O homem mais rico dos anos 60

Com o negócio dos têxteis e da electricidade construiu um império. Paternalista, benemérito e amigo de Salazar, foi também o homem mais rico de Portugal da década de 60. A história de um empresário à moda antiga.

No interior do Hotel Infante de Sagres, no Porto - mandado edificar na década de 50 por Delfim Ferreira -, ainda restam pedaços da história da Casa de Serralves e dos tempos em que o empresário foi dono do actual museu. Na década de 50, Delfim Ferreira era o homem do momento.

Detentor da maior fortuna do País, dava-se com Salazar e era íntimo dos ministros do Governo. Era uma espécie de visionário que pretendera construir um megacentro comercial no Porto na década de 40, quando a palavra shopping center ainda não tinha entrado no léxico comum dos portugueses.

Pessoalmente era tão fechado como uma ostra. Tímido, pouco expansivo e tão exigente com os outros como consigo próprio, passava a imagem de homem implacável que não admitia um deslize tão simples como a falta de pontualidade para um encontro. Exercia o paternalismo típico da época, mas era também um benfeitor. Construiu escolas, hospitais, creches. Deixou um legado que está vivo até hoje.

A modéstia não era, no entanto, o seu forte. Em 1951 disse num discurso sentido: "Para mim reivindico apenas a qualidade de bom português, reconheço que a minha consciência não me atraiçoa, quando me diz que tenho cumprido o meu dever como cristão, quer como obreiro da grande obra de reconstrução nacional, da qual, embora simples particular, eu procuro ser devotado colaborador."

Ao contrário de muitos outros empresários da sua época, Delfim Ferreira não começou do zero. O seu pai, Narciso Ferreira, encarregou-se de criar as condições económicas necessárias para os seus oito filhos serem educados em berço de ouro, embora não fosse dado a gastos supérfluos. Não passara fome na casa de Pedome, Famalicão, onde nasceu em 1862, mas Narciso crescera num ambiente pobre, sem vícios nem excentricidades. Como Maria Filomena Mónica escreveu: "Começara vendendo os panos que ele próprio fabricava pelas feiras dos arredores de Riba de Ave onde tinha nascido." Com o dinheiro que foi poupando montou uma pequena fábrica manual de tecidos. Deu-se bem e quando morreu ostentava o título do maior industrial português do ramo têxtil.

Delfim, o filho mais velho, não era necessariamente o mais inteligente dos oito irmãos mas recebera uma educação vocacionada para liderar. Tinha estudado na escola Reichenberg na Alemanha e em 1922 fora para o Porto fundar a Delfim Ferreira Ld.ª - Têxtil Algodoeira de Arcozelo, principal accionista da fábrica de fiação e tecidos de Vila do Conde.

Houve dois momentos-chave na construção do império de Delfim Ferreira, segundo é explicado no livro Fortunas e Negócios, de Filipe Fernandes. Até à Segunda Guerra Mundial, o empresário concentrou-se na indústria têxtil. A seguir a 1945, virou-se para os negócios da electricidade. Era o principal accionista da hidroeléctrica de Varosa e adquiriu a Sociedade de Electricidade do Norte do País. Mais tarde, Salazar chamou-o para organizar a empresa de exploração hidroeléctrica do rio Douro.

A sua fama não se confinava ao Norte e foi convidado a juntar-se a Ricardo Espírito Santo e Manuel Queirós Pereira, entre outros, como promotor do Hotel Sheraton de Lisboa. Não aceitou a honra e fez sozinho o Hotel Infante de Sagres, no Porto. Pouco tempo depois, adquiriu a Casa de Serralves a Carlos Alberto Cabral, segundo conde de Vizela, que estava falido na época. O negócio tinha, num entanto, uma ressalva: a quinta não podia ser objecto de qualquer transformação. Quando Delfim Ferreira morreu, em 1960, de cancro, Serralves estava intacta tal como a tinha adquirido.

Mais de 30 anos após a sua morte, na década de 80, o seu filho Delfim Alexandre Ferreira vendeu a quinta da família e levou a leilão parte do espólio que tinha herdado. Na altura, histórias correram sobre os apuros económicos do filho do homem que fora em tempos dono da maior fortuna do País.

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