"Escolher Tallin em vez de Valpaços ou Caparica"

Quatro portugueses na Europa: Cracóvia, Amesterdão, Londres, Tallin. Um continente, uma cultura, uma ideia, uma utopia - Europa como futuro, mundo, família e religião.

"Comecei as aulas de polaco. A partir de agora as minhas segundas e quartas-feiras iniciar-se-ão com uma bela aulinha (logo às oito da manhã, antes de começar a trabalhar). Iupi! Caramba, se tantos milhões de criancinhas polacas a conseguem falar também vou conseguir! Mais tarde ou mais cedo…"

A promessa é de 2006, assinada pelo blogger Tiagowsky, aliás Tiago Ferreira, que entre as aventuras polacas (que incluem a compra de um apartamento a precisar de obras) comenta bola. Aos 29 anos, este lisboeta com uma licenciatura em Administração e Gestão de Empresas passou os últimos três em Cracóvia, como analista financeiro de uma multinacional americana. Tinha conhecido o país em 2003, quando esteve um semestre como estudante Erasmus em Poznan. "Não acordei um dia a pensar 'vou emigrar para a Polónia!'. Tinha desde há muito tempo a ambição de ter uma carreira internacional que me permitisse estar em contacto com pessoas com backgrounds culturais diferentes do meu e a oportunidade de emprego na Polónia foi apenas a materialização dessa ideia. O facto de a experiência enquanto estudante ter sido bastante positiva foi um factor de peso que me levou a responder ao anúncio que vi publicado no jornal e penso que também terá sido benéfica em todo o processo de recrutamento."

Com nota negativa para os terríveis invernos ("Podem passar-se meses sem que vejamos a luz do Sol"), para a burocracia ("Heranças deixadas de outros tempos, que infelizmente são aceites com naturalidade pela maioria dos polacos") e para as estradas ("A rede viária ainda tem muitas limitações e são muito poucas as auto-estradas existentes"), Tiago elogia a cidade, que diz encantadora e cosmopolita, e as pessoas: "À primeira vista pode parecer um povo frio, distante e austero; no entanto assim que nos deixam pertencer ao seu círculo de confiança são do mais hospitaleiro que há."

Nota, desde a adesão à UE, além de uma subida acelerada dos preços, acompanhada de uma desvalorização da moeda local face ao euro (o que se reflecte no seu ordena-do), "uma melhoria enorme no nível de vida médio que a classe média apresenta e têm hoje um poder económico bastante superior". Um poder económico visível no parque automóvel e nas dezenas de centros comerciais que sur- giram, "em tudo idênticos ao que se encontra no resto da Europa". Mas, sublinha, "não quero dizer que os polacos são ricos. Continua a ser um país pobre."

Relacionando-se com os portugueses que estão em Cracóvia - "umas dezenas" -, Tiago dá-se com gente de toda a Europa. E sente, diz, "um enorme orgulho em ser europeu". Ser cidadão europeu, diz, "não é apenas um conceito teórico, é algo que hoje em dia existe na prática e que é vivido por milhões de pessoas. Quando olho para o mapa da Europa, sinto que é infinitamente mais pequeno do que o imaginava quando criança. Imagino que me conseguiria sentir "em casa" em muito pontos da Europa. Tenho amigos em quase todos os países europeus e isso contribui definitivamente para que me sinta um verdadeiro cidadão da Europa." Apesar disso, no entanto, não vota amanhã. Porque a embaixada portuguesa é a mais de 300 quilómetros de Cracóvia (onde não existe consulado) e porque sente "pouco interesse". Mas deixa uma sugestão: "Se fosse possível votar electronicamente através da Internet a minha posição seria certamente outra e mais facilmente exerceria o meu direito e dever de voto".

Com menos desculpa - e assumindo: "Vergonha, eu sei" - , outra entusiasta da ideia de Europa ("como um todo e não apenas como um conjunto de países"), a cientista Ana Luísa Castro e Silva, confessa que, apesar de viver a 50 quilómetros de Amesterdão, se esqueceu de se registar a tempo de votar. Tem a mesma idade que Tiago e está, desde Outubro de 2008, a fazer um doutoramento (é licenciada em Engenharia Biológica pelo Instituto Superior Técnico e tem um mestrado em Biotecnologia) na Universidade de Leiden, envolvendo "o de-senvolvimento de vacinas para imunoterapia de cancro".

