O católico que vela por milhões de refugiados

Abandonou o Governo para evitar o "pântano" político. Kofi Annan escolheu-o, depois, para alto comissário. Um homem de consensos, agora luta contra a intolerância e xenofobia.

Quatro anos após se demitir de primeiro-ministro, para evitar que o País caísse "num pântano político", António Guterres é eleito para um importante cargo a nível mundial. O socialista, republicano, mas não laico, foi o escolhido de Kofi Annan para alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) - organismo com a missão de apoiar e proteger os refugiados de tudo o mundo.

A Assembleia Geral da ONU, cinco anos depois, reconhecia o trabalho do dirigente português e renovava--lhe o mandato. A decisão deixou Guterres emocionado: é "um privilégio e uma honra continuar dedicando a minha vida para apoiar um dos grupos mais vulneráveis do mundo", disse. Nos primeiros cinco anos, o número de pessoas sob os cuidados do ACNUR atingiu os 35 milhões".

Não é tarefa fácil. Quando viu renovado o seu mandato de alto comissário, o antigo primeiro-ministro de Portugal alertou para os "crescentes riscos ao espaço humanitário e de refúgio", numa altura de "crescimento da intolerância e da xenofobia". Mas isso não demove o homem conhecido pela suas "capacidades de comunicação e de criação de consensos".

Na juventude, antes da Revolução de Abril, António Guterres fez parte do "grupo da Luz". Como companheiros, entre outros jovens católicos, tem Marcelo Rebelo de Sousa, Helena Roseta, Miguel Beleza. E um (também jovem) franciscano, Vítor Melícias, como líder espiritual.

O futuro secretário-geral do Partido Socialista, ao invés de muitos camaradas seus, fica à margem da oposição estudantil ao regime de Oliveira Salazar. Opta pelo caminho da acção social - que agora se reflecte na ACNUR - através da Juventude Universitária Católica. No ano de 1973, adere ao PS. E o homem que dizem ser próximo do Opus Dei torna-se amigo de António Reis (hoje grão-mestre da Maçonaria), um dos fundadores do partido. A amizade com o historiador permite ao jovem católico chegar à comissão política.

Guterres foi sempre aluno brilhante. Em 1963, pela dedicação ao estudo, obtém o Prémio Nacional dos Liceus; termina a licenciatura em Engenharia Electrotécnica com distinção. Mas é a política, enfim, que acabaria por o cativar. Em 1976, com apenas 26 anos, chega a deputado. Dois anos mais tarde, integra o Secretariado do PS. A partir daí, surgem as divergências com Mário Soares. Junta-se a Salgado Zenha, Jorge Sampaio e Vítor Constâncio, quando Soares retira o apoio a Ramalho Eanes, em 1980.

O sótão da sua casa, em Algés, abre-se a reuniões conspirativas do chamado grupo do ex-Secretariado. Aos que o acusavam de "traição", os apoiantes do engenheiro Guterres contrapunham: Ele é "apenas melhor que os outros".

Com Mário Soares em Belém, regressa ao Secretariado. Apoia Vítor Constâncio à liderança, que derrota os soaristas Jaime Gama e Almeida Santos. No congresso em que foi eleito secretário-geral, contudo, António Guterres tinha a seu lado muitos dos antigos adversários soaristas. Nas legislativas de 1995, põe um ponto final em dez anos de cavaquismo absoluto.

Uma das marcas dos seus governos é a abertura e o "diálogo" entre as várias forças políticas. Um Executivo, ainda, de "paixões", com a Educação a aparecer no topo da lista. Cumpre legislatura até ao fim. O Partido Socialista surge como o mais votado em 1999, sem maioria absoluta. Nesse mesmo ano, Guterres assume a presidência da Internacional Socialista e vive o drama da doença da mulher.

A política de "diálogo" não se repete na segunda governação - Portugal passa por grandes crispações políticas. Em Dezembro de 2001, demite-se do cargo de primeiro-ministro para, segunda as suas próprias palavras, "evitar que Portugal caísse num pântano político". A decisão, inesperada, surge na noite eleitoral das autárquicas - em que os socialistas sofrem uma pesada derrota.

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