Quando a doença ganhou rosto

Rock Hudson, Freddie Mercury ou Mapplethorpe. Nomes sonantes do mundo artístico que em vida marcaram uma época. Já as suas mortes, acordaram o mundo para o drama do VIH/sida.

5de Junho de 1981: o Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças, nos Estados Unidos, reporta cinco casos de uma pneumonia rara detectada em pacientes com sistemas imunitários debilitados. Em Julho do ano seguinte, a comunidade científica fala pela primeira vez em síndrome de imunodeficiência adquirida. Era a descoberta de uma doença que é hoje considerada uma pandemia global.

Durante os trinta anos após o aparecimento dos primeiros casos de sida, mais de 60 milhões de pessoas foram infectadas e cerca de 30 milhões morreram de complicações da doença. De acordo com dados das Nações Unidas, 33,3 milhões de pessoas vivem actualmente com VIH. Em Portugal, onde o primeiro caso foi diagnosticado em 1983, foram até hoje notificados mais de 39 mil casos nos diferentes estádios de infecção.

Nos anos 80, quando ainda muito pouco se sabia sobre o VIH/sida - que então se dizia ser uma doença "misteriosa e fatal" que afectava "principalmente a comunidade gay" -, as primeiras mortes entre celebridades soaram como um alerta ao mundo.

A comunidade que dava cartas na cena musical de São Francisco nos anos 70 foi dizimada pela doença ainda antes de esta ter sido identificada pelos médicos. Um desses casos foi o de Patrick Cowley, pioneiro da música disco nos EUA e que morreu em 1982. Em 1989 , morre também o cantor Sylvester após o lançamento de Mutual Attraction.

Contudo, o primeiro nome a fazer correr tinta em jornais de todo o mundo e a acordar as populações para o problema da sida foi o do galã de cinema Rock Hudson. Depois de muita especulação, o actor decidiu assumir publicamente a doença. A sua morte, em 1985, representou um ponto de viragem na percepção que o público tinha sobre o VIH.

Mais tarde, em 1992, o Estádio do Wembley enche em homenagem a Freddie Mercury durante um concerto transmitido em directo para 27 países. Todos os fundos angariados foram investidos na luta contra a sida.

Freddie Mercury

"Depois da enorme especulação nos media durante as últimas duas semanas, quero confirmar que tenho sida. Senti que era correcto manter esta informação em privado, a fim de proteger a privacidade daqueles que me rodeiam. No entanto, chegou a hora de todos os meus amigos e fãs ficarem a saber a verdade e espero que todos estejam comigo, com os meus médicos e com todos os que no mundo lutam contra esta terrível doença." Foi através de um comunicado lido pelo seu agente que, um dia antes de morrer, o dono de uma das vozes mais conhecidas do mundo assumiu publicamente a sua doença. Diagnosticado em 1987, o vocalista dos Queen escondeu a sua condição até ao último momento, mas há muito que a comunicação social britânica tinha avançado essa possibilidade. As suspeitas surgiram através de declarações de ex-companheiros, quando a sua saúde começou a deteriorar-se, levando-o a retirar-se das digressões com a banda. Poucos meses depois da sua morte, a 24 de Novembro de 1991, uma multidão de 72 mil pessoas foram ao Estádio do Wembley, em Londres, para assistirem a um concerto em sua homenagem. Ao palco subiram nomes consagrados, como David Bowie, Elton John, Robert Plant ou Axl Rose.

Transmitido em directo nas televisões e nas rádios de 76 países, estima-se que o evento tenha tido uma audiência de cerca de mil milhões de pessoas. O grande objectivo deste tributo ao cantor era chamar atenção para o problema da sida, e todo lucro reverteu para fins de investigação científica sobre o vírus.

Rock Hudosn

Rock Hudson estava no Hotel Ritz de Paris, em Julho de 1985, quando desmaiou e foi levado para o Hospital Americano. Nessa altura, a explicação pública para o internamento do galã de cinema referia um cancro no fígado. Entretanto, começaram a correr rumores nos jornais de que o actor teria contraído VIH e estaria em Paris para realizar tratamentos.

Dias mais tarde, o porta-voz do artista acabaria por confirmar esta informação. Hudson voou de volta a Los Angeles no fim de Julho, onde o conhecimento público da sua doença levou a uma preocupação crescente sobre o seu estado de saúde e o de outras vítimas de sida. A 3 de Outubro de 1985, um dia depois da morte de Hudson, o The New York Times escrevia: "O actor foi a primeira grande figura pública a reconhecer publicamente que sofria do síndrome de imunodeficiência adquirida, doença misteriosa e, normalmente, fatal."

Durante anos a fio, o nome Rock Hudson foi sinónimo de beleza masculina. Foi, inclusivamente, um dos ícones maiores do cinema de Hollywood. Do alto do seu metro e noventa, ombros largos, olhos escuros, destacou-se como uma das presenças mais populares do grande ecrã. O seu trabalho no grande ecrã começou a ser amplamente reconhecido depois do seu papel como rancheiro do Texas em O Gigante e pelas suas comédias românticas ao lado da actriz Doris Day. Pillow Talk valeu-lhe uma nomeação para os óscares em 1959. Mais tarde, trabalhou em séries de televisão. A morte de Hudson, aos 59 anos, significou uma mudança profunda na percepção que o público tinha da doença. A actriz Morgan Fairchild disse um dia que a morte de Hudson "concedeu um rosto à sida".

