De bancário a banqueiro

Os herdeiros do coleccionador Jorge de Brito estão de candeias às avessas com a Fundação Arpad-Szénes- Vieira da Silva, presidida por Manuel Pinho, e levantaram dez obras do espólio emprestado à fundação. Queixam-se de dificuldades para levantar os quadros depositados. Em 1994, o colecionador Jorge de Brito deixou um conjunto de 22 quadros da pintora portuguesa em depósito no Museu. Restam agora seis

Muito cedo revelou amor à arte, sobretudo à pintura. Herdou-o do pai, contava, ourives de Lisboa e o homem que, nas palavras do filho, mais percebia de pedras preciosas em Portugal. A amizade a Júlio Pomar, iniciada quando tinha 18 anos, acentuou o gosto e apesar de um reduzido salário de bancário, já então comprava quadros - a prestações, claro. Em poucos anos, o primeiro coleccionador português de arte contemporânea organizaria uma colecção vasta e valiosa, constituída sobretudo por trabalhos de Vieira da Silva. Por muito tempo o maior coleccionador português reuniu um acervo em que se destacavam também Silva Porto, António Soares, Eduardo Viana, Mário Eloy ou o amigo Pomar. Somava-lhes uma importante colecção internacional : Sonia e Robert Delaunay , peças de Klee, Matisse, Braque, Max Ernst, Giacometti, Dufy. As obras de arte mereceram sempre uma deferência única a este homem, fascinado pelo poder e pelo seu exercício: "As obras de arte têm a sua própria personalidade e aquele que verdadeiramente as ama deve procurar o seu legítimo e natural destino", disse no dia em que ofereceu o retrato de Pessoa, de Almada Negreiros, à cidade de Lisboa. Já a sua generosidade, reconhecida por muitos, incluindo alguns inimigos, foi sempre a forma mais que perfeita de demonstrar aos outros o poder que tinha. Por isso, dizia irritado: " Em Portugal dar é difícil."

A fortuna que lhe permitiu rodear-se de arte estava ancorada no grupo BIP. Em Abril de 1974, o grupo BIP era constituído por mais de 40 empresas ligadas ao sector financeiro, imobiliário e ao turismo. O banqueiro fundara 22 sociedades e comprara 15. O Banco Intercontinental Português, com sede na Avenida Fontes Pereira de Melo em Lisboa, dispunha de 12 balcões e 600 empregados. O passivo do grupo ultrapassava os 2, 2 milhões de contos e o volume de investimento era de 2, 4 milhões de contos.

A história começou aos 18 anos. Com apenas algumas cadeiras do 7.º ano, Jorge de Brito começou a trabalhar no Banco Espírito Santo. Conheceu ai um rapaz da sua idade a quem certo dia disse. " Sabes, ainda hei-de ser presidente do Benfica." E o outro, de seu nome João Rocha, retorquiu: "Pois eu serei presidente do Sporting." Os desejos cumpriram-se. E até o maior de todos eles: de bancário chegar a banqueiro.

Jorge de Brito nasceu em Lisboa em 1928. Em Março de 1949, com 21 anos, deixou o BES e partiu para Angola , à procura de fortuna.

Durante 3 anos trabalhou em Cabinda, onde ganhou gosto pelo jogo e pelo risco, gosto que levou ao limite, mais tarde, como especulador compulsivo da bolsa. Ele próprio contava que que o poker o tornou mestre na arte do bluff e que à custa do jogo mobilou um apartamento.

Em Cabinda, não ganhou fortuna mas conheceu uma paixão, complicada, que o obrigaria a regressar a Lisboa e ao BES. Mas por pouco tempo.

Foi trabalhar para a fábrica da Abrigada, propriedade de um tio de Isabel Henriques, namorada antiga com quem acabaria por casar. Nos anos 60, entrou para a administração da Casa bancária Augustine, Reis & Cia, a convite de Fernando Reis, que lhe propôs um bom ordenado e participação nos lucros. O cargo garante-lhe ainda uma intervenção no mercado de capitais. Jorge de Brito revelou aí a sua maior vocação- como intermediário, comprou e vendeu acções, e investiu na bolsa as comissões recebidas. Sempre com sucesso.

O primeiro grande negócio ( a venda de um lote de acções da companhia de cervejas Estrela ) rendeu-lhe uma comissão de oito mil contos, muito bom para a época. Com esse dinheiro, diria mais tarde, comprou a casa da família Padinha Formigal em Cascais.

Ao permitir a José Manuel de Mello, do grupo CUF o domínio do banco Lisboa & Açores garantiu para si avultada comissão. Cada vez mais investia na bolsa, quer por conta própria quer como testa-de-ferro. Já então o seu nome ganhava fama na praça de Lisboa - elogiavam-lhe o faro, a argúcia destemida e a capacidade de risco mas criticavam os métodos pouco ortodoxos , considerados nem sempre muito leais num mundo dominado por famílias de longa tradição na banca.

Mas Brito não ouvia nem parava. No final dos anos 60 adquiriu uma posição no Crédito Predial Português e quando Marcelo Caetano lançou um concurso público para a construção e exploração de uma rede nacional de auto-estradas, viu o filão e nem hesi-tou: criou a Brisa, Autoestradas de Portugal, a menina dos olhos do capitalista.

Apresentou, em parceria com algumas empresas estrangeiras e com a ajuda da família Figueiredo, um projecto de candidatura. E ganhou - 390 kilómetros de auto-estradas a construir ao longo de dez anos.