Ana Luísa, que nasceu na Califórnia (onde voltou para estagiar durante oito meses em 2007) mas cresceu e estudou em Portugal, já tinha estado na Holanda quando adolescente através de um programa de intercâmbio e voltou, já universitária, para passar uns dias em Amesterdão. E gostou. "Lembro-me de pensar que era capaz de cá viver." Quando decidiu fazer doutoramento e mandou currículos para vários programas, foi seleccionada para dois (Leiden e o programa Portugal-MIT). Pesou na escolha o tipo de projecto e o facto de que na Holanda "os doutorandos são considerados empregados da universidade e têm todos os direitos de um trabalhador a tempo inteiro, ao contrário do que acontece aí, onde se tem estatuto de bolseiro".

Como Tiago, queixa-se do tempo: "péssimo". E acrescenta a comida: "Para os holandeses, a alimentação serve para matar a fome, ponto. Daí que comam sandes todos os dias para encher - de pão de forma, que barram com pastas variadas, maionese, manteiga e pepitas de chocolate, daquelas que servem para decorar bolos, de manhã e ao almoço, só comendo uma refeição quente por dia, ao jantar. Pode dizer-se que a alimentação de um holandês pode ser descrita em termos de fatias de pão diárias. Não existe cultura gastronómica." Desmente a fama liberal dos holandeses - "são extremamente austeros e rígidos nos princípios, raramente transgredindo regras ou desviando-se do planeado, o que choca de frente com a nossa cultura tipicamente latina, muito mais descontraída e menos respeitadora de regras. Ao contrário do que se possa pensar, as suas leis, muitíssimo liberais comparativamente às portuguesas, relativamente às drogas leves, por exemplo, não reflectem em nada a forma de estar dos holandeses, cuja maioria nunca entrou numa coffee shop" -, que classifica sobretudo como pragmáticos, e anota o facto de só irem ao hospital "em último caso" e resistirem a receitar medicamentos ("Paracetamol serve para tudo"). A maioria dos partos ocorre em casa, "por sair mais barato", e epidural é um luxo raramente concedido.

A ganhar 1450 euros mensais (2000 brutos), pela primeira vez com independência financeira, teve no entanto de desistir do carro (a que se tinha habituado em Portugal desde os 19 anos) e anda sempre de bicicleta, faça sol (muito pouco), chuva ou neve. "Carro na Holanda é um luxo e por isso, desde impostos a seguro, ou estacionamento dentro das cidades, é muito mais caro, não acessível a qualquer um." Contando ficar quatro anos, tem aproveitado para viajar na zona. "É uma Europa mais evoluída [que Portugal] em vários aspectos, especialmente a nível económico e social. Os direitos dos trabalhadores são mais respeitados, havendo mais benefícios para quem tem filhos, desde maiores licenças de maternidade a redução de horários. Existe menos pobreza e quase não se sente insegurança ou criminalidade. O Estado tem um papel importante nas questões sociais, e contribui com ajudas e subsídios a quem precisa. É também mais evoluída a nível ideológico, como na questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que é permitido, havendo muito menos discriminação."

Gonçalo Diniz, 37 anos, podia apontar esse motivo (menos discriminação) para viver em Londres desde 1999: foi presidente da ILGA--Portugal, uma das organizações que lutam pelos direitos das pessoas LGBT, e há um ano celebrou a sua união civil com o homem com quem vive desde 2006. Aliás, foi viver para o Reino Unido (país de que é já nacional, desde 2008 - "Fi-lo não por necessidade, mas porque queria participar plenamente na vida do país que me adoptou e me tem dado muito") por paixão: "Vivi cinco anos com um inglês." Educado num pais anglo-saxónico (a África do Sul), atribui também a isso a facilidade de adaptação. Desenhador gráfico de profissão, diz não ter razões de queixa em termos de trabalho. "Cheguei cá e ao fim de dois meses tinha um emprego bastante bem pago. Fui despedido em 2001, quando foi o crash da Internet. Aí estabeleci-me por conta própria e tem corrido muito bem até agora - estamos a apanhar a ressaca da crise. Com um apartamento seu comprado há quatro anos, Gonçalo desloca-se sobretudo de bicicleta e tem uma moto para as deslocações para fora da cidade. "Demoro 15 minutos de bicicleta para chegar ao trabalho. Recuso ter carro: acho muito caro e pouco ecológico." Diz viver "muito confortavelmente", sentir-se "muito sortudo". E voltou a estudar. Está no segundo ano do curso de Ciências Sociais e Políticas, na Universidade Aberta. "Acho que não vou aproveitar isto profissionalmente, mas queria fazê-lo". Nas eleições europeias, vota em Londres - nos candidatos britânicos. E admite ter passado a ver a Europa com olhos de inglês: "Quando era mais novo tinha se calhar de uma forma ingénua a ideia de que a Europa iria transformar-se num estado federativo, caminhar para uma união política, mas desde que vivo cá adoptei um bocado a perspectiva eurocéptica deles, faz sentido manter a individualidade relativa dos países."

