O adeus do político das águas profundas

Por duas vezes tentou a liderança do PS e por duas vezes saiu dos congressos com pesadas derrotas. Mas isso não lhe retirou influência e peso político no interior do partido. Ministro no Governo de Mário Soares, voltaria aos Executivos de António Guterres. O homem que chamou "Bokassa" a Jardim despede-se.

A vida política, um dia, "tem que ter também um fim". Jaime Gama, histórico socialista, derrotado duas vezes na disputa pela liderança do partido, despede-se da presidência da Assembleia da República. O "peixe de águas profundas", segundo a imagem de Mário Soares, deixa a política activa. José Sócrates não poderá contar com ele, como candidato, nas legislativas antecipadas de Junho.

Antes de se tornar um político a tempo inteiro, a biografia do açoriano Jaime Gama está marcada pelo oposicionismo à ditadura portuguesa. Aos 18 anos, é detido para averiguações pela política política. Encontra a PIDE, quatro anos depois, em 1965, após deslocação a Roma para participar num encontro da Internacional Socialista. O candidato a deputado pela CEUD é detido e, de seguida, posto em residência fixa.

No período anterior à Revolução de Abril, com Mário Soares no exílio, o jovem açoriano, licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa, ocupa o lugar de secretário-geral adjunto no interior da Acção Socialista Portuguesa. Depois, em 1973, está no grupo dos fundadores do Partido Socialista. O percurso político de Jaime Gama cruza-se, não raras vezes, com o de Mário Soares. Um dia, os amigos hão-de voltar as costas - e apagar trinta anos de cumplicidades várias.

Fora da política, a biografia de Jaime José Matos Gama, natural da freguesia da Fajã de Baixo, ilha de São Miguel, gasta poucas palavras. Dá aulas no ensino secundário particular, passa pela redacção do jornal República. Veste a farda militar. No 25 de Abril de 1974 é oficial miliciano, na Figueira da Foz. Daí será requisitado para dirigir a informação e os noticiários da Emissora nacional. Realiza-se o congresso do PS, finais de 1974, e o amigo próximo de Soares chega à Comissão Nacional do partido. Eleito deputado dois anos mais tarde.

Há quem o ache um cultor da ironia. Por vezes, truculento. Quase sempre impiedoso com os adversários políticos. Certa vez, o deputado Jaime Gama, durante acesa troca de palavras com um parlamentar do social-democrata, compara o presidente regional da Madeira a um ditador da África Central. Ou seja, sem contemplações, de forma pausada para que nenhuma palavra leve descaminho, chama a Alberto João Jardim "o Bokassa da Madeira".

Onze anos após este polémico episódio, vai à Madeira presidir ao Congresso Nacional das Freguesias. Jaime Gama, presidente da Assembleia da República, tenta apagar a metáfora contundente. O "Bokassa" e a sua região, afinal, são um exemplo de democracia e autonomia para o País. "Conquista extraordinária", "obra ímpar", vê ele na ilha de Jardim.

À entrada da Assembleia Legislativa, o líder da PND-M esperava o presidente da Assembleia da República com uma tarja que dizia o seguinte: "Leve o Bokassa branco consigo". As "manobras de "branqueamento" espantaram Baltasar Aguiar: Gama "vinha com um discurso bem treinado, bem engatilhado para legitimar um regime inaceitável, que é o que existe na Madeira".

As críticas à súbita mudança de opinião do político "de águas profundas" passaram ao lado ou quedaram à superfície. Esta flexibilidade aconteceria noutras situações. Numa entrevista, em 1993, Gama ridiculariza o governo-sombra do engenheiro António Guterres (o "tipo dos bigodes", que guerreou juntamente com Soares). Jamais faria parte de uma equipa governativa de um primeiro-ministro, que seria só "frenesim, frenesim". Dois anos volvidos, o co-fundador do PS retoma o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, no Governo da Nova Maioria, chefiado precisamente com antigo adversário interno, no tempo do grupo do "ex-secretariado".

Com António Guterres há uma aproximação. Mas a história muda de figura com o velho amigo Mário Soares. A política externa do Governo turva, subitamente, uma amizade de décadas. Em 2000, um deputado angolano acusa Soares de beneficiar do marfim e dos diamantes da UNITA. Jaime Gama, ministro dos Negócios Estrangeiros, não comenta as acusações: "Não comento faits divers!", diz aos jornalistas.

O deputado no Parlamento Europeu (PE) e ex-presidente da República não perdoa. "Lamento muito que o ministro Jaime Gama considere um faits divers a honra dos seus amigos." Está aberta a guerra. Mário Soares emerge com uma das vozes mais críticas da presidência portuguesa da União Europeia. Durante seis meses, lamenta o chefe da nossa diplomacia, "haveria, certamente, a oportunidade para um deputado português ao PE encontrar formas de se afirmar positivamente, valorizando, dessa maneira, o próprio País". Soares, diz ainda Jaime Gama, revela "uma certa dose de desconhecimento da agenda Europeia".

No ataque aos adversários de outro partido, o antigo ministro socialista é ainda mais duro. Por exemplo: de Marcelo Rebelo de Sousa, líder do PSD, dizia que a sua sedução pela política denota "uma matriz predominantemente destrutiva. É o capricho da imprensa pela destruição dos governos".

Por duas vezes tentou a liderança do Partido Socialista, por duas vezes perdeu, de forma expressiva, para Vítor Constâncio e para Jorge Sampaio. Em 2000, mostrava-se favorável à privatização da RTP1. E não o choca a história dos touros de morte, em Barrancos ou noutra parte. Nasceu num ambiente muito ligado à lavoura: e aí "a relação com os animais não é bem a que é hoje distribuída pelo sistema escolar aos jovens".

O "peixe de águas profundas" despede-se. Na política, lembrou certa vez numa entrevista, existe "uma componente que nem sempre é aquela que vem na boca dos seus autores. É preciso ver as motivações e não só as palavras".

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