Portugal das tormentas ou da boa esperança

Na rota inversa de Bartolomeu Dias, quatro sul-africanos  descobriram Portugal. Uns para ficar, outros trazidos pela  tempestade até poderem  voltar - ao fim e ao cabo,  o fim do mundo fica onde calha

FERNANDA CÂNCIO

"Do que mais sinto saudades é das montanhas." Louis Fisher nasceu em Paarl, uma povoação perto de Cape Town com vista para as montanhas de Drakenstein, há 52 anos e vive em Cascais há oito. "Mas também gosto de chegar à janela e ver o mar". O mesmo mar - o Atlântico - que banha Cape Town, mas noutra latitude, que não planeia deixar apesar de as duas filhas, Justine e Gaby (21 e 20 anos) terem decidido fixar-se na terra dos pais. "Irónico, não?", comenta Louis, que deixou a África do Sul aos 26 anos, após um curso de dentista na universidade de Stellenbosch, para trabalhar em Inglaterra e acabou por não voltar. "Era para ficar dois anos e fiquei 18. Enquanto lá estava começaram as mudanças e havia o receio de que aquilo desse para a guerra civil... E os meus pais e família aconselharam-me a, se estava bem, permanecer na Inglaterra." E na Inglaterra ficou: conheceu lá a mulher, Colleen, também sul-africana, teve lá as filhas. A mudança para Portugal deveu-se à vontade de céu azul e calor. "Estávamos fartos de chuva." Ao fim de oito anos, apesar dos embates com "a burocracia" e da dificuldade da língua, Louis e Colleen sentem-se em casa. "Cascais é muito parecido, em termos geográficos, com a Cidade do Cabo. Podemos jogar golfe e ténis, adoramos a praia e andar ao ar livre e passear os cães", diz o seu sítio na Net. De viva voz, Louis confirma: "Não penso regressar à África do Sul a não ser em férias. Tenho aqui os meus amigos, estou aqui muito bem. A comida é muito boa, o vinho também..." E o negócio, parece, também não vai mal. Anunciando-se na Net como um dos poucos dentistas que falam inglês em Cascais (um pouco de exagero num país em que tanta gente fala inglês), Louis Fisher trabalha numa clínica e não se queixa, decerto devido à comunidade de estrangeiros da zona, em que conhece poucos compatriotas mas "muitos africanos".

Uma das clientes da mesma terra de Fisher é Fernanda Alves Schmelz, filha de uma sul-africana e de um português. Nascida em 1976 na então Rodésia (hoje Zimbabwe), viveu na África do Sul até aos 19 anos, quando veio para Portugal por causa de um concurso de misses. "Ganhei o concurso da miss Portugal / África do Sul, um concurso que mistura os dois títulos, e vim cá por isso. Fiquei com a minha avó paterna. Nunca tinha pensado vir viver para Portugal, mas tive uma oportunidade profissional e fui ficando." Fernanda, cuja mãe, apesar de não ter o português como língua de origem, "gostava muito e tentou ensiná-lo aos filhos" não teve um embate tão brutal com a língua como sucedeu com outros sul-africanos. Mas estranhou. "Não uso a palavra estranhar porque tento concentrar-me no lado positivo. Mas senti muito a falta do espaço - aquele espaço todo, a verdura. E nunca tinha vivido num apartamento, lá a maioria das pessoas vive em casas com jardim e piscina, está-se muito no exterior... Quando cá em Portugal se faz amigos, é normal encontrarem-se nos cafés porque as casas são pequenas; lá íamos às casas uns dos outros." A forma de tratamento também lhe pareceu nova. "Lá as pessoas tratam-se por tu - you - e aqui há muito o senhor doutor, o engenheiro. Os portugueses são mais formais e conservadores, os sul africanos mais descontraídos."

Cristiana Dias, outra sul-africana que também vive na zona de Cascais, onde explora um restaurante com o marido, Pedro, não se ensaia em ir bem mais longe que Fernanda. "Não é nada fácil adaptarmo-nos à maneira de viver aqui, é muito complicado. Olhe, primeiro o trânsito, é só rotundas por todo o lado..." Ri. "Depois é o problema com os papéis: nunca nada é feito na hora, é sempre noutro dia, sempre depois. E depois as pessoas umas para as outras: lá são solidárias e sinceras, aqui não. Aqui qualquer coisa falam mal, parece que estão sempre com inveja, com complexos. Sobretudo as mulheres das mulheres... Se o meu marido não fosse português eu nunca tinha vindo para cá." O cheiro de África - "Cheira a sol, sei lá. É um cheiro diferente" - a dimensão, tudo lhe falta. "É muito especial, então se uma pessoa nasceu lá... Hei-de voltar à minha terra, não vou ficar aqui, não. A minha família, e os meus amigos estão lá."

