O sucesso é apenas um fracasso adiado

O que têm em comum livros como Guerra e Paz, Lolita, O Coração das Trevas, A Casa de Bernarda Alba, A Condição Humana, O Poder e a Glória, 1984, Admirável Mundo Novo, O Processo, Conversa na Catedral, Memórias de Adriano, Debaixo do Vulcão, Viagem ao Centro da Terra, Em Busca do Tempo Perdido, O Grande Gatsby, Servidão Humana, Música para Camaleões, Longe da Multidão e A Oeste Nada de Novo? Foram todos escritos por autores que, podendo ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, se viram privados deste galardão, do qual os académicos de Estocolmo não os acharam merecedores. A lista de galardoados com o Nobel, que no campo das letras se destina a premiar anualmente "a obra que mais se distingue, numa perspectiva idealista", conforme Alfred Nobel deixou escrito em testamento, é - salvo raras excepções - uma antologia da ilegibilidade. Que começou aliás logo em 1901, com um poeta francês pouco menos que obscuro: Sally Proud- homme. É uma lista que ignora a grande maioria dos gigantes da literatura do século XX, e mesmo de escritores do século XIX que ainda viviam em 1901: esquece Lev Tolstoi, Émile Zola, Joseph Conrad, Marcel Proust, Pérez Galdós e Thomas Hardy. E se até nem admira que nomes imensamente populares - como Júlio Verne, Somerset Maugham, Erich Maria Remarque, Georges Simenon e Conan Doyle - tivessem sido esquecidos pela exigentíssima Academia Nobel, outros estão ausentes da lista de premiados de forma quase escandalosa, como Henryk Ibsen, Rainer Maria Rilke, Pio Baroja e Anton Tchekov. Enquanto autores como Wladyslaw Reymont, Carl Spitteler, Karl Gjellerup, Verner von Heidenstam, Gerhart Hauptmann, Rudolf Eucken, Grazia Deledda e Gios è Carducci integram a lista de premiados. Ninguém hoje os lê, e provavelmente ninguém nunca os leu, mas também já ninguém lhes retira a distinção que foi negada a Marguerite Youcenar, José Lezama Lima, Malcolm Lowry, Paul Bowles, Katherine Mansfield, Evelyn Waugh, John dos Passos, Tolkien, Italo Calvino e Norman Mailer.

As omissões são, pelo menos, democraticamente distribuídas por diversos idiomas. A começar na língua inglesa, que não viu conferir o Nobel a autores como Henry James, Scott Fitzgerald, G. K. Chesterton, Tennessee Williams, Aldous Huxley, D. H. Lawrence e Jack London - de quem Lenine, no leito de morte, pedia que lhe lessem alguns dos trechos que mais admirava. Da língua francesa estão ausentes autores como André Malraux, Marguerite Duras e Saint-Exupéry. Entre os italianos, nenhuma menção a Cesare Pavese ou Alberto Moravia. Dos russos, nada de Vladimir Nabokov (que até escreveu principalmente em inglês), Marina Tsvetaeva ou Maiakovski. Escandalosa também a omissão de grandes figuras da literatura de expressão espanhola, como Federico García Lorca, Unamuno, Ruben Darío, Julio Cortázar, Cabrera Infante, Antonio Machado e Juan Carlos Onetti. Ou da literatura germânica, como Franz Kafka, Robert Musil e Stefan Zweig. Ou mesmo da japonesa, como Yukio Mishima.

A língua portuguesa, que até hoje viu apenas reconhecidos os méritos de José Saramago (em 1998), é das que têm mais razões de queixa: a Academia Nobel ignorou Fernando Pessoa. Mas também Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Clarice Lispector. Havia que premiar, em alternativa, ilustres desconhecidos, como Erik Axel Karlfeldt, Harry Martinson e Eyvind John- son, representantes das línguas nórdicas, as mais favorecidas por Estocolmo.

A lista de omissões é interminável. Inclui Virginia Woolf, Dylan Thomas, Sylvia Plath, Raymond Carver, John Updike e Arthur Miller, por exemplo. Em flagrante contraste com Winston Churchill, galardoado em 1953, quando exercia pela segunda vez as funções de primeiro-ministro do Reino Unido - menos por motivos de ordem estética do que de ordem política. Não deixa de ser irónico, já que muitos autores ficaram à margem do Nobel por motivos políticos (ver caixa), embora Churchill escrevesse inegavelmente bem e até tivesse deixado um dos mais sábios conselhos de escrita aos seus leitores: "Das palavras, as mais simples; das mais simples, a menor."

Graham Greene, uma das ausências mais imperdoáveis na lista dos premiados, encolhia os ombros em cada ano que passava sem lhe atribuírem o Nobel. E costumava afirmar: "Para um escritor, o sucesso é apenas um fracasso adiado." De muitos que a Academia Nobel distinguiu não se pode dizer mais nada senão isto.

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