Miguel Quina, em represen- tação do grupo que apresentara a proposta mais baixa accionou udicialmente o estado, conven- cido de que Brito estava a ser be- neficiado. E de facto, ao resultado do concurso, não terão sido alheios dos factos que precedem a decisão governamental: a constituição do Banco Intercontinental Português ( antes comprara a casa bancária Agustine, Reis & Cia), sua glória e a sua ruína; e a aquisição da Sociedade Nacional de Tipografia, detentora entre outros títulos do jornal O século. Brito teria aí uma fonte de poder e de pressão sobre o governo. Por tudo isto se queixava Miguel Quina.

Impávido, Brito continuava a especular na bolsa nem sempre de maneira ortodoxa, tal como era pouco ortodoxo o comportamento do BIP, e a investir em arte e louça da Companhia da Índias. Longe iam os tempos em que comprava quadros a prestações.

Mas a fortuna não durou muito. Apesar disso, em 1973 e já com o banco a dar os primeiros sinais de falta de liquidez , lembrou-se de construir um Jardim Zoológico em Arraiolos. O Parque Africano,assim lhe chamou, ainda recebeu impalas, girafas, leões e palancas.

O velho regime expirava. No pós-revolução, o BIP foi intervencionado por ordem do ministro das Finanças Silva Lopes. Coube a Medina Carreira fazer a avaliação das causas derrapagem financeira. O Governo queria apurar responsabilidades. E apurou: em Dezembro de 1974, com 46 anos, Jorge de brito foi preso. Às 5 da manhã do dia 13 daquele mês, avisado pelo porteiro da casa que estavam cercados, percebeu o que o esperava: cinco militares com g3 apresentam-lhe a ordem, assinada por Otelo saraiva de Carvalho. Crime: exportação ilegal de divisas. Foi ele quem lhes indica o melhor caminho para Caxias. Estaria preso 19 meses. Quando a porta da cela bateu pela primeira vez, " berrei, pontapeei a parede, estava furioso", contava. Depois, aprendeu a usar o corredor de 20 metros de acesso à cela, para caminhar 12 quilómetros por dia. Anos depois lamentava sobretudo a morte dos cindo cães abatidos pelos militares que o foram prender.

José da Silva Lopes, ministro das finanças o responsável pela intervenção do Estado no BIP, declarou ao jornal público de 10 de maio de 2009: "O Brito utilizava os depósitos para os seus negócios pessoais. Tudo quanto ali se punha era para os seus negócios pessoais. Não emprestava apenas a si próprio. Emprestava também ao jardineiro, que era para ele, claro. Ele comprava de tudo: terrenos, palácios, arte... tudo."

Antes de ver todos os bens aprendidos e arrolados à ordem do banco de Portugal, Jorge de Brito vendeu alguns quadros para pagar os estudos dos filhos - seis, três rapazes e três raparigas. A herdade de 900 hectares no Alentejo, onde criara o jardim zoológico foi ocupada e os animais, mortos. Em 1976 começou a ser julgado na Boa-Hora, em Lisboa.

Advogados de defesa: Francisco Sousa Tavares e Eduardo Figueiredo. A sentença ditou 6 meses de prisão. Como já tinha cumprido 19 meses saiu em liberdade. Partiu para Suíça e voltou a investir em obras de arte.

Perdeu o vício da bolsa mas abriu um longo contencioso com o Estado.

Dez anos depois, em 1983 o estado indemnizou-o e devolveu o património apreendido. Em 1983, vendeu parte da sua colecção ao Museu de Arte Moderna . Quis ser pago em numerário: dois sacos de dinheiro que foi levantar ao BES, onde começara como bancário, já com o sonho de ser banqueiro. Com bens avaliados em 6 milhões de contos, recebeu de Mário Soares uma condecoração por serviços prestados à cultura.

Se com 18 anos confessava a João Rocha que um dia iria ser presidente do clube, o clube sempre chamou por ele. Desde 1973. Na altura recusou um cargo dirigente mas ofereceu uma pista de tartan. Em Abril de 1992 foi eleito presidente, o trigésimo. A gestão ficou marcada pela dificuldade financeira que conduziriam ao Verão quente que levaria Pa- checo, Paulo Sousa e João Pinto para o Sporting. Mas Brito fez questão de resgatar este último. vendeu um Vieira da Silva para o poder fazer, reza a lenda, numa altura em que tinha já no Benfica, da sua conta pessoal, 790 mil contos. Rumores da época contavam que a família ponderava já um processo em tribunal que o impedisse de continuar a injectar dinheiro no clube..

Jorge de Brito, o sócio 331, resgatou o jogador em Torremolinos para onde foi acompanhado apenas pelo motorista. Enganou-se no hotel onde estava o jogador, mas acabou por acertar. Ofereceu um salário de seis mil contos por mês e no mesmo dia regressou a Portu- gal. Deixaria o Benfica em Dezem- bro de 1993.

Muito contestado. Toda a vida o foi.

No final, era um homem amargo, em solidão, acompanhado até ao fim pelo seu retrato, um retrato aguarelado de Pedro Leitão, "um retrato sem idade" dizia, enquanto tentava esconder as mãos que lhe denunciavam a idade e a doença. Mas do retrato restava apenas o nariz adunco.

Foi cinturão negro em judo, fez vela, nadou quilómetros e quilómetros.

"Eu era um borga, tal como o meu pai." Jorge de Brito marcou Lisboa dos anos 50 e 60. Marcou o mundo financeiro português e a "colecção", escreveu Alexandre Pomar por altura da morte do ex-banqueiro (em 2006, aos 72 anos), "deixa profundas marcas na arte portuguesa e em duas instituições portuguesas - O CAM e o Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva devem-lhe parte do seu prestigio".

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