Pioneiro da música disco, Patrick Cowley destacou-se na cena musical de São Francisco nos anos 70. Trabalhava como técnico de luz, mas começou a dar nas vistas com as suas composições de Hi-NRG. Durante um digressão mundial em 1981 com o cantor Sylvester, começou a sentir-se doente. De volta aos EUA, a sua saúde começou a deteriorar-se, mas os médicos não conseguiram encontrar a causa. Em 1982, foi uma das primeiras vítimas conhecidas de sida, quando esta era ainda conhecida como "doença gay".

Keith Haring

Artista gráfico e activista americano, Keith Haring iniciou carreira a desenhar com giz nas estações de metro nova-iorquinas, influenciado pelo graffiti. Meses antes de ter revelado na Rolling Stone que estava infectado com o vírus VIH, afirmou: "Fiz muitas coisas na vida, ganhei muito dinheiro e diverti-me muito, mas também vivi em Nova Iorque nos anos do auge da promiscuidade sexual. Se eu não for infectado, mais ninguém será." Aos 31 anos, fundador de uma organização que ajuda crianças, Haring morreu de complicações da doença.

Robert Mapplethorpe

Aos 42 anos, o fotógrafo americano Robert Mapplethorpe, conhecido pelos seus trabalhos em grande escala e pelo erotismo que caracterizava muitas das suas fotos, morreu vítima de complicações de sida. A fundação que o artista criou antes da sua morte, em 1989, tinha como objectivo proteger o seu trabalho e promover causas com as quais se preocupava.

Esta organização já ajudou a angariar milhões de dólares para financiar projectos de investigação científica no âmbito da luta contra a doença.

Wladziu Liberace

Jovem prodígio do piano Wladziu Liberace iniciou carreira na música clássica, mas acabou por tornar-se um autêntico homem do espectáculo com as suas roupas extravagantes e pianos de luxo. O pianista americano foi um dos mais bem pagos artistas dos anos 50 a 70. Quando começou a perder muito peso, o seu agente mentiu, dizendo que estava a fazer dieta. Em Janeiro de 1987, Liberace foi hospitalizado e confirmou-se o rumor de que tinha sida. Acabou por morrer no mês seguinte, aos 67 anos, na sua casa na Califórnia.

Klaus Nomi

Maquilhagem carregada, penteado como imagem de marca e espectáculos teatralizados e bizarros. Era desta forma que o invulgar contratenor alemão Klaus Nomi se apresentava ao público. Tendo morrido aos 39 anos, Nomi, o cantor cuja fama explodiu após ter integrado um coro de David Bowie, foi uma das primeiras celebridades a morrer de sida.

A sua agenda preenchida contribuiu para o agravamento do seu estado de saúde, e em 1983 foi hospitalizado. Acabou por morrer nesse mesmo ano.

Sylvester James

Sylvester James, o cantor de música disco e soul que imortalizou canções como You Make me Feel (Mighty Real) ou Do You Wanna Funk?, foi um dos ícones maiores do movimento disco dos anos 70, com sede em São Francisco. Em Janeiro de 1987, depois de ter visto alguns dos seus amigos mais próximos a desaparecer, afirmou: "não acredito que a sida seja sinal da ira de Deus. As pessoas têm tendência para culpar Deus por tudo." Morreria dois anos mais tarde, pouco depois de lançar o disco Mutual Attraction.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

Legalização da canábis, um debate sóbrio 

O debate público em Portugal sobre a legalização da canábis é frequentemente tratado com displicência. Uns arrumam rapidamente o assunto como irrelevante; outros acusam os proponentes de usarem o tema como mera bandeira política. Tais atitudes fazem pouco sentido, por dois motivos. Primeiro, a discussão sobre o enquadramento legal da canábis está hoje em curso em vários pontos do mundo, não faltando bons motivos para tal. Segundo, Portugal tem bons motivos e está em boas condições para fazer esse caminho. Resta saber se há vontade.

Premium

nuno camarneiro

É Natal, é Natal

A criança puxa a mãe pela manga na direcção do corredor dos brinquedos. - Olha, mamã! Anda por aqui, anda! A mãe resiste. - Primeiro vamos ao pão, depois logo se vê... - Mas, oh, mamã! A senhora veste roupas cansadas e sapatos com gelhas e calos, as mãos são de empregada de limpeza ou operária, o rosto é um retrato de tristeza. Olho para o cesto das compras e vejo latas de atum, um quilo de arroz e dois pacotes de leite, tudo de marca branca. A menina deixa-se levar contrariada, os olhos fixados nas cores e nos brilhos que se afastam. - Depois vamos, não vamos, mamã? - Depois logo se vê, filhinha, depois logo se vê...