A única vitória 'portuguesa' na eurovisão

Descendente de portugueses, venceu o festival em 1977 com 'L'Oiseu et L'Enfant', canção que representava a França. Ainda hoje se mantém em actividade.

Portugal participou pela primeira vez no Festival da Eurovisão em 1964. A italiana Gigliola Cinquetti vencia ao som de Non Ho L'Età. António Calvário via a estreia portuguesa ser acompanhada com uma pequena manifestação em palco contra Salazar. E regressava com zero pontos. Ao longo dos muitos anos (e participações) que se seguiram muitos foram os pontos que as canções portuguesas foram recolhendo. Mas até hoje o melhor resultado nacional nunca foi além de um sexto lugar (em 1996, com Lúcia Moniz). Mas a uma descendente de portugueses coube já bem melhor sorte. Foi em 1977, em representação da França, e com a canção L'Oiseau Et L'Enfant.

Londres, 7 de Maio de 1977... As 18 canções concorrentes tinham já sido apresentadas, entre elas Portugal no Coração, pel'Os Amigos. A votação começara sem contemplar a canção portuguesa, mas dando os dez pontos (que equivalem à segunda melhor pontuação) à canção francesa. Um pouco mais adiante, França tomava por instantes a liderança, logo depois reclamada por Rock Bottom, a canção que representava o Reino Unido. Mas é a meio do processo, novamente com dez pontos dados por Israel, que L'Oiseau et L'Enfant dispara definitivamente para o comando da votação. Já tinha colhido os 12 pontos da Alemanha, a caminho vinham outros tantos da Suíça e, depois, da Finlânda. No final, somando 136 pontos (contra os 121 do Reino Unido e os 119 da Islândia), França ganhava o Festival da Eurovisão. No seu primeiro triunfo desde 1962... Mas desta vez com um valor acrescentado para todos os portugueses. Curiosamente, de Portugal a canção francesa recebeu nessa noite uns magros... 5 pontos.

Nascida em 1954, descendente de portugueses, Myriam Lopes Elmosnino passara parte da sua infância na República Popular do Congo, antes de conhecer nova casa em França. Quando em 1977 vence o Festival da Eurovisão era ainda quase uma estreante nos meandros da música gravada. Tinha-se estreado um ano antes com Ma Colombe, que lhe dera um primeiro êxito no Canadá. L'Oiseu et L'Enfant leva-a contudo aos ouvidos de todo o espaço europeu (ocidental, entenda--se, correspondendo aos países que então participavam no concurso). Edita a canção vencedora em disco e chega mesmo a gravar uma versão em língua portuguesa.

Logo depois junta à sua carreira na música ligeira, da qual resulta uma sucessão de novos discos - entre os quais Un Homme Libre (1979), Le Coeur somnambule (1979) ou Los Olvidados (1980) -, uma série de trabalhos para os mais pequenos, cantando na banda sonora de séries de animação.

Entre a família e um restaurante que abre em Paris encontra outras prioridades, afastando-se da música em inícios dos anos 90. Reaparece pontualmente em actuações de beneficência ou quando uma nova antologia entra em cena.

O seu rosto não perde todavia o calor de uma relação familiar com o grande público francês. E com alguma regularidade tem sido, nos últimos anos, um dos mais frequentes rostos do júri francês na hora de revelar as pontuações no Festival da Eurovisão.

A vitória eurovisiva, em 1977, foi o momento maior da sua vida musical para lá das fronteiras francesas. O single atingiu o n.º 5 na Suécia, o n.º 17 na Holanda e o número 42 no Reino Unido.

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