O homem que se dissolve no esplendor da escrita

Traz à ficção portuguesa, nos primeiros romances, a sua experiência na guerra colonial. A escrita de Saramago não o cativa, diverte-se com os livros "maus" dos outros autores.

Virou personagem de uma das suas crónicas por causa da barriga. O tempo, insensível, a deixar as marcas no corpo do escritor. "As pessoas começam a interessar-se pela minha barriga." A barriga, a velhice, enfim, é apenas um pormenor. O importante nesse texto é o que António Lobo Antunes releva do seu ofício da escrita. Eles, os que repararam na barriga, não dão conta "que me dissolvo fisicamente naquilo que escrevo".

Dissolve-se na escrita, na imensa floresta de palavras, porque - revela na mesma crónica - existir para ele "é uma segunda profissão" de que tenta evadir-se. António Lobo Antunes, o homem que se dilui numa escrita plena de originalidade, é um dos escritores portugueses mais lidos em todo o mundo. Falta-lhe o Nobel. Só lhe falta o Prémio Nobel da Literatura, ambição que o escritor nunca escondeu.

Todos os anos, na época certa, o autor de A Explicação dos Pássaros lá volta a aparecer como um dos candidatos ao galardão da Acade- mia Sueca. Durante um longo período, outro autor português surgia na lista: José Saramago, falecido em 2010, que acabaria por ser distinguido. Para alguns, o primeiro autor de língua portuguesa a vencer o Nobel deveria ter sido o outro.

O crítico e ensaísta George Steiner subscreve essa posição. "José Saramago não é o maior escritor português da actualidade. Para mim, esse é, de longe, António Lobo Antunes. É um gigante. Ele é um grande, e Portugal não lhe deu ainda o devido reconhecimento. Devia ter ganho o Nobel há já algum tempo. Mas não aconteceu. Por causa de Saramago. Deviam ter ganho ambos, em partilha. Mas não está completamente arredado dessa atribuição ", disse recentemente Steiner à revista Ler.

António Lobo Antunes nunca morreu de amores pela obra de José Saramago. O autor de Levantado do Chão pagava na mesma moeda. A história do Nobel contribuiu e agravou esse contencioso. "Não conheço muito a obra do Saramago, mas eu tenho grandes reservas em relação ao que já li", afirmava o autor de Fado Alexandrino a um jornal brasileiro.

A escrita de Saramago não "entusiasmava" Lobo Antunes. "Temos objectivos absolutamente opostos e encaramos a literatura de modo radicalmente diferente". De- pois, uma crítica mais dura: "Ainda bem que ele tem prestígio no Brasil, porque, no resto do mundo, tirando talvez a Espanha e a Itália, ninguém fala em Saramago."

Os primeiros livros de António Lobo Antunes , Memória de Elefante e Os Cus de Judas, surgem em público no mesmo ano, em 1979. E são um acontecimento literário em Portugal, que rapidamente ultrapassa as fronteiras. Obras marcadas pelo contexto da guerra colonial, que o escritor viveu de muito perto, lançados seis anos após o fim desse conflito. "Nós não inventamos nada. Quando estamos a fazer um livro estamos a falar de nós mesmos. É você que está no livro, através daquelas vozes. Ou melhor, é apenas uma voz."

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa em 1942. Licenciou-se em Medicina, optando pela especialidade de Psiquiatria, foi alferes médico em Angola. Até 1985, exerce a profissão no Hospital Miguel Bombarda. Para o homem que continua a dissolver-se na escrita , difícil não é escrever, "é corrigir". Conhece mal, como atrás se refere, os livros de Saramago. Mas diz divertir-se com os livros maus de outros autores. Aos escritores mais novos, lembra: a literatura "aprende-se". E o trabalho mais árduo é o de limpar a prosa, o "cortar até ao osso", o de enxugar a escrita.

"Levei tempo a compreender o que é a eficácia do romance, ou levei tempo a compreender que, se eu trabalhasse bastante, podia fazer uma metáfora do livro todo". Será que faz mesmo falta o Nobel a quem assume assim a literatura?

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