Militar de elite chega a general na reforma

Jaime Neves acaba de ver a sua carreira militar premiada com a promoção a major-general. A distinção, sugerida por figuras como Ramalho Eanes e Rocha Vieira com base no seu papel durante o 25 de Novembro, é a terceira que o coronel comando recebe.

As operações militares dos Comandos a 25 de Novembro de 1975 decorreram sem grandes problemas. É na manhã do dia seguinte, no ataque liderado por Jaime Neves contra um quartel na Calçada da Ajuda, que esse líder militar perde dois homens antes da rendição das chefias da Polícia Militar, onde também morre um aspirante.

Jaime Alberto Gonçalves das Neves, 73 anos, é tenente-coronel graduado em coronel no Verão de 1975 e chefia o Regimento de Comandos. Com a vitória do chamado Grupo dos Nove, onde pontificam oficiais do seu curso de entrada no Exército, é promovido a coronel por escolha - sendo o único dos militares envolvidos a conseguir esse feito e que é a primeira de três distinções por uma carreira que termina em 1981.

Já com década e meia fora das fileiras - que deixa por, entre outras razões, discordar da escolha do general Garcia dos Santos para chefe do Estado-Maior do Exército  -, Jaime Neves é agraciado em 1995 pelo Chefe de Estado, Mário Soares, com a mais elevada condecoração portuguesa e a que mais honra qualquer militar: a Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.

Agora, acaba de ser promovido a major-general - duas estrelas, correspondentes ao antigo brigadeiro - sob proposta do Exército, faltando apenas a promulgação do Presidente da República.

Mas esta terceira distinção da coragem e bravura do combatente Jaime Neves está a reabrir uma polémica entre militares com raízes ainda no chamado Período Revolucionário em Curso (PREC) de há 35 anos e que, no plano político, se reflecte nas posições do CDS-PP, à direita, e do PCP, à esquerda.

Os populares saúdam a promoção, "tendo em conta o papel muito relevante que Jaime Neves teve para evitar que Portugal caísse numa ditadura comunista" , além de "garantir que Portugal seguia no sentido do pluralismo, da democracia e da liberdade de expressão".

Os comunistas qualificam a promoção como "uma medida imprevidente e injustificada",  que "abre um precedente face a outros oficiais superiores com uma folha de serviço semelhante e coloca sérias interrogações sobre as motivações adiantadas".  Além disso, "não pode deixar de ser considerada uma afronta ao projecto libertador de Abril", pois distingue "um símbolo de concepções e práticas profundamente retrógradas e anti-democráticas".

No universo militar, reconhecem-se e elogiam-se as qualidades guerreiras provadas por Jaime Neves ao longo da carreira. Mas quem critica a promoção, a começar por uma figura central de Abril e no 25 de Novembro como Vasco Lourenço, centra-se em dois aspectos: o pessoal, por o coronel ir frequentemente com os seus homens para as discotecas,  e a aparente falta de sintonia entre a justificação - premiar o militar  - e o momento: 28 anos depois de Jaime Neves passar à reserva e 14 após a entrega da Torre e Espada.

Jaime Neves tem uma certeza: "Os verdadeiros militares, que lutaram e mostraram ter uma carreira como deve ser, estão do meu lado. Todos, sem excepção", frisa, sem querer comentar quem contesta a sua promoção. "Não quero mais guerras", observa o militar, detentor de uma Cruz de Guerra e que reconhece aos críticos "o direito de dizer o que quiserem". Contudo, confessa, "fico magoado quando quando vejo militares a tentar enxovalhar-me".

O Exército continua a não se pronunciar sobre as razões da sua proposta, enquanto não houver uma decisão definitiva do Chefe de Estado.

Oficial de Infantaria, transmontano, Jaime Neves entra em 1953 para o Exército, com figuras como Ramalho Eanes, Loureiro dos Santos, Gabriel Espírito Santo, Chito Rodrigues, Garcia dos Santos, Galvão de Melo ou Melo Antunes.

Enviado para Moçambique, Jaime Neves só ali fica alguns meses porque é transferido por dois anos para a Índia (1958-1960). Regressa a África em plena guerra colonial, para cumprir quatro comissões: duas em Angola e duas em Moçambique, onde está aquando do massacre de Wiriamu (por tropas comandos). "Sobre isso não falo", declara e repete Jaime Neves, que não está envolvido nessa chacina.

Regressado a Portugal no final de 1973, Jaime Neves participa no 25 de Abril. Mas as memórias dos intervenientes divergem sobre a participação do oficial comando nos acontecimentos desse dia.

Jaime Neves assegura que só não cumpriu a missão de deter oficiais dados como perigosos (de Cavalaria 7, na Ajuda), pois "estavam em casa com as famílias, os filhos". "Foi a única missão", enfatiza. Outras, como a da ocupação da Legião Portuguesa (na Penha de França, onde agora está o Comando-Geral da PSP),  foram "todas cumpridas".

Vasco Lourenço cita "o que o Otelo [lhe] contou" para dar versão diferente: Jaime Neves recusou a primeira missão de "ir à António Maria Cardoso tomar a [sede da] PIDE, porque julgava-a demasiado perigosa". Mas "aceitou organizar grupos de Comandos para prender oficiais potencialmente perigodos", especificamente os de Cavalaria 7 (na Calçada da Ajuda". Depois incumbido de ajudar o oficial indicado para prender o ministro do Exército, no Terreiro do Paço, parte daí com tropas de Salgueiro Maia para a Penha de França.

Encarregue de receber Álvaro Cunhal no aeroporto, no dia 30, Jaime Neves vive as semanas seguintes na Academia Militar com 400 homens, intervindo "todas as noites e dias como bombeiros" até 4 de Julho, quando se cria o Regimento de Comandos sob a sua chefia.

Destituído a 1 de Agosto, recupera o cargo quatro dias depois, por pressão da grande maioria dos seus homens num plenário de horas. Entre as acções de força desse tempo, fez "frente às manifestações" de rua.

Após o 25 de Novembro, mete os seus homens em Chaimites e outras viaturas para irem ao teatro ver uma peça que o elogiava.

Já na reserva, o amigo Jorge de Brito nomeia-o "director dos patrimónios" nos anos 1980. Década e meia depois, funda uma empresa de segurança com outros ex-comandos, de que sai há ano e meio.

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