As bruxas da Casa Pia

Autor de uma biografia de Freud e de um livro sobre um escândalo de abuso sexual de menores no seu país, este  britânico que se define como 'historiador cultural' escreveu um livro sobre o caso Casa Pia. Chamou-lhe 'uma caça  às bruxas moderna' e quer que saia cá em Abril.

"Um caso de pânico moral". É assim que vê o processo de abuso sexual sobre o qual escreveu em 2005 relacionado com o lar de crianças e jovens Bryn Estyn, no País de Gales, e o da Casa Pia. Foi, aliás, por se ter interessado pelo primeiro que o britânico Richard Webster, 60 anos, reparou no segundo.

"Fiz um estudo especial sobre as alegações de abusos sexuais em lares de crianças [The Great Children"s Home Panic, Orwell Press, 1998]. Tem havido muitas dessas alegações na Grã-Bretanha. Especialmente na década de 1990, alguns assistentes sociais, polícias e jornalistas convenceram-se de que alguns lares tinham sido infiltrados por redes de pedofilia. Dizia-se que as crianças eram escolhidas e fornecidas a políticos importantes - e até a pessoas que ocupavam os cargos superiores da polícia - para serem abusadas sexualmente. Até The Independent, um dos principais jornais de referência ingleses, publicou em 1996 um artigo intitulado 'Pedófilos controlam lares de crianças'. Mas quando estas alegações foram devidamente investigadas pela polícia comprovou-se que, apesar de existirem abusadores sexuais, não havia uma única rede de pedofilia. O que tinha acontecido era, na realidade, um pânico moral."

Tendo estudado Literatura Inglesa na Universidade de East Anglia, Webster interessou-se progressivamente pela área da psicologia, acabando por publicar em 1995 uma "biografia intelectual crítica" de Freud (editada cá pela Campo das Letras, 2002). Desafiado a fazer uma obra semelhante sobre Darwin, preferiu embarcar no projecto sobre Bryn Estyn, que sabia não ser frutuoso do ponto de vista financeiro mas parece tê-lo interessado ainda mais nas alegações de redes de pedofilia. Há "várias respostas", admite, para o porquê disso. Elege uma: "Há 40 anos, quando estudava Literatura Inglesa, li uma obra do historiador Norman Cohn sobre a Grande Caça às Bruxas na Europa em cuja capa estavam estas palavras do psicoterapeuta Anthony Storr: 'Só se começarmos a compreender os recantos horrendos da imaginação humana é que poderemos impedir que voltem a ter lugar aquelas perseguições horríveis e irracionais que têm desfigurado tanto a história.' Não tive plena consciência disso naquela altura, mas influenciaram-me muito, e desde então tenho como ponto assente que a principal razão para estudarmos as caças às bruxas é conseguirmos reconhecer e contrariar o mesmo género de cruzadas de pureza, que são tão perigosas, se alguma vez voltarem a acontecer." Associar pedófilos a bruxas leva a perguntar se não crê na existência dos primeiros, mas o escritor tem resposta pronta. "Esse é um dos mal-entendidos mais comuns relativamente à Grande Caça às Bruxas. Durante séculos, a existência de um pequeno número de pessoas que praticavam magia ritual ou tentavam fazer mal sobrenaturalmente nunca esteve em dúvida. Era bruxas, e eram reais. Mas não eram alvo de perseguição generalizada. Até à difusão de teorias de conspiração que afirmavam a sua pertença a um culto maligno altamente organizado, cujos membros voavam montados em porcos, bodes ou cabos de vassoura e faziam reuniões orgiásticas em que adoravam Satanás. Não foi a crença em bruxas que levou à caça às bruxas; foi a crença de que as bruxas pertenciam a uma conspiração de malfeitores supostamente muito poderosa."