Natural de Moçambique mas sul-africana de nacionalidade, Cristiana tem 41 anos e vive em Portugal há 10. O restaurante dela e do marido, chamado Carvoaria, é de comida sul-africana, "com base de carne". A clientela é sobretudo estrangeira mas sul-africanos de gema vão lá sobretudo "os da embaixada". "Já ouvi dizer que vivem três mil sul-africanos em Portugal, mas não conheço muitos". Na embaixada, não se apresentam números: o registo não é obrigatório. Mas a ideia que a funcionária que fala ao DN tem é de que "sul-africanos mesmo, sem raízes portuguesas, há muito poucos e será sobretudo por casamento com portugueses."

Não é o caso de Alan Frank, 35 anos, a viver no Algarve, mesmo se acabou por casar com uma portuguesa. "Sou sul-africano 100%, não tenho nada de português e vim por causa do crime". Na cidade onde vivia, Springs, perto de Joanesburgo, e onde trabalhava num talho em part--time enquanto estudava com a ideia de ser engenheiro havia "muito crime", conta. "O apartheid tinha acabado, estávamos em 1993 e o meu cunhado, um português que casou com uma das minhas irmãs, convidou-me para vir para cá" Alan tinha 18 anos mas não hesitou, apesar de deixar a família para trás. Saudades tem, claro: "Uma pessoa tem sempre, não é?", mas não esquece ter visto, aos 17 anos, quando saía de um bar com um amigo, "uma pessoa levar um tiro mesmo à minha frente". A última vez que foi à terra de férias, de resto, crê ter escapado a outra experiência do género. "Vinha um carro atrás do nosso para nos assaltar, mas fugimos para uma bomba de gasolina. Há muito pouca segurança, lá, vendem metralhadoras a 100 euros..." O curso de engenharia ficou nos sonhos e Alan acabou por se dedicar ao trabalho que fazia em part-time: "Faço salsichas sul-africanas. São com um tempero especial, muito boas. Também fazemos carne seca, aquele tipo de carne que antes as pessoas levavam nas grandes viagens por África." Vende por exemplo para o restaurante de Cristiana e está a trabalhar num supermercado na zona de Vale de Lobo, onde a mulher é cabeleireira. Da comida portuguesa prefere o cozido - com muita carne, como os pratos da sua terra - e considera que a melhor está "mais para o Norte". Se voltava à África do Sul? "Sim, já amanhã, se aquilo voltasse ao normal".

Fernanda Schmelz não está na mesma disposição, apesar de certificar que na África do Sul nunca foi assaltada e em Portugal tal já lhe sucedeu duas vezes. Casada com um alemão, Mathias Schmelz, e com dois filhos nascidos em Portugal e a nacionalidade portuguesa entre as três que mantém (além da sul-africana tem ainda a do Zimbabwe), estabeleceu-se com o marido como empresária e apesar de manter uma ligação forte à África do Sul, com viagens uma ou duas vezes por ano e com um projecto de solidariedade que passa por construir escolas e bibliotecas, não conta voltar definitivamente. Mas tem do pais e da sua evolução uma opinião muito positiva. "Agora, estando fora, consigo ver as coisas de outra maneira, como uma águia que vê de longe e tenho mais facilidade de ver o que está certo e não está correcto. Eu nunca fui racista, não fui criada dessa maneira. Claro, notei que havia essas diferenças na África do Sul mas não questionava muito. Só quando comecei a viajar abri os horizontes. Estive em Portugal pela primeira vez aos 16 anos e percebi que aqui não havia segregação, que havia casais inter-raciais, crianças de todas as cores na escola. E quando voltei para a África do Sul comecei a notar. O meu último na escola lá foi o primeiro ano em que os africanos entraram nas escolas brancas. Foi uma mudança enorme num pais que já vivia daquela maneira há muito tempo. Era precisa muita coragem para eles, os negros, entrarem numa escola de maioria branca. Muita coragem. Foi uma mudança radical para o lado positivo, um grande desafio e acho que foi o melhor que podia acontecer, quer para o país quer para o mundo. E com cada geração que vai passando só vai melhorar porque há menos memórias desagradáveis. E perigo acho que existe em todo o lado."

Cristiana assente. "Tenho muita esperança no futuro da minha terra. O crime já esteve pior, e não acredito que vá haver uma guerra civil, acho que vai ficar melhor. Acho que o povo se vai unir e perceber."