"O casaco é a peça mais difícil"

Com a colecção de cortiça  alimenta a secreta esperança de conseguir um segundo e novo momento marcante na moda mundial.

Chegou ontem a Las Vegas, onde vai participar na Magic, a maior feira de vestuário do mundo, com dois objectivos bem concretos: apresentar uma colecção confeccionada com um tecido feito à base de cortiça e conquistar aos italianos da Brioni uma fatia do mercado de fatos de alta gama.

Tony Miranda, 62 anos (dos quais, 25 passados nas melhores casas de alta costura de Paris), tem de dar corda aos sapatos porque os seus melhores clientes, como o histórico Presidente do Gabão, estão a partir para um mundo em que já não mais precisam dos seus fatos. A morte de Omar Bongo foi um rombo, já que durante 33 anos, ele e a sua família vestiam em exclusivo modelos saídos da cabeça e mãos de Tony. "Sempre que tinham uma visita de Estado, comunicavam-me a agenda, situações e clima previsto. Eu fornecia todo o guarda-roupa, feito por medida, pois tinha manequins com as medidas de todos os membros da família", conta o ex-director artístico da Ted Lapidus, que era visita de casa de Bongo (tratavam-se por tu), que uma vez lhe deu como prenda de anos um relógio Piaget todo cravado a diamantes, com a cara dele no mostruário.

Com a colecção de cortiça (que, garante, tem o mesmo cair que o tecido normal), alimenta a secreta esperança de conseguir um segundo e novo momento marcante na moda mundial, depois de, nos seus anos de glória em Paris, ter sido o primeiro a pôr as mulheres a vestirem smoking. A outra aposta é um sinal dos tempos. Como hoje em dia já não é possível viver só da alta costura, vai mostrar em Las Vegas a sua linha executiva ("semimanual", precisa) de fatos para homem, com que pretende ganhar um lugar ao sol num segmento de mercado (o dos fatos na casa dos três a cinco mil euros) onde pontifica a Brioni. "Os meus fatos são superiores aos deles e têm um corte mais jovem", jura.

Vestido de preto (camisa semi-transparente e jeans) e com roupa assinada por ele, Tony recebeu-nos no edifício do magnífico centro histórico de Guimarães, onde tem o atelier e uma das suas duas lojas - a outra é na Avenida da Liberdade, em Lisboa, num prédio que é sua propriedade e está a ser cobiçado pela Gucci.

"Quer saber o que é alta costura? É isto", disse, logo no início da visita ao atelier, enquanto um casaco que ele tinha amarrotado retomava miraculosamente a sua impecável forma primitiva. Aquele casaco representava 70 horas de trabalho. Só a casa da lapela levou 320 pontos! "Só há quatro pessoas no mundo capazes de fazer um fato assim, porque tiveram o mesmo mestre: Joseph Camps", reivindica Tony, que partilhou a mesa de corte com Emanuel Ungaro no atelier parisiense do famoso alfaiate catalão.

"Quando me encontrava, o Valentino fazia sempre questão de dizer a quem estava presente: a fa-zer fatos e tailleurs, não há quem bata este tipo", conta Tony, que não tem dúvidas em afirmar que o casaco de homem é a peça mais difícil de fazer - tem muito mais arte e sabedoria do que os vestidos de mulher.

Com o termómetro acima dos 30 graus, decidiu almoçarmos na Penha, onde estava mais fresquinho. Mandámos vir um bacalhau à Dan José, duas postas enormes e saborosas, assadas no forno, com molho de cebolada e puré, regado por um verde da casa que ajudou a puxar pelas histórias da atribulada vida de Tony, nascido na freguesia de Torrados, Felgueiras, filho de um sapateiro e de uma costureira, mas que, apesar da insistência do pai (que incluiu porrada), puxou para arte da mãe.

O instante que lhe mudou a vi-da deu-se no salão paroquial de Torrados, quando viu pela primeira vez televisão. Tinha 13 anos e fi-cou fascinado com as imagens de um desfile Christian Dior. Chegou a casa e confessou à família: "Vou para Paris, fazer roupa." "Tem juízo! Se a França fosse ali no quintal, eu já lá estava há muito tempo", respondeu-lhe o pai, que subavaliou a força e vontade do mais novo dos seus cinco filhos. Às escondidas, Tony arranjou 12 contos emprestados - pelo alfaia-te em que trabalhava ("Queria que eu me fosse embora, para não lhe roubar a clientela") e por uma irmã que era cozinheira em casa de um industrial - e partiu a salto para Paris.

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