Antes de terminar The Secret of Bryn Estyn, que diz ter levado dez anos a investigar, Webster deparou-se, em Maio de 2003, com uma notícia no The Observer que lhe chamou a atenção. O título era "Ex- -Ministro detido num caso de rede de sexo com crianças". "Deu-me imediatamente que pensar. Claro que podia acontecer que o caso da Casa Pia fosse uma excepção, e que, ao contrário de todos os outros de que tenho conhecimento, este lar de crianças tivesse mesmo sido alvo de uma rede de pedofilia da alta roda. Não rejeitei essa possibilidade. Mas, na minha opinião, havia fundamentos muito fortes para se tratar com algum cuidado as alegações que se estavam a fazer. Por esta razão, escrevi um artigo breve sobre o escândalo da Casa Pia em 2003. Neste artigo, sublinhei que 'as redes de pedofilia centradas em lares de crianças e servindo as preferências sexuais pervertidas de políticos importantes têm tendência a existirem mais na imaginação do que na realidade.' Em Setembro de 2010, quando o julgamento chegou ao fim, pensei acrescentar um pós-escrito ao meu artigo de 2003. Mas quanto mais descobria sobre a investigação e o julgamento, mais perturbado ficava. Pareceu-me estar perante um caso clássico em que se tinham ignorado os verdadeiros e graves abusos sexuais que há muito sucediam nos lares da Casa Pia e à volta deles. Refiro-me ao número significativo de adolescentes dos colégios que trabalhavam como prostitutos, e à extensão das suas actividades. E ainda ao facto de que um abusador isolado - Carlos Silvino - continuou a abusar de rapazinhos da instituição durante cerca de 20 anos, até que Felícia Cabrita publicou o seu artigo, tão corajoso como necessário, no Expresso em Novembro de 2002. O problema foi que, logo que apareceu o artigo, algumas figuras importantes que durante anos tinham enterrado a cabeça na areia acharam que podiam salvar a sua reputação apresentando-se a si próprias como cruzados contra o mal. Começaram a falar de vastas e obscuras redes de pedofilia, de cuja existência não havia, na altura, nenhumas provas credíveis. Pelo menos, foi esta a impressão que tive ao tentar estudar em pormenor a maneira como a narrativa da Casa Pia foi sendo construída. Quando mais ia descobrindo, mais perturbado ficava com o que parecia ter acontecido em Portugal nos últimos oito anos. Antes que desse por isso, o meu 'pós-escrito', que não devia passar de umas centenas de palavras para serem publicadas no meu site da Internet, foi crescendo até ter milhares. E pensei transformá-lo em livro."

