Acreditar na utopia mas com os pés bem assentes na terra

Músico apresenta esta noite na Casa da Música o álbum 'Walden Pond's Monk', inspirado na obra de Henry David Thoreau.

Estamos a começar a perceber cada vez melhor que os governos, os tribunais, os mercados, não estão sempre certos". Esta noção da necessidade de preservar a liberdade individual é algo preponderante para Tiago Sousa, músico que lança na próxima semana o álbum Walden Pond's Monk, no qual se debruça sobre a obra do escritor e filósofo norte-americano Henry David Thoreau (1817-1862), que também questiona estas mesmas lógicas.

Tendo começado como editor na netlabel Merzbau, através da qual lançou os primeiros trabalhos de nomes como B Fachada ou Noiserv, a conduta de Tiago Sousa pela indústria musical pauta-se precisamente pela emancipação individual: "Tento o máximo possível ter os pés assentes na terra porque é isso que me dá liberdade. Quanto mais desligado estiver da lógica de mercado e de consumo da própria indústria, mais facilmente sou eu a ditar as regras do jogo. A minha noção de liberdade vem desta atitude perante a indústria." E acrescenta: "O que me entusiasmou na Immune Recordings (editora norte--americana que lança este novo álbum) foi esta noção de que o investimento é feito de forma equilibrada e de parte a parte e todos pretendemos que a minha música chegue ao maior número de pessoas sem que isto signifique obrigatoriamente correr riscos estéticos demasiado grandes."

Apesar duma fase ligado às convenções pop/rock, o piano teve um papel preponderante na sua identidade musical desde os tempos em que recebia lições da avó. Agora chega então este Walden Pond's Monk, inspirado pelo espírito idealista e revolucionário que Henry David Thoreau desenvolveu nas obras Walden ou a Vida nos Bosques e Desobediência Civil : "Decidi pegar no património ideológico que Thoreau nos deixou e transformar isso numa estética musical", explicou.

Aliás, há questões que Henry David Thoreau problematizou na sua obra que ainda se mantém actuais. E também Tiago Sousa reflecte sobre as problemáticas vigentes na actualidade que não estão directamente relacionadas com a criação musical: "Ele recusou-se a pagar impostos porque não concordava com a sociedade esclavagista e imperialista dos EUA na altura, achava que pagar impostos significava alimentar esse estado de coisas. Há aqui uma noção de que a máquina institucional e regente não contempla as próprias ambições de cada ser humano. A própria concepção de democracia tem algo de perigoso que é a ditadura das massas, e também aqui é preciso preservar a lógica de que aspiração pela felicidade dos indivíduos tem necessidade de ser contemplada e de se fazer valer", referiu.

Além da emancipação individual, a simplicidade, a contemplação da natureza e a construção da utopia são alguns dos valores-chave na obra de Thoreau e com os quais o próprio músico se debate: "A utopia é utilizada de forma muito demagógica. Dizem-nos que a utopia não serve para a nossa vida de comuns mortais, mas, se pensarmos assim, antes de existir democracia o próprio conceito de democracia era uma utopia. A utopia é a capacidade de o homem poder imaginar uma vida melhor do que a que tem. É uma construção do futuro, mas que deve ser uma ambição do próprio colectivo de atingir um ponto de maturidade em que essa utopia deixa de ser vista como tal. Quando faço este objecto artístico estou no fundo a dizer às pessoas que as utopias podem ser guias para atingirmos certos pontos e é o que eu tento fazer com o disco", reflecte.

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