O criador da República sensual e sem rancores

Preferia a aprendizagem nos 'ateliers' dos mestres às aulas nas Belas Artes do Porto, onde terminou o curso em 2008. Aos 29 anos, é autor de obra no espaço público da cidade.

O mais recente monumento no espaço público, na cidade do Porto, traz a assinatura de um escultor muito jovem, que encontra em Deus "a única fonte de inspiração". É uma República rejuvenescida, sensual, "liberta de ódios". Na mão direita, exibe um ramo de oliveira como dádiva genuína a quem, um século depois, a observa.

Aos 29 anos, Bruno Marques apresenta obra considerável. Concluiu o curso nas Belas Artes do Porto em 2008, aprendeu a técnica nos ateliers de diferentes artistas, vive há cinco anos exclusivamente das esculturas que produz. Um profissional a tempo inteiro, diz, com mais trabalhos no curriculum "do que muitos escultores" no auge das suas carreiras.

O centenário da República não podia passar ao lado do artista, natural de Santa Maria da Feira. Idealiza uma maqueta, depois parte à procura da generosidade criativa de um mecenas. Bate na porta certa, a da Fundação Eng. António de Almeida, que, por feliz coincidência, tinha nos seus planos doar à cidade uma estátua figurativa da República. Através desse gesto, a Fundação evoca a memória dos revoltosos do 31 de Janeiro de 1891- que abriam caminho à queda do regime monárquico.

À maqueta inicial faz ajustamentos a pedido do presidente da instituição. Fernando Aguiar-Branco deseja uma estátua a simbolizar os ideais da República, "parte deles, cem anos depois, ainda por cumprir", lembra o escultor. Por isso, a obra final evidencia "jovialidade, vigor" e a serenidade de uma mensagem de paz. Em menos de cinco meses, Bruno Marques elabora nova maqueta e finda o trabalho.

No simbólico 31 de Janeiro, a "mulher liberta de ódios e rancores" mostrava-se pela primeira vez no jardim da Praça da República, na cidade do Porto. Por aí permanece a questionar quem pára e observa uma jovem que acaba de comemorar um século. Para modelo da sua República, o escultor teve como musa inspiradora uma estudante de Belas Artes, de 21 anos. "Escolhi-a pela sua postura jovem", e pela rebeldia - "não é pessoa de se calar-, além da sensualidade e da alegria que tem".

Católico praticante, "todos os domingos" vai a missa no mosteiro de Grijó. Bruno é em Deus, no entanto, que encontra a "verdadeira fonte inspiração". Autor de vários trabalhos de arte sacra e inúmeros bustos de homenagem, colaborou em mais de 30 obras de grande dimensão ao lado de vários escultores nacionais. Em tempo, nos seus sonhos havia uma estátua equestre; agora a obra que lhe daria "mais prazer" talvez fosse um "Cristo grande", ressuscitado ou pregado na cruz.

"Sou um eterno insatisfeito", refere. A insatisfação aqui significa desejo de evoluir na arte. Bruno Marques, que prepara a tese de mestrado em Escultura, foi um aluno "controverso". Mostrava-se "mais interessado no trabalho cá fora" do que frequentar as aulas na Faculdade de Belas Artes do Porto. "Procurei que a aprendizagem da técnica fosse junto de diferentes autores".

A título gratuito, passou pelos ateliers de Laureano Ribatua, Gustavo Bastos, Jaime Santos, António Nobre, José Rodrigues, entre outros. Todavia, neste aprender pela experiência feita, quem havia de influenciar mais o estudante de Belas Artes seria uma mulher: Irene Vilar. No atelier da escultora, Bruno Marques colaborava com o técnico de ampliações de maquetas. "Irene Vilar impunha uma certa distância", lembra, mas acabaram por ficar amigos.

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