Se foi a paixão por um homem a levar Gonçalo, a João Lopes Marques levou-o uma cidade. "Cheguei a Tallin e gostei imediatamente. Uma rara empatia entre nós. Adoro cidades medievais." Estava em Estocolmo, em 2003, viu um anúncio de viagem em ferryboat e meteu-se nele. Passou uma semana de férias na Estónia. Voltou em 2006 para visitar uma amiga, viu uma casa do século XIV "a um preço irrisório" e arrendou-a "nessa mesma noite". Era, diz, para ficar um ano, ficou três - até agora. Jornalista, blogger, guionista e escritor (dois livros publicados, Terra Java e o O Homem Que Queria Ser Lindberg), tem desde Abril de 2007 "uma coluna de opinião/crónica quinzenal no Eesti Ekspress, o maior jornal do país" e continua a trabalhar para meios portugueses, tendo criado a Blablabla Media, produtora de formatos audiovisuais e Internet. Trabalha com um realizador português radicado em Madrid e estão a "ultimar um documentário e uma ambiciosa webnovela, cujo guião estou a escrever e mete necessariamente Tallin".

Vem todos os meses a Portugal "três ou quatro dias", mas o encantamento com a Estónia ainda não esmoreceu. "Tenho semanas a fio em que não me enfio num transporte que seja, é tudo a pé. O tempo é mais lento e rende bastante mais. Tem sido maravilhoso tornar-me, ano após ano, num pagão báltico com alguns laivos provincianos." Fala de "uma Europa nova", de "outros mapas mentais, que nada têm a ver com o passado português", da "escala humana, da ligação à natureza e de alguma genuinidade das pessoas". E da Internet sem fios e gratuita em quase todo o lado: "Faz de Tallin para mim um enorme sofá gigante com acesso gratuito ao mundo. Há uma centralidade que também é interessante: o triângulo Riga-Helsínquia-Sampetersburgo passa por aqui, em poucas horas estamos numa destas cidades, a que juntaria uma noite de barco até Estocolmo. Vamos a pé até ao porto... Enfim, quem por aqui passou sabe que também há um lado hedonista em Tallin a que alguns podem inclusive juntar uma pitada de lascívia." Apesar de admitir que "o país tem muitas limitações. Quem por aqui se deixa amortecer perde muito mundo... Um perigo", sente-se "um privilegiado por ter podido, com toda a naturalidade, escolher Tallin em vez de Valpaços ou Caparica". Vê a Europa como "uma utopia em evolução, um organismo vivo que se aperfeiçoa e adapta". E, mesmo se não vai votar amanhã "porque os voos para Lisboa estão caríssimos, porque me atrasei na entrega dos papéis para votar aqui e porque dia 7 vou estar em Istambul", sente a Europa "como única religião". "Em tudo o resto sou agnóstico, numas coisas mais do que noutras, já se sabe. É uma religião complicada e com alguns dogmas, mas não me coíbe de andar no escuro. Ou não será isso a fé? Adoro ver os europeus unidos e, com isso, a emprestarem mais coesão ao mundo. Há um lado civilizador na Europa que tem a sua piada se não for paternalista ou neocolonial. Mesmo que nem queiramos é assim que muitas outras culturas nos vêem. Ser europeísta tem muitas fragilidades, é aceitar caminhos por vezes menos fáceis, mas a opção é inexistente."

