Filmar Angola entre o documento e a ficção

O Estoril Film Festival passa os trabalhos de TV e cinema de Ruy Duarte de Carvalho, numa homenagem ao autor e antropólogo

Ainda vêm assinados 'Rui Duarte' os filmes que, nos anos 70, o escritor, poeta, cineasta, antropólogo e artista plástico Ruy Duarte de Carvalho realizou para a Televisão Popular e para o Instituto de Cinema de Angola. Nalguns deles encontramos as marcas dos tempos agitados e militantes pós-independência da antiga colónia portuguesa, em que até um feiticeiro tribal era tratado por "camarada", e se falava na necessidade de se enquadrar "cientificamente" o conhecimento tradicional dos anciãos das tribos do interior do país, para que estes ficassem mais familiarizados com os valores do "materialismo".

Ruy Duarte de Carvalho, que morreu aos 69 anos, no passado mês de Agosto, na sua casa de Swakopmund, na Namíbia, foi júri do Estoril Film Festival em 2007. Este ano, o festival homenageia-o, exibindo na secção Sessões Especiais alguns dos seus trabalhos para televisão e os dois filmes de fundo que realizou.

No próximo dia 11, quando se assinalam os 35 anos da independência de Angola, o Museu Paula Rego recebe Moia: o Recado das Ilhas e Nelisita: Narrativas Nyaneka (15.30), os programas da série televisiva Presente Angolano, Tempo Mumuíla (17.30 e 22.00), e o documentário televisivo Uma Festa para Viver (22.00), este concebido como uma contagem decrescente para o dia da declaração de independência de Angola. Às 20.30, haverá uma sessão de leituras de obras de Ruy Duarte de Carvalho pelo actor Diogo Dória, e de debates com convidados ainda a anunciar.

Nascido em Santarém, em 1941, o autor de Vou lá Visitar Pastores passou parte da infância e adolescência em Moçâmedes, tendo depois regressado a Portugal para frequentar o curso de regente agrícola. Voltaria a Angola uma vez este concluído, para depois tirar, em Londres, o curso de realizador de televisão e cinema.

Naturalizar-se-ia angolano em 1983, por ter tido a consciência de que era ali que tinha a sua "matriz geográfica", um sentimento que o assaltou quando tinha 12 anos, "no meio do deserto de Moçâmedes", e que contou no catálogo do grande ciclo que o CCB lhe dedicou em 2008. Foi já como cidadão angolano que se doutoraria em Antropo- logia, em Paris.

Os filmes de Ruy Duarte de Carvalho são documentos antropológicos e sociais, mas também se contam entre as primeiras ficções da filmografia angolana, de que é, aliás, um dos pioneiros. O autor costumava descrever a sua obra como "meia -ficção-erudito-poético-viajeira", e esse sentimento está presente nos seus trabalhos para a televisão e sobretudo para o cinema.

Foi graças à sua formação em antropologia que Ruy Duarte de Carvalho conseguiu entrar na comunidade do antigo Reino Jau, em Huíla, no Sul de Angola, e filmar os seus homens e mulheres, costumes, tradições e cerimónias para a televisão de Angola. Como sucede em Ondyelwa: Festa do Boi Sagrado, em que é informado sobre a cerimónia, faz entrevistas com os participantes e descreve, em pouco mais de meia hora, as características dos três últimos dias desta celebração nativa.

Até num documentário mais militante como Uma Festa para Viver (1975), que não escapa a uma certa retórica de entusiasmo revolucionário própria da época, Ruy Duarte de Carvalho consegue atenuar o tom de propaganda política e de glorificação do MPLA, e demorar- -se na descrição do quotidiano dos habitantes de Luanda.

O realizador de Nelisita: Narrativas Nyaneka não filmaria mais depois de Moia: oRecado das Ilhas, feito em 1989. Os seus filmes fazem agora parte do acervo da Cinemateca Nacional de Angola.

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