O adeus de uma voz maior

Com a morte da britânica Amy Winehouse, há precisamente uma semana, voltou também à ribalta o "Clube de 27", nome que se dá a um conjunto célebre de músicos que morreram aos 27 anos de idade. A cantora juntou-se assim a uma lista que integra nomes como Jim Morrison (mítico líder dos The Doors), Brian Jones (um dos fundadores dos Rolling Stones), Janis Joplin, Jimi Hendrix e Kurt Cobain (a voz dos Nirvana). Muitos destes músicos viviam então o auge das suas carreiras e com o seu desaparecimento acabaram por se transformar em verdadeiras lendas da história da música popular. Ainda assim, é cedo para afirmar se também Amy Winehouse vai tornar-se um mito tal como os restantes membros do "Clube de 27", mas é para já uma referência marcante no panorama pop actual.

A morte de Amy Winehouse fez voltar à boca de cena todos os problemas que enfrentou com álcool e drogas, tendo passado os últimos anos num vai-e-vem entre clínicas de reabilitação e sob o olhar atento dos tablóides e do público. A fama trouxe-lhe uma exposição pessoal com a qual nunca soube lidar. A fronteira que separa a vida privada do percurso artístico nunca foi nítida e as recentes notícias relativas à sua morte são disso mais um exemplo. Ainda assim, durante a sua curta carreira, Amy Wine- house marcou este início de século, revitalizando a música soul com uma voz que não deixou ninguém indiferente.

Actualmente olhamos para os tops de vendas no Reino Unido e lá encontramos não só Amy Wine- house, mas também uma outra cantora britânica, seguidora dos seus passos: Adele, um dos fenómenos musicais de 2011. A cantora Duffy foi outra que tem feito sucesso dentro e fora do seu país. Se estes dois nomes recuperam as heranças clássicas da soul dos anos 60, também precisaram que uma voz maior lhes abrisse as portas e percorresse primeiro o caminho que estas mais tarde iriam trilhar. Sem Amy dificilmente essas duas cantoras teriam tido o sucesso de que hoje se orgulham.

No entanto nos últimos anos a cantora tem marcado presença nas páginas da imprensa não pela sua música, mas pelas atitudes descontroladas em palco, entradas em clínicas de reabilitação ou desavenças com namorados. Mas nada disto seria motivo de interesse se não existisse uma voz que arrebatou milhares em todo o mundo e que, de alguma forma, se reviram na complexa figura artística que foi Amy Winehouse.

Cresceu no seio de uma família judia a cantar clássicos de Frank Sinatra, Sarah Vaughn ou de girl bands dos anos 60 como as Ronettes. Já as suas interpretações aproximaram-se do dramatismo emocional de uma Billie Holiday ou Nina Simone. E mesmo que nunca tenha sabido lidar com a exposição pessoal que a fama lhe deu, desde cedo parecia talhada para ter um percurso em cima dos palcos. Aos nove anos entra na escola de teatro Susi Earnshaw Theatre School, pouco depois ingressa na Sylvia Young Theatre School e, e mais tarde na célebre BRIT School.

Depois de o namorado da altura apresentar uma gravação de Amy a um representante da indústria discográfica, a cantora consegue o seu primeiro contrato. No final de 2003, tinha então 20 anos, estreia-se em álbum, com Frank, um trabalho influenciado pelo jazz mais comedido e que dificilmente faria prever o sucesso que viria a conhecer mais tarde e que transformou a sua vida.

Tudo mudou em 2005 quando conheceu Blake Fielder-Civil. A relação foi intensamente conturbada. Em 2008 o próprio Fielder-Civil confessou que foi através dele que Amy experimentou drogas pesadas.

O álbum que se seguiu a Frank, intitulado Back to Black (2006), surgiu assim como uma forma de catarse desta complicada relação, mas também das dependências que vivia. Um dos singles mais reconhecidos desse disco, Rehab (em português 'Reabilitação') é o espelho perfeito dos problemas com álcool que então a cantora já tinha. Os primeiros versos não deixam margem para dúvidas: "They tried to make me go to rehab but I said no no no" ("Tentaram mandar-me para a reabilitação, mas eu disse não não não").

As produções de Mark Ronson impulsionaram as canções de Amy Winehouse como não tinha acontecido em Frank. A recuperação dos ambientes clássicos da soul e da pop dos anos 60, sem cair na tentação da nostalgia, conquistaram milhares de fãs. No Reino Unido arrebatou os Brit Awards, nos EUA cinco Grammys. De um momento para o outro o mundo ficou aos seus pés.

Mas como nestes casos o desfecho nem sempre é o melhor, com o sucesso os problemas aumentam. Voltam os concertos a ser cancelados e as idas a clínicas de reabilitações, a relação com Blake Fielder-Civil permanece num vaivém emocional. Mas à sua volta os fãs continuam a prestar-lhe devoção.

Em 2008 chegou a passar pelo Rock in Rio-Lisboa e desde logo pudemos ver uma figura vulnerável, com claras dificuldades em manter a postura em palco. O caminho que percorreu desde então foi o da autodestruição e a exploração intensa da sua imagem pela imprensa não ajudou. A recuperação chegou a ser uma hipótese quando em Junho deste ano foi marcada uma digressão pela Europa (que incluía o Festival Sudoeste). Todavia, logo ao primeiro concerto foi vaiada pelo público, dada a sua luta para manter o equilíbrio e conseguir cantar. Acabou por cancelar toda a digressão.

A 20 de Julho apareceu pela última vez em palco, ao lado da afilhada Dionne Bromfield, mas três dias depois foi encontrada morta no seu apartamento. Apesar da suspeita de uma overdose, ainda estão por confirmar as razões da morte. Sem destino ficam ainda as gravações da cantora desde Back to Black e que ainda não viram a luz do dia. Se haverá ou não um álbum póstumo, ninguém o sabe, mas ainda assim a curta carreira de Amy Winehouse transformou-a numa das figuras mais enigmáticas da música popular dos anos zero. A morte precoce colocou-a agora no panteão dos mitos já desaparecidos.

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