Pai do computador português é o novo Reitor

São cinco irmãos, todos cientistas. A família Silva ganha, em poucos dias, o reitor e o bastonário da Ordem dos Médicos. João Gabriel toma posse, a 1 de Março, da reitoria da Universidade de Coimbra.

Directo, frontal e cultor da exigência e da ética do trabalho. Nem quando o obrigaram a fazer um compasso de espera no percurso escolar se deixou vencer. O ano de tantas mudanças, 1974, é uma lição: Nesse ano, durante o qual tem de cumprir serviço cívico, até entrar na Universidade de Coimbra (UC), no início de Novembro de 1975. João Gabriel Monteiro de Carvalho e Silva confessa que aproveita "bem o tempo".

É nessa fase que é incumbido de um levantamento ornitológico, durante 60 dias; tem de apanhar azeitona durante quatro longos e invernosos meses e, ainda, tem de abrir valas de esgotos enquanto é "doutrinado politicamente em nome da revolução e do povo". A, tudo isso, retira o melhor da vida. Ingressa na universidade, no início de Novembro de 1975. E onde é a primeira aula? Na sala 17 de Abril, a mesma na qual o dirigente estudantil Alberto Martins ousou falar perante o então presidente da República, Américo Tomás. Coincidências. Mas naquele dia, não houve aula. "Estávamos há um ano à espera de entrar na universidade e aparecem uns alunos a dizer que estávamos em greve." Não se conforma. A sala estava apinhada. Com outros três ou quatro alunos, quis acabar com a greve. Lidera então um abaixo-assinado para ter aulas. "Não era uma questão política, só queríamos ter aulas", confessa.

Em 1980, João Gabriel completa a licenciatura em Engenharia Electrotécnica. Obtém o grau de Doutor em Ciências da Engenharia, especialidade Informática (1988). Coordena a equipa que produziu o primeiro microcomputador português (ENER 1000). Porém, o percurso académico também se cruza com o de ambientalista. O contacto com a natureza, que remonta à infância em que cuidava da horta, passará a ser matriz do seu percurso. A sua ligação à Quercus e o combate à co-incineração projecta-o para a ribalta (ver caixa). Assume que luta sempre pelas suas ideias. Porque as suas metas, agora que se prepara para liderar a secular instituição - após uma eleição renhida com a actual vice-reitora, Cristina Robalo Cordeiro - são exactamente aquelas que o trouxeram até aqui. É taxativo: "Os únicos caminhos para o país são os do mérito e do trabalho e não a 'chico-espertice'."

João Gabriel não esquece algo especial: "O meu pai aceitou um abaixamento significativo de salário, na Companhia Eléctrica das Beiras, para dar aos cinco filhos uma formação de nível superior. Saímos de Pombal para Coimbra com esse objectivo: estudar". Ao dizer isto, os olhos brilham. Hoje, todos são cientistas. Cresceram, afirma João Gabriel, com a noção de que era preciso galgar sempre os patamares do conhecimento e do rigor.

O chão de partida deste clã já se perde no tempo mas não da sua memória: "Nasci à beira do caminho-de-ferro, no tempo do 'muita-linha-pouca-terra'. Tinha uma horta onde semeei batatas e feijões." Não esconde as dificuldades económicas que a família sentia. Hoje, numa conjuntura de crise, preconiza algo ambicioso para a UC: "motor de desenvolvimento".

João Gabriel está entusiasmado e quer expandir a marca UC ao mundo, com uma equipa reitoral com perfil abrangente. O clã Silva pode ser um caso de estudo: José Manuel Silva lidera a Ordem dos Médicos. Jaime Silva é doutorado em Matemática; Margarida Silva é doutorada em Biologia Molecular; Jorge Silva é doutorado em Física. Já lhes chamam de "Os Cinco Magníficos".

Últimas notícias

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • Gente
Pub
Pub