Empresário misterioso chega ao poder em São Tomé

Filho de um ex-Presidente, passou parte da vida longe de São Tomé. Acaba de ser eleito primeiro-ministro.

Em 1961, no Congo, é assassinado o recém-eleito primeiro-ministro Patrice Emery Lumumba. O líder anticolonial esteve à frente do Governo congolês durante dez semanas até ser deposto, aprisionado e morto em circunstâncias que continuam por esclarecer e que fizeram dele um mito. Um ano mais tarde, nasce em Libreville, no Gabão, o filho de Miguel Trovoada, um político exilado que na altura trabalhava naquele país para o Comité para a Libertação de São Tomé e Príncipe. Patrice Emery foi o nome que escolheu para o filho recém-nascido.

É este, agora com 48 anos, o homem que no domingo foi eleito primeiro-ministro da República de São Tomé e Príncipe. Entrou no mundo político a trabalhar como assessor do pai - chefe de Governo de São Tomé logo após a independência, em 1975, e Presidente depois entre 1991 e 2001 - até chegar a ministro dos Negócios Estrangeiros em 2001. Paralelamente ao trabalho na política, enveredou pelo campo empresarial. Sabe-se que tem investimentos em países como o Gabão, Guiné Equatorial ou Estados Unidos, mas o tipo de negócios a que se dedica não é do conhecimento público.

Em São Tomé, o filho do ex-Presidente é visto como uma pessoa misteriosa e ausente. São- tomenses disseram ao DN que o líder do partido Acção Democrática Independente (ADI) desde 1991 "é uma pessoa muito fechada no seio da sua família, não costuma juntar-se com as pessoas nos bairros, nem participar em convívios". Por não ter ligações fortes à terra e estar afastado da "promiscuidade interna que existe no país", os são-tomenses decidiram conceder a Patrice o "benefício da dúvida", depois de várias "frustrações" a nível político. Desde a introdução do multipartidarismo, em 1990, o Governo já foi chefiado por 14 primeiro-ministros.

Patrice só começou a estar presente em São Tomé a partir de 1991, quando o seu pai foi eleito Presidente. Antes disso viveu sempre fora do país. Completou o ensino primário na sua terra natal, o secundário em Lisboa e foi em França que terminou a licenciatura em Economia, iniciada na Roménia.

Em São Tomé ocupou o cargo de conselheiro para os assuntos petrolíferos do actual Presidente, Fradique Menezes, até ser afastado em 2005, sob suspeita de usar a sua posição em benefício próprio. Foi também Menezes que, no início de 2008, o nomeou primeiro-ministro pela primeira vez, funções que na altura assumiu por apenas três meses.

Pai de cinco filhos, dois dos quais da primeira mulher, uma são-tomense, Patrice Trovoada professa o islamismo e é actualmente casado com uma maliana.

Durante a campanha, prometeu mudança e luta contra a corrupção no arquipélago que conta com 163 mil habitantes e onde, como o próprio referiu na terça-feira, "os níveis de miséria são assustadores".

No seu gabinete, Patrice Emery Trovoada tem fotografias de Malcom X, Martin Luther King e Nelson Mandela, mas quando posa para fotografias é a imagem de Barack Obama que escolhe como pano de fundo.

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