárquicos portugueses analisam a casa real britânica. O que a distingue - ou não - das outras monarquias europeias e por que foi, até agora, a mais "tradicionalista"?

Quando se pensa em monarquia, a primeira imagem que vem à cabeça é a da família real britânica e da Rainha Isabel II. É a monarquia com mais poder - reina não só no Reino Unido mas é chefe de Estado também dos países da Commonwealth, incluindo Nova Zelândia, Canadá e Austrália. E Isabel II é a monarca europeia que bateu o recorde de longevidade no trono [mas não em tempo de reinado: a recordista é Vitória, que morreu com 82 anos, esteve 63 no trono. Para a ultrapassar, Isabel terá de ser ainda rainha em 2015]." Rui Monteiro, 35 anos, matemático, bolseiro de investigação na Universidade de Aveiro, membro do Instituto da Democracia, não é o monárquico típico, se isso existe. Militante socialista, encontrou no avô paterno, que morreu antes do seu nascimento, a inspiração para a descoberta dessa perspectiva. "Foi por volta dos 14 anos. Fui visitar a minha avó e entrei no gabinete do meu avô, que estava tal qual ele o tinha deixado. Reparei numa foto a preto e branco de um jovem fardado, autografada, e perguntei quem era. O meu pai disse-me que era uma foto do rei D. Manuel II. E quis saber porquê. Vim então a saber que o meu avô era monárquico. Anti-salazarista e monárquico. Virou as costas à causa monárquica e apoiou o Humberto Delgado e prestou serviços ao Governo americano durante a Segunda Guerra Mundial. Tinha uma carta de agradecimento de um presidente americano e tudo." A vida e as escolhas de Manuel António Vilela, que teria hoje 110 anos, levaram assim o neto a interessar-se pela causa monárquica e a conciliá-la, tal como o pai, Joaquim Domingos Monteiro, que morreu há 12 anos, com a militância socialista. Uma aliança que admite não muito evidente, mas assumida no acto de inscrição no PS: "Quando me filiei, há 16 anos, disseram-me que era um regime tão válido como o republicano, porque também há democracias monárquicas."

Precisamente, a democracia britânica costuma ser apontada como a mais antiga em vigor, apesar de, como sublinha Rui Monteiro, a casa de Windsor ser, na Europa, a que carece de mais legitimidade democrática. "Nas monarquias nórdicas, quando morre um rei, o regime é referendado, e o povo é auscultado - e com votações muito expressivas a favor da manutenção da democracia. E em Espanha houve um referendo à Constituição e, portanto, à monarquia." Aliás, a família real que mais admira é a espanhola. "A britânica tem mais poder, mas com uma origem mais obscura, funda-se na Magna Carta, que tem aspectos completamente anacrónicos, como o de o rei ser o chefe da Igreja Anglicana, coisa que acho que vai ter de ser modificada em breve, porque não faz sentido. E até há pouco tempo os príncipes não podiam casar-se com católicos - isso foi alterado no Governo de Gordon Brown."

Muito mais mudou, como é óbvio, na casa de Windsor. Leis não escritas como a da obrigatoriedade de herdeiros do trono se casarem com membros de outras casas reais ou pelo menos com aristocratas caíram no Reino Unido muitos anos após serem rasgadas por outras monarquias europeias, a começar pelas nórdicas. E se aquando do casamento de Carlos e Diana a "virgindade" desta última era um factor primordial, foi possível já a Carlos, após a escandalosa e trágica novela que foi o seu primeiro casamento, casar-se com uma divorciada (Camilla Parker-Bowles, em 2005, um ano depois de o herdeiro do trono de Espanha, Felipe de Borbon, se unir à também divorciada, e "plebeia", Letícia Ortiz), e a William assumir publicamente a sua convivência carnal com a "plebeia" Kate Middleton.

A comparativa lentidão da casa real britânica - apesar do furacão Diana (que, já agora, era não só aristocrata como com pergaminhos mais "britânicos" e "antigos" que o marido) - naquilo que se pode denominar de adaptação aos valores e costumes hodiernos é explicada por Mendo Castro Henriques, 56 anos, académico e actual presidente do Instituto da Democracia Portuguesa (uma organização criada em 2007 em relação com a localização do novo aeroporto de Lisboa, cujo presidente "de honra" é Duarte Pio e da qual Rui Monteiro também faz parte) com um paradoxo. "Os britânicos fizeram as reformas políticas antes dos outros: foram os primeiros na Europa a consignar poderes mais simbólicos ao chefe de Estado e a transferir a sede da soberania para o Parlamento. E assim acabam por manter mais tradicionalismo. É uma regra de bolso da história que quanto mais cedo foi a revolução melhor se aliam as tradições e os aspectos revolucionários. Como a revolução britânica é a primeira de todas permitiu criar um compromisso em vários aspectos." Lembrando que a Inglaterra teve uma república no século XVII (a república de Cromwell, que termina em 1650), antes da Revolução Francesa, Mendo Castro Henriques, formado em Filosofia e actualmente docente na Universidade Católica, aponta o facto de a casa de Windsor ser de origem germânica, descendendo da casa de Hanôver (hoje parte da Alemanha). Os Hanôver subiram ao trono após a dinastia dos Stuarts, que reinou depois do fim da experiência republicana, ter chegado ao fim por falta de herdeiros. "Os ingleses acharam bom ter monarcas constitucionais que não se metessem muito e foram buscar aquele casal estrangeiro [na verdade, o primeiro rei da casa de Hanôver foi para Inglaterra sem rainha, já que tinha a ex-mulher - o casamento foi anulado -, Sofia Doroteia, em prisão domiciliária por supostamente o ter abandonado; uma história muito interessante, que mete até um homicídio, o do alegado amante de Sofia, às ordens do rei e do seu pai, ecoando a de Inês de Castro] em 1714." Jorge I de Hanôver foi pouco popular, em parte por se dizer que não sabia falar inglês, mas certo é que aceitou passar de rei absoluto em Hanôver para monarca simbólico num regime parlamentar na Inglaterra. A dinastia Hanôver terminou formalmente no Reino Unido com a ascensão ao trono de Eduardo VII, filho de Vitória e do seu primo direito Alberto Saxe-Coburgo-Gota, em 1901. Isabel II é bisneta de Eduardo e faz parte da mesma dinastia, mas o nome da mesma foi alterado em 1917 por Jorge V, avô da rainha, durante a guerra com a Alemanha, devido ao facto de se tratar de um apelido germânico.

Mendo Henriques, que prefere definir-se como "realista" (do inglês royalist) que como "monárquico" e que considera ser essa a melhor forma de defender a res publica, "numa instituição reconhecida pela cultura e pela história", cita Lafayette, numa frase retomada por Passos Manuel - "A monarquia é o trono rodeado por instituições republicanas" - para definir a sua particular forma de ver os dois regimes como não conflituantes. Quanto ao devir das monarquias europeias, e nomeadamente da britânica, considera que cada uma é um caso. E que se as nórdicas estão de pedra e cal - "muito entrosadas nas vidas dos países" -, o momento das sucessões, na britânica e na espanhola, "pode abrir clivagens". Certo é que Isabel II reinará provavelmente mais uns bons anos. E que ninguém pode prever o que a progressiva diluição do "sangue azul" e da sua noção agregada de privilégio e distanciamento fará às monarquias. Afinal, se a legitimidade do trono advém de uma ideia de distinção conferida por via familiar e por um estrito sentido do dever que implica ver o monarca e a sua vida, incluindo a privada, como pertença do povo, que fica disso quando as famílias reais se parecem cada vez mais, no sangue e nos costumes, com famílias normais?

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