Dois autores, duas estreias

'Onde a Vida se Perde' e 'Última Paragem, Massamá' são os romances de estreia de Paulo Ferreira, membro da agência Booktailors, e Pedro Vieira, 'blogger', apresentador e ilustrador, que este mês editam ambos pela Quetzal.

Paulo Ferreira e Pedro Vieira são doisprofissionais da área da comunicação e da literatura, têm os dois mais de trinta anos, e editaram ambos este mês os respectivos romances de estreia pela mesma editora, a Quetzal. As semelhanças, se não acabam aí, são pura coincidência, mas a verdade é que nenhum destes novos dois rostos da literatura nacional se vê ainda como um escritor.

"Eu vejo-me como autor de um livro", diz Paulo Ferreira, que assinou o romance Onde a Vida se Perde, em entrevista, "Não sou um escritor, no sentido em que escrever não é o meu ganha-pão."

É preciso então dizer que Paulo Ferreira, autor estreante, é também coordenador da Booktailors, uma agência de consultadoria na área da edição de livros.

"O nosso trabalho na Booktailors é fundamentalmente um trabalho de comunicação", declara Paulo Ferreira, "Só trabalhamos com editoras, nunca com autores, e tratamos fundamentalmente das questões de desenho e do marketing de um livro. A questão é que, para mim, que trabalho na área dos livros, o bichinho da escrita nunca ficou bem resolvido", continua.

Autor de vários contos, publicitário durante seis anos, licenciado em Relações Internacionais com um mestrado em Edição pela Universidade de Aveiro e colaborador da revista Ler, para além de membro da Booktailors, Paulo Ferreira tem em comum com Pedro Vieira o facto de ter, durante um curto mas intenso percurso profissional, percorrido uma variedade de caminhos.

Pedro Vieira , ilustrador (para revista Ler inclusive), cameraman, blogger, produtor televisivo e autor de um conto publicado na revista NS ' em 2010, publicou este mês o romance Última Para- gem, Massamá.

"Nunca vivi em Massamá", diz, já a meio da entrevista ao DN, "Massamá aparece no romance como um estereótipo, é uma referência instantânea para o universo suburbano em que a história decorre", explica o autor, que viveu durante a maior parte da vida na zona de Benfica, em Lisboa.

Licenciado em Marketing ("só para ter um diploma", admite o próprio) Pedro Vieira é co-produtor e apresentador do programa Ah, a Literatura, do Canal Q, das Produ- ções Fictícias.

"Não tenho carreira, que é uma coisa que entristece muito a minha mãe", diz Pedro Vieira, "As coisas vão acontecendo, pronto. É sempre difícil preencher aquele campo nos for- mulários que diz 'Profissão'."

Última Paragem, Massamá (ver caixa) é o fruto de um percurso na escrita que, para Pedro Vieira, se prendeu fundamentalmente com a cultura de blogues nacional. É seu, aliás, o Irmã Lúcia, página que, diz, lhe serviu de "oficina de escrita".

"Comecei a sentir-me motivado para escrever e a perceber que afinal um blogue é um bom sítio para criar um público. O facto de haver pessoas que lêem o que escrevo na Internet cria de alguma forma a obrigação de corresponder à atenção dessas pessoas", diz.

Criou personagens recorrentes, ensaiou esquemas de escrita e, conta, o convite para o romance surgiu por iniciativa da editora.

"Eu fui um privilegiado porque nunca tinha publicado nada [o romance está escrito desde 20099 e fizeram-me um convite, enquanto há pessoas que andam anos a bater às portas", declara.

Da convivência com a tecnologia, ficou-lhe a consciência dos rituais e hábitos criados pela emergência de novas formas de comunicação: "É um novelo, existe uma dinâmica viva e uma compulsão de alimentar os blogues e o Facebook, até porque é uma forma de nos mostramos. O discurso antes era um bocado mais dourado. Mentira, cria--se ferramentas novas, e necessidades de raíz.

Posto tudo isto, Última Paragem, Mas- samá fala dos "pequenos cataclismos" que se desenrolam na vida de pessaos comuns, numa história que retira o cenário da realidade suburbana da área da Grande Lisboa. Em comum com Onde a Vida se Perde, tem a preocupação com o tempo, e o facto de, segundo Pedro Vieira, "a relação das pessoas com o tempo e com o que podem fazer durante a vida está sempre presente".

O romance de Paulo Ferreira, a propósito, conta a história de Pedro, um homem que, após tomar conhecimento de que o tempo de vida que lhe resta é limitado, convida para a mesma mesa as quatro mulheres da sua vida (ver caixa).

"Continuo a ficar desconcertado quando falo com alguém que leu o meu livro e me dizem 'afinal era isto que tu tens dentro de ti'", diz Pedro Vieira, que, embora não negue que existe muito do eu próprio imaginário em Última Para- gem, Massamá, declara que este livro "não é um diário".

"Há qualquer coisa com o livro, como objecto, em que se tende a tirar tudo o que lá está e associá-lo ao autor. Mas no fundo não é tudo verdade e a narrativa é quase sempre um artificialismo", diz, "Por outro lado, quando li o livro e percebi que ia ser publicado disse 'estou demasiado exposto', também há muito das minhas angústias aqui."

Como a Vida se Perde, por sua vez, foi escrito num período de dez dias na ilha da Madeira, onde Paulo Ferreira se fez acompanhar apenas de um caderno: "A primeira versão do romance foi escrita numas férias no Funchal. Fui trabalhar um dia e meio e tive dez dias só para mim. Quando voltei da Madeira toda a gente achou que fui um idiota. Perguntavam-me: 'Foste a Câmara de Lobos?' N ão, não fui. 'Foste ver os jardins do Berardo?' Também não fui. Passei todos os dias a passear no centro do Funchal (que se faz a pé numa hora) e a escrever."

Da viagem, terminada em Julho, resultou "um corpo de texto", o verdadeiro trabalho, no entanto, viria depois, ao lado de Francisco José Viegas, durante sete meses.

Embora não se considere um escritor, Paulo Ferreira afirma que este livro foi escrito com a consciência do impacto em termos pessoais, da sua edição.

"Levei a escrita do romance muito a sério. Não foi um hobby.", começa Paulo Ferreira, "até porque ser autor de um livro, que está no espaço público, é algo que fica para o resto da vida. Só assim é que vale a pena encarar os livros".

Mesmo trabalhando com livros, o bichinho da escrita nunca ficou resolvido"

paulo

ferreira

escritor

Quando li o livro pensei para mim próprio: 'Estou demasiado exposto'"

pedro

vieira

escritor

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