O homem das novelas que trocou o rio pelo castelo

Autor de êxitos da Globo como 'Tieta' e 'Pedra sobre Pedra', o novelista de 67 anos deixou para trás a insegurança e a confusão do Rio de Janeiro e abraçou a tranquilidade de Lisboa.

Procuro levar uma vida totalmente normal: vou ao supermercado, vou à padaria, vou ao talho. Pro-curo conviver com as pessoas." Da sua casa, vizinha do Castelo de São Jorge, em Lisboa, Aguinaldo Silva, 67 anos, vê o rio. Não o seu Rio de Janeiro, mas outro, que corre manso, o Tejo, inspiração para novas personagens. A pouco tempo da estreia de mais uma novela em horário nobre na poderosa máquina de produzir sonhos, a Globo, o novelista elabora a trama de Fina Estampa, que vai para o ar em Agosto e que conta com Lília Cabral, uma das suas musas, como protagonista. Dramaturgo, jornalista, guionista, cineasta, o homem dos sete ofícios que nasceu a 7 de Junho de 1944 em Carpina, no estado de Pernambuco, no seio de uma família pobre, é o responsável por êxitos inesquecíveis que emocionaram milhões deste e daquele lado do Atlântico: Tieta, Senhora do Destino e Pedra sobre Pedra, apenas para nomear algumas. Foi nesta última que Daniela Faria se estreou, em 1992. Tinha 14 anos. "Um dia, o meu pai apresentou-me e disse 'Aguinaldo, esta é minha filha, ela quer ser modelo'. Ele perguntou-me se eu queria ir fazer testes de imagem na Globo e eu disse 'claro!'. Foi pela mão de Aguinaldo que Daniela Faria entrou no mundo da ficção. Trabalhou em mais uma novela do autor, Fera Ferida, em 1994. Também a viver em Portugal, há quase uma década, Daniela Faria afirma que Aguinaldo Silva foi seu "padrinho" de profissão. "Foi ele que me levou para a Globo, foi ele que me levou para o teatro... Foi uma grande responsabilidade para mim estrear-me com um texto dele", afirma a actriz.

Desde o ano passado que Aguinaldo Silva é também consultor de ficção da SIC. Laços de Sangue, a novela que serviu de alavanca às audiências da estação, tem o dedo do novelista. Nuno Santos, à altura director de programas da SIC, reconhece que o novelista brasileiro deu a volta ao enredo, dando maior preponderância à má da fita, interpretada por Joana Santos. "Em Laços de Sangue há um grande mérito da equipa de guionistas liderada pelo Pedro Lopes, mas o papel do Aguinaldo foi decisivo. Ele "virou" a história original, reforçou a importância da vilã e foi decisivo na construção dos episódios", afirma o actual director de informação da RTP.

Apaixonado por Paris, onde regressa sempre que pode, Aguinaldo Silva é, segundo Nuno Santos, "amante dos prazeres da vida, embora seja uma pessoa muito frugal. É alguém de uma grande sensibilidade".

A par de Manoel Carlos, de 78 anos, Aguinaldo é o novelista mais velho da Globo. Em 2009, ano em que o seu contrato terminava, afirmou ao DN que "as novelas brasileiras perderam interesse". Pouco tempo depois, renovou a sua ligação com a casa-mãe.

Homossexual assumido, disse no ano passado que se queria casar e que candidatos não faltavam, para, menos de um mês depois, dizer que estava bem sozinho, Aguinaldo Silva sente-se livre, de há seis anos a esta parte, em Lisboa, a viajar no autocarro 67 em vez do automóvel blindado que o transportava no Rio de Janeiro. António Barreira, o autor da novela da TVI Meu Amor, galardoada com um Emmy, foi entrevistado por Aguinaldo Silva para o site oficial do novelista. "Ele é um apaixonado por Lisboa. Vi no Aguinaldo uma coisa que eu admiro bastante. Ele é uma pessoa muito segura e acredita naquilo que faz. Nesta profissão, temos de acreditar que a nossa história é a melhor do mundo", afirma António Barreira.

Ler mais