O advogado de famosos que perdeu as graças

Defendeu Otelo no caso das FP-25 e um italiano que pretendia ser rei de Portugal, depois caiu na penumbra: "Por violações graves" fica agora privado de advogar durante sete anos.

Nos agitados dias de 1975, negociava com o Copcon (Comando Operacional do Continente), estrutura dirigida por Otelo Saraiva de Carvalho, a libertação de militantes do MRPP presos em Caxias e Pinheiro da Cruz. O jovem advogado, que havia concluído a licenciatura no ano da revolução, integrava as fileiras do partido liderado por Arnaldo Matos. Poucos anos depois, Otelo voltaria a cruzar-se no caminho: Romeu Francês surgia agora como seu defensor no caso das FP-25 de Abril.

Ao representar Otelo, homem de Abril caído em desgraça, Romeu Francês torna-se num dos advogados mais conhecidos da chamada "criminologia política". A partir daí, o seu nome aparece em todo lado, sempre em casos com as televisões e outros meios de comunicação por perto. Eram os tempos áureos do jurista nascido na vila de Tortosendo, Covilhã, há 60 anos.

Da "criminologia política" a remotas questões de linhagem, um pouco de tudo havia de passar pelo escritório deste homem. "Os advogados não escolhem causas, são escolhidos", diz. No final da década de oitenta, foi ele o escolhido para resolver intrincada questão nobiliárquica. Representa Rosario Poidimani, empresário italiano que se apresentava como pretendente ao trono de Portugal. O caso parece saído de romance. D. Maria Pia tinha transaccionado, num notário em Roma, os seus direitos à coroa a favor de Rosario.

"Para defender Otelo não tenho de ser otelista, para defender D. Rosaria não tenho de ser monárquico", lembrou o advogado. Por essa altura, finais da década de oitenta, Romeu Francês (candidato do MRPP em 1976 pelo círculo de Castelo Branco) rompe com a esquerda maoísta e toma-se de amores pelos PS.

A ruptura com um passado de extrema-esquerda tem esta justificação. "O meu rompimento com o maoísmo e as formas históricas do marxismo-leninismo assumidas por sociedades concretas radicou no facto de se ter caído sempre em ditaduras sanguinárias e desumanas. O caso do Camboja foi para mim paradigmático."

Como um dos primeiros clientes que lhe trouxeram a fama, Romeu Francês, a dado passo, imerge na penumbra. A consistente e elogiada carreira de jurista entra em crise, definha. O defensor arguto e bem preparado permuta de estatuto - passa a arguido. Esta semana, o Conselho de Deontologia da Ordem dos Advogados suspendeu-o do exercício de funções, durante sete anos, "por violações graves dos deveres profissionais".

O advogado, que, entre outros processos, representou Esmeraldo Azevedo, no caso da Universidade Moderna, ou o padre Frederico da Madeira, já se encontrava a cumprir uma decisão anterior de suspensão da actividade.

Segundo o Conselho de Deontologia dos Advogados, Romeu Francês terá violado diversas normas sobre a relação entre advogado e cliente: no que respeita aos honorários (cobraria dinheiro por diligências que não realizava) e ao tratamento com zelo dos assuntos que lhe são confiados.

Em Maio passado, foi detido e constituído arguido por suspeitas de crimes de burla simples e qualificada, relacionadas com participações de clientes. Ficou sujeito a apresentações periódicas na esquadra da residência. Desde sempre considera "inquietante" a prisão preventiva. Em geral, argumenta o antigo presidente do Fórum Prisões, "prende-se primeiro para investigar depois".

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