O jogador de tangram e sua paciência poética

Acaba de lançar livro com 1111 figuras originais de gatos para o jogo do trangam. O novo projecto é quase quimérico: fazer uma cidade "a sério" com as setes peças geométricas

Gosta de gatos, dos que recolhe, indefesos e famintos, nas ruas da cidade e, depois, abre a casa do afecto e faz deles verdadeiros amigos. Terá sido esse amor, partilhado pelo resto da família, que o terá levado a dedicar um livro inteiro aos dóceis animais.

Um livro criado, por poética paciência, através de sete peças geométricas (cinco triângulos, um paralelogramo e um quadrado). Pequenas peças de madeira, do antigo jogo da sabedoria, a que Augusto Baptista dá formas, silhuetas, originais e inesperadas. Desta vez, foram gatos.Muitos, muitos gatos. Alegres ou tocados pela timidez; uns a dormir, outros à caça de luz na manhã limpa, outros sentados a tecer sua enigmática memória de silêncios.

A dado passo, tinha registado no seu caderno de capa dura 300 figuras. Três centenas de silhuetas originais do jogo do tangram é um feito em qualquer parte do mundo. Para o autor, no entanto, aquilo parecia colheita pouca, insuficiente, incompleta. Meses depois, eram 400; e, mais tarde, chegaria a um número geométrico, dir-se-ia tangrâmico: 1111 puzzles de gatos.

"Quando atingi este número, achei que devia parar." Não, não foi por esgotamento, garante Augusto Baptista. As possibilidades de criação através das setes peças "tem o infinito como limite". E assim nasceu o Tangram Cats, o terceiro livro do autor com figuras originais deste quebra-cabeças, inventado há mais de 200 anos na China.

O Tangram Cats é prefaciado por norte-americano Jerry Slocum, historiador, coleccionador, autor especializado em tangram e outros puzzles. Desde que o jogo foi inventado, "ninguém - em todo o mundo - criou tantas e tão bonitas figuras-problema como Augusto Baptista, nos seus três livros originais: Tangram Art, Trangram Design, Trangram Cats", escreve Slocum.

Criar uma silhueta, "proposta visual mais ou menos poética, mais ou menos conseguida", é, ao mesmo tempo, "criar um problema para outros descodificarem". E, não raro, o feitiço emaranha o criador. Em certas situações, passa "horas, dias", até descobrir como criou a figura concreta. "Nesse exercício mental, é como se me desligasse do mundo, andasse em viagem, sem noção do tempo. Do corpo. A levitar."

Augusto Baptista, como o próprio se define, "cruza escritas: texto, fotografia, desenho". O tangram, "numa caixinha quadrada", surgiu na sua vida quando era menino. Apareceu e, falhada a primeira tentativa de resolução de um problema, foi atirado para o fundo de uma gaveta, na casa materna de Oliveira de Azeméis.

Houve um reencontro. O menino insiste, persiste, porfia como todo o bom caçador de silhuetas."Nunca imaginei ser capaz de fazer aqueles puzzles." Mas quem porfia sempre alcança. A descoberta acabaria por acontecer. A vida toda pela frente, preso ao fascínio dos "poemas concretos" a emergir, sempre a emergir das pequeninas peças geométricas.

E depois dos 1111 gatos? O homem que joga trangram, já se disse, tem como limite o infinito dos sonhos. Vai deixar-se de livros, garante. E "construir uma cidade": uma cidade de tangram, na linha de As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. "Urbe quimérica feita cidade a sério, com casas, largos, jardins, catedrais, coisas, à imagem das figuras do jogo."

O projecto, revela Augusto Baptista, "decorre, sub-reptício". E compreende-se tamanho desvelo. É para que a cidade "não se esvaneça, antes de amanhecer. Morra, antes de nascer. O que seria uma impossibilidade - e, como o jogo, um mistério". Projecto ou um sonho? "Podem achar isto louco", mas "este é o meu projecto" para os dias que hão-de vir. Uma cidade fraterna, com pessoas e gatos - uma cidade sem medos.

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