O deputado defensor dos heterossexuais

O economista, evangélico e apresentador  da rádio Melodia quer apenas gerar debate  no Brasil com a sua lei contra a discriminação.

O conceito de discriminação existe a pensar nas minorias. Mas o deputado brasileiro Eduardo Cunha, de 51 anos, quer aplicá-lo à maioria e apresentou um projecto de lei contra a discriminação dos heterossexuais. O economista sabe que não será aprovado, mas quer desencadear o debate sobre o tema.

"A condição heterossexual também pode ser objecto de discriminação, a ponto de que se venha tornando comum a noção de heterofobia", diz o Projecto de Lei n.º 7382 de 2010, uma resposta à Lei da Homofobia. Este prevê penas de prisão de um a três anos no caso de alguém proibir a entrada e permanência de heterossexuais em qualquer estabelecimento público ou privado, cobrar taxas especiais em hotéis ou restringir a expressão de afectividade em locais públicos.

Mas não se pense que o deputado está só atrás de publicidade com a sua proposta fora do comum. É que Eduardo Cunha não é um nome estranho em Brasília, apesar de só ter chegado à cidade há sete anos. Antes, formado em Economia na Universidade Cândido Mendes, do seu Rio de Janeiro natal, trabalhou na Arthur Anderson e na Xerox Brasil e assumiu a presidência da Telerj (a empresa estadual de telecomunicações) - no seu currículo diz que levou os telemóveis para o Brasil.

A sua entrada na política deu-se pelas mãos de Paulo César Farias (o tesoureiro que foi figura central no escândalo de corrupção que levaria ao afastamento do presidente Fernando Collor de Mello). Mais tarde aliou-se à família de Anthony e Rosinha Garotinho, ex-governadores do Rio. Cunha é evangélico, como eles, estando ligado à Igreja Sara Nossa Terra e à rádio Melodia. Inicialmente filiado no Partido Progressista, seria eleito deputado federal em 2003 (e reeleito em 2007) já pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) - apoiante do Presidente Lula da Silva.

O economista é casado com a jornalista Cláudia Cruz, estrela de televisão nos anos 1990, e tem quatro filhos. Há dez anos, coube à apresentadora anunciar na estação do Rio de Janeiro, em directo, a demissão do marido da Companhia Esta-dual de Habitação, acusado de corrupção. As autoridades detectaram incompatibilidade entre a sua movimentação financeira e o montante declarado aos impostos.

Mas essa não foi a única vez que o nome do deputado surgiu relacionado com negócios escuros. Se-gundo o jornal O Globo (Fevereiro de 2009), Cunha foi investigado em 2003 por alegadamente exigir pagamentos a empresários do sector do petróleo para verem o seu nome retirado da lista da Comissão de Fiscalização e Controlo da Câmara. Já em Setembro de 2008, o Estado de S. Paulo denunciou um caso de "nepotismo cruzado": Cunha estaria a empregar a filha de outro deputado que, por sua vez, contratou a sua irmã como assessora.

Mas um currículo manchado (Cunha sempre negou as acusações) não impediu que subisse na escada do poder em Brasília. De acordo com O Globo, é chamado de "alpinista do Congresso". Isto porque, estando apenas no seu segundo mandato, já é um nome incontornável. Em 2007, foi o relator da Co-missão Parlamentar de Inquérito que investigou o "apagão aéreo" (o caos nos céus brasileiros). Mais recentemente, teve um papel essencial na recondução de Michel Temer na liderança do PMDB e chegou a ser presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.

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