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Adolfo Mesquita Nunes

Ventos e casamentos do sistema partidário espanhol

Nos últimos cinco anos o panorama político espanhol alterou-se profundamente, fazendo dele uma espécie de súmula dos movimentos de transformação política que ocorrem no mundo ocidental. Olhar para Espanha é um exercício relevante para entender o que pode suceder aqui.O fim do bipartidarismo Quando, em 2011, o PP ganhou as eleições, tudo estava em ordem. Desde 1996 que os espanhóis viviam em alternância. Era agora a vez do PP. O que Rajoy não sabia é que o bipartidarismo morria: em 2015, o PP perdeu a maioria, o PSOE perdeu votos, e irromperam o Podemos e o Ciudadanos. O desarranjo foi tal que ninguém se entendeu. As eleições repetiram-se: o PP pouco cresceu, o Podemos não superou o PSOE, o Ciudadanos desceu e o PSOE teve o seu pior resultado; o bipartidarismo, esse, não regressou. Rajoy lá formou um governo que, pouco depois, caiu numa moção de censura. Agora, sem eleições, o PSOE governa de forma ainda mais minoritária. Quando se tornou evidente que o sistema tinha quatro partidos nacionais, as eleições andaluzas revelaram a irrupção de um antes moribundo Vox, um partido que apela a temas rotulados como de extrema-direita, e que as sondagens já veem no Parlamento nacional. Passarão a ser cinco? Como é que em poucos anos tudo mudou? Penso que há quatro fatores que ajudam a explicar esta transformação.A crise de 2008 Fundado a partir do movimento dos indignados (que liderou as manifestações contra os efeitos da crise), o Podemos concorreu às europeias de 2014 e teve 8%. Em 2015, nas legislativas, teve 20%. Nunca a esquerda anticapitalista, antissistema, adepta da democracia direta, tinha tido tanto voto. Mas enquanto o PSOE era a cara da crise e o PP aplicava a austeridade, Iglesias tinha tudo a favor: outsider, fora de casos de corrupção, podia prometer, dominava as redes sociais e não saía da televisão. Era o tempo em que o Podemos sonhava com o sorpasso. Parecia imparável. E é normal. Em tempos de crise, de desespero, não é possível exigir às pessoas que não cedam a discursos fáceis: as pessoas querem autenticidade e política - o economês deixa de relevar e as caras antigas soam a passado. Entretanto, o Podemos foi perdendo votos e vigor à medida que se foi revelando. O seu n.º 3 empregava precários, o seu n.º 2 recebia dinheiro da Venezuela, e Iglesias comprou casa de milionário, exigiu a tutela dos serviços secretos e ainda nesta semana pediu desculpa por coisas que disse há anos. O Podemos continua relevantíssimo, mas ninguém o imagina imparável. Não colhe a tese de que temos de nos converter ao populismo para ganhar. O maior inimigo do populismo é o tempo. Mas não podemos confiar apenas no tempo ou achar que o populismo surge inevitável em determinados contextos: o populismo tem de ser combatido diariamente. Porque o Podemos esteve quase lá.Uma corrupção entranhada Nem PSOE nem PP têm bom registo em matéria de corrupção. Mas durante a governação de Rajoy a sucessão de casos envolvendo o PP foi tal que o partido passou mais tempo a explicar-se do que a apresentar os resultados da economia. Foi um vendaval. O filão era bom demais. A cada caso, lá vinham Iglesias e Rivera falar de ética, apresentando o seu bom cadastro. O PSOE bem tentou, mas tanto vidro no telhado não ajudou. A corrupção entranhada, sistémica, é hoje mortal: expulsa os eleitores, empurrando-os para quem souber assumir a renovação, independentemente das suas ideias. Já não dá para esperar que passe. Tem de se agir depressa, e isso nem sempre é fácil, até perante o risco de judicialização da política. Um sistema político, por mais estável que seja, pode hoje ser transformado de alto a baixo por causa de um caso de corrupção. Uma má decisão judicial, uma errada avaliação administrativa, um qualquer caso que há anos passaria incólume, podem ser o gatilho de um movimento imparável, agregando o descontentamento. É bom que se tenha noção disso. Em 2011, o PP parecia destinado a governar oito anos sem problemas. Hoje, todas