Sobre as fontes consultadas ou colaboradores portugueses adianta pouco: "Consegui obter diversos contactos em Portugal com pessoas que falam um inglês excelente e que têm um conhecimento muito bom do julgamento. Têm sido os meus guias, nas tentativas que fiz para seguir o que aconteceu." Uma dessas pessoas é, aparentemente, o jornalista Jorge van Krieken, citado no excerto do livro que Webster colocou no seu website. "É o único jornalista português que conheço que manteve uma atitude céptica em relação ao caso da Casa Pia. Foi atacado por muitos por o ter feito, mas isto não o demoveu de exprimir opiniões que se baseiam num exame pormenorizado de uma grande quantidade de factos." Quanto à alegação de que van Krieken teria sido contratado por Carlos Cruz para escrever em sua defesa, Webster diz desconhecê-la: "Não me lembro se ouvi ou não falar desses boatos, mas não me surpreende absolutamente nada que começassem a circular. Tenho que confessar que ter sabido agora da sua existência faz-me sorrir. É absurdo e é o género de coisa que acontece a quem começa a remar contra a corrente nos pânicos morais do género de que estamos a falar. Atacam--nos de todas as maneiras possíveis e às vezes fazem circular boatos maliciosos, por vezes sem compreenderem bem o que estão a fazer." Com Carlos Cruz garante nunca se ter encontrado. Mas trocou emails com o mais mediático e combativo dos condenados do processo. "E usei o seu site da internet, que contém muitos documentos do julgamento e é, por esta razão, uma fonte de referência valiosa. Também lhe enviei o rascunho de uma versão inicial do meu livro, porque queria usar os seus conhecimentos pormenorizados do caso para corrigir quaisquer erros óbvios. Pode acontecer que tenhamos opiniões semelhantes sobre a decisão dos juízes de apaziguar a sede de 'justiça' do público (ou talvez devêssemos dizer 'sede de condenações'). Mas se for este o caso, o meu ponto de vista não lhe deve nada. Baseia-se no estudo de muitos anos da forma como juízes britânicos encararam processos semelhantes, e formulei-o muito antes de o escândalo da Casa Pia ter começado."Apesar do seu esforço de conhecer o processo, Webster não se considera qualificado, sobretudo por não dominar o português, para "escrever um livro completo sobre o caso". "O livro sobre Bryn Estyn tem 700 páginas, este não passa das 80. É mais um ensaio que um livro. Mas espero que possa contribuir para uma tentativa de compreensão do que se tem passado em Portugal." E aquilo que, no seu entender, se tem passado tem motivações fundas. "As pessoas tendem a negar a realidade perturbadora dos abusos sexuais. Às vezes enterram a cabeça na areia e não dizem nada. Mas outras vezes, o que é ainda mais perigoso, para se convencerem de que estão a levar o problema a sério, acabam por travar enormes batalhas contra redes de pedofilia imaginárias. E fazem isto em vez de combaterem os abusos sexuais verdadeiros e comuns, muitas vezes feitos mesmo à sua frente por abusadores sexuais isolados. É uma tragédia, porque significa que os que estão, de facto, a cometer abusos escapam por vezes à justiça, enquanto que inocentes se vêem acusados de pertencer a redes criminosas, de cuja existência não há quaisquer provas credíveis." A insistência nestas narrativas tem ainda outros perigos, avisa: "Devido ao número enorme de alegações falsas que têm sido feitas no últimos 30 anos na América do Norte e na Europa Ocidental, a veracidade de quase todas as queixa de abuso tende a ser posta em causa. Em resultado disso, muitas pessoas que se queixaram, com verdade, de terem sido abusadas em lares de crianças, ou de serem vítimas de violação, podem descobrir que não acreditam nelas, ou recear que tal lhes venha a acontecer. Podem assim sentir-se espoliadas da sua integridade e da sua história. Isto também é uma tragédia, e não devemos subestimar a angústia que esta descrença pode causar." Há ainda o que identifica como o mais perverso dos efeitos: "As histórias sobre redes de pedofilia inexistentes fornecem a cidadãos educados e respeitáveis das sociedades modernas uma forma de pornografia, tal como a caça às bruxas fez há séculos. As pessoas estão a usar a sua indignação moral como meio de dar uma expressão aparentemente legítima às fantasias sexuais relativas a crianças, propagando e desencadeando o tipo de fantasias sexuais pervertidas com crianças a que supostamente nos opomos."

Webster, que se descreve como alguém que ganha a vida como editor e que escreve por vocação, tende a crer que a justiça portuguesa "se viu obrigada a chegar a esta sentença [a da condenação de vários arguidos] pela força tremenda da opinião pública". Se assim foi, reflecte, "pode acontecer que os juízes só tenham liberdade, na prática, de reconsiderar as sentenças originais se houver uma mudança significativa da opinião pública. Para isso acontecer, é preciso coragem da parte de muita gente, incluindo políticos e pessoas que influenciam a opinião. Isto pode não acontecer. Mas por outro lado, até pode."

Por via da dúvida, gostaria de ver Casa Pia - Uma Caça às Bruxas Moderna, ainda sem editora certa em Portugal, publicado por cá o mais depressa possível - "este é o género de projecto que, por a história ainda estar viva, precisa mesmo de sair como um livro instantâneo".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.