O homem de teatro de Paris cuja pátria é o Alentejo

Dirige o Théâtre de la Ville e o Festival de Outono de Paris. Foi o mais jovem encenador a dirigir um centro dramático em França. Mas tudo começou em Vila Nova de Milfontes.

Tudo, nas suas origens, empurrava Emma- nuel para o teatro: o pai, Richard Demarcy, é um conhecido encenador; a mãe, Teresa Mota, actriz; o tio, João Mota, encenador e alma mater da Comuna. E ele começou a aceitar esse destino precisamente em terras portuguesas. Foi em Vila Nova de Milfontes, onde viveu parte da juventude e se habituou a passar férias, que criou com amigos o seu primeiro grupo teatral, uma espécie de ensaio do que viria a ser a Compagnie de Théâtre des Millefontaines, alusão clara à praia dos seus Verões. Anos mais tarde, já nomeado director do Théâtre de la Ville, de Paris, disse ao DN: "A minha pátria é o Alentejo."

No ano passado, regressou a Portugal, onde vem, aliás, com frequência, mostrar os seus trabalhos. Vinha ao Festival de Almada apresentar a sua versão de Casimiro e Carolina, a peça escrita em 1931 pelo alemão Odon von Horvath, que a Cornucópia já tinha encenado anos atrás. Emmanuel Demarcy- -Mota, que já tinha encenado autores como Bertold Brecht ou Eu- gene Ionesco, justificou a escolha de von Horvath pelo "seu pessimismo melancólico, mas, sobretudo, pela lucidez com que ele olha o que acontece à sua volta e intui que está perante um mundo em transformação, onde nada será como dantes", como explicou a Joana Emídio Marques, no DN.

Este ano, o filho cede o lugar ao pai no Festival de Almada. Na próxima sexta-feira, os fiéis do mais importante certame de teatro em Portugal poderão assistir a Um Certo Sonho, uma Noite de Verão, texto e encenação de Richard Demarcy a partir do Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. É curioso que o filho, Emmanuel, já trouxera a Lisboa, ao Teatro Nacional D. Maria II, há quatro anos, a sua própria versão de uma peça de Sha- kespeare: Tanto Amor Desperdi- çado, que em França fora elogiada e premiada.

Já então, como desde o início da sua ligação aos palcos, Emmanuel procurava (de novo, era a quarta vez que vinha a Portugal como profissional) desenvolver aquilo em que mais acredita: a circulação e a partilha do teatro, dos actores, autores, línguas e culturas para um teatro da Europa, como afirmou a Gisela Pissarra, no DN. Vinha, aliás, acompanhado por jornalistas e críticos dos principais jornais franceses para lhes dar a conhecer algo do teatro e da dramaturgia portugueses. "Não conhecem sequer Gil Vicente", comentava.

Muitos anos passaram desde a primeira encenação, A História do Soldado, que, aliás, repetiu nos anos 90 na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. A companhia Millefontaines integrou-se no Théâtre de la Commune d'Aubervilliers, em Paris. Em 2002, foi convidado para dirigir o Centro Dramático de Reims, onde o seu programa de acção foi coroado de tanto êxito que colocou aquele teatro na rota dos grandes palcos de França.

Faltava o salto decisivo: regressar a Paris pela porta grande. Isso aconteceu em 2008, ao ser escolhido, entre 15 candidatos, para director do prestigiado Théâtre de la Ville e, depois, do Festival do Outono. O seu plano incluía a ideia de comunicação e partilha com outros teatros (franceses e estrangeiros), convites para residências artísticas, encontros em rede para pensar o futuro do teatro na comunidade. Como é que uma cidade como Paris pode ser transformada por um teatro? É o desafio ainda em aberto para este encenador de 41 anos que iniciou em Vila Nova de Milfontes um percurso de sonho e talento.

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