as figuras de 2011 estão na sombra. Uns presos, outros demitidos, outros no meio de escândalos. E nenhum partido é imune a casos destes - a diferença está na forma como se reage a eles.A reação ao independentismo O Ciudadanos nasceu na Catalunha em 2006, com um discurso contra o independentismo tão vigoroso que dirigentes nacionais do PP o elogiavam. Conseguiram dar o salto nacional em 2015, quando a questão catalã se tornou nacional graças às ameaças do governo autónomo, que preparava aventuras referendárias e provocações várias, muitas xenófobas. Para a maioria dos espanhóis, que é soberanista, o independentismo é uma ameaça ao seu mundo, ao seu modo de vida. A tibieza de Rajoy a lidar com os independentistas e de Sánchez a demarcar-se deles tornaram o Ciudadanos uma opção: ganhou as eleições na Catalunha e foi, além do soberanista Vox, o único a crescer na Andaluzia; a nível nacional, ficaram em quarto, atrás do Podemos, mas as sondagens mostram-no a crescer consistentemente. O tempo é um bom aliado. Rivera nunca precisou de ser extremista, o que é resposta aos que dizem que só os extremismos podem crescer. E percebeu que em questões políticas - o independentismo e a corrupção - as pessoas querem respostas políticas. Os bons resultados da governação não chegam para animar. É aliás visível que o novo líder do PP já percebeu isso, e ainda bem. Do que as pessoas precisam, num momento em que o seu mundo é colocado em causa, é de assertividade e de liderança política, e para isso não é preciso lunatismo. Mudança sensata era um dos slogans de Rivera. Não se deu mal com a afirmação da sensatez.A indignação com a influência dos radicais O atual governo do PSOE converteu-se numa normalização de partidos pró-ETA, de independentistas e de extrema-esquerda. Têm hoje um papel político e mediático mais central do que nunca. É impossível não esperar indignação, uma contrarresposta, não só dos moderados mas também de outros radicais que, nessa normalização, encontram legitimidade. Essa normalização começou antes de Sánchez. O Podemos conseguiu um relevo mediático ímpar desde a fundação, passeando-se pelo espaço público com uma superioridade moral inaceitável num simpatizante de ditaduras e ternurento com terroristas. O PSOE não soube o que fazer, temendo a pasokização: aproximar-se podia ser fatal, distanciar-se podia ser amuo. O PP ignorou-lhes o magnetismo, confiando que os resultados da economia bastavam. Deixaram-no a sós na arena. Foi um erro colossal. Por um lado, porque foi enganando muita gente, com o jeito manso que esconde o fanatismo. Por outro, porque o eleitorado moderado, atacado, acusado, caricaturado, por um Iglesias cada vez mais cheio de si e ofensivo, sentiu-se órfão. E quando os moderados se sentem órfãos, quando os seus partidos parecem não reagir, podem bem encontrar espaço noutros radicais. A relativização de um extremo é um erro que se paga caro, uma espécie de convite ao extremo oposto. A irrupção do Vox explica-se assim. E, sem o Ciudadanos, o Vox, que já existia, teria irrompido mais cedo.Portugal Não podemos extrapolar estes fatores diretamente para Portugal, mas eles podem ajudar a detetar tensões e movimentações, assim como podem servir de aviso ou guia de reação. Não penso que estejamos imunes a fenómenos destes. Há populismo de esquerda em Portugal, tão aceite e entranhado que há quem só esteja à espera de um gatilho para reagir. Mas sobre Portugal terei tempo de escrever noutra oportunidade.

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Crónica de Televisão

New Amsterdam: a crise na saúde

É uma inevitabilidade clínica. Por muitos cuidados que tenha com a saúde, por mais que procure fazer exercício ou manter dieta equilibrada, há um risco a que qualquer televisão está sujeita: a estreia de um novo drama passado num hospital. Resistindo a todos os esforços para a erradicar, a "série sobre médicos" continua a florescer, irrompendo em surtos pontuais, tão ou mais comuns e incontroláveis do que os surtos das suas congéneres etiológicas, a "série sobre advogados" e a "série